Questão de soberania nacional
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de maio de 1999
Jota Oliveira 
Entre as preocupações predominantes no Congresso Brasileiro de Soja, encerrado quinta-feira em Londrina, uma foi a desarticulação dos vários segmentos que compõem a cadeia desse agronegócio, que poderia ter como resposta a idéia do secretário da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Antônio Leonel Poloni, para quem a agropecuária deve ser colocada no centro das atenções da economia brasileira.
A importância da agropecuária na economia é demonstrada pela balança comercial, em que esse segmento tem sido muitas vezes o único peso mais forte na balança, do lado brasileiro. Falando na abertura do Congresso Brasileiro de Soja, segunda-feira, Poloni apoiou a idéia, lançada pouco antes pelo presidente do evento, José de Barros França Neto, de uma associação nacional dos produtores de soja, produto que o Secretário considera indispensável - devido à importância que a soja tem para o Brasil e as variantes que ela nos oferece em defesa da soberania nacional -, e sugeriu que o presidente da República encare a soja, o trigo e outros produtos como uma questão de soberania nacional.
Profissão maiorO secretário de Agricultura do Estado pediu a todos que considerem a agropecuária uma profissão; não apenas atividade agrícola.
A soja, disse Poloni, não é produzida com destaque no Paraná porque os pesquisadores fizeram uma boa pesquisa, ou apenas devido à extensão rural, que está completando 43 anos no Brasil - e faz chegar mais rapidamente a tecnologia ao campo -, mas sobretudo devido à maior profissão deste país, a agricultura.
Devemos a evolução da soja à maior profissão do País, a agricultura, que muitas vezes continua mendigando favores de assistência técnica, extensão, financiamento, seguro, tudo, afirmou Poloni.
Depois de lembrar a participação positiva da agricultura na balança comercial, Poloni questionou: Se não fosse a agricultura, como seria a balança comercial deste país? Por isso, o Secretário acha que a agropecuária deveria estar sempre no centro da economia brasileira, mas sempre, não esporadicamente. Para conseguir esse feito, o setor necessita que o Ministério da Agricultura seja forte, não dependente das decisões tomadas em outros gabinetes.
ArticulaçãoPouco antes, na abertura dos trabalhos, o presidente do congresso, José de Barros França Neto, propusera a interação de todos os participantes da cadeia produtiva da soja, começando pela criação da associação nacional dos produtores.
No momento a soja é a mais importante commoditie do Brasil, pois equiavale a 31 milhões de toneladas por safra, no valor de R$7,5 bilhões, ou cerca de 8% do PIB agropecuário do País. O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo.
O presidente do congresso disse que todo o complexo soja não pode mais se limitar a encontros esporádicos. Força desorganizada e desarticulada, ela precisa, no seu entender, organizar-se, planejar e avançar, para colocar o Brasil na condição de líder líder mundial na produção e industrialização da soja.
Soja tropicalO Centro Nacional de Pesquisa de Soja, sediado em Londrina, foi criado em 1975. Desde então, lembrou o chefe da unidade da Embrapa, José Francisco Ferraz de Toledo, conseguiu desenvolver uma soja brasileira, tropical, adaptando-a de Boa Vista, em Roraima, a Pelotas, no RS; de Vilhena, em Rondônia, a Barreiras, na Bahia. Numa área como essa - acrescentou á- são esperadas grandes dificuldades para a produção, no que diz respeito a cultivares, manejo da cultura, doenças e pragas. Mas, os pesquisadores se anteciparam e, na maioria das vezes, permitiram que esses problemas fossem resolvidos à medida que aparecessem.
O manejo da cultura permitiu resolver as questões da fertilidade, das doenças, das ervas daninhas e até da recuperação, para cultivo, dos solos de Cerrados. Antes da soja esses solos tão velhos geologicamente nada mais suportavam que alguns anos de cultivo sem grandes retornos, ou pastagens pouco produtivas. Hoje os Cerrados estão integrados no processo moderno de produção agropecuária, disse Toledo. Ele afirmou que a produção agrícola não pode ser considerada fora do contexto do agronegócio, que por sua vez só é sustentado dentro do enfoque de cadeia produtiva, e comentou que agora a missão da Embrapa Soja é encontrar soluções para o agronegócio da soja; a competência para seguir adiante.
Momentos difíceisToledo reconheceu que a produção de soja no Brasil passa por momentos difíceis, principalmente devido ao (baixo) retorno financeiro. Ele lembrou que o custo médio de produção está em torno de R$450,00 o hectare; a produtividade brasileira se situa ao redor de 40 sacas (2.400 kg) por hectare, e os preços acham-se em torno de R$14,00 a saca de 60 quilos. Portanto, é imperiosa uma revisão de custos e o aumento da produtividade média brasileira para os níveis já atingidos pelos Estados do Paraná e Mato Grosso, que produzem em torno de 2.650 kg/ha, destacou. Outra saída, apontada por Toledo, é agregar valor à produção, com a migração de processadores e produtores de suínos e aves para as regiões produtoras do Brasil Central.
Como cerca de 70% da soja ainda são exportados, o transporte, destacou o chefe da Embrapa Soja, tem papel preponderante na manutenção da viabilidade econômica da soja. Ele salientou que os problemas de transporte precisam ser resolvidos, sob pena da perda de competitividade. Da produção dos Cerrados, principalmente.
Os corredores intermodais brasileiros do Centro-Norte, do Centro-Leste, corredor Noroeste, corredor Nordeste, corredor Cuiabá-Santarém; os corredores Tietê-Paraná e Paraná-Paraguai têm função muito importante nessa redução de custos, analisou Toledo.
Para Toledo, outras importantes restrições que precisam ser resolvidas são relacionadas à tributação e despesas portuárias. Pelo lado da pesquisa agropecuária, as principais novidades no que diz respeito à redução de custos e aumento a produção e qualidade de grãos, ficam por conta das novas cultivares geneticamente modificadas. Elas prometem, em curto espaço de tempo, alterar as condições de cultivo, a qualidade do produto até a modalidade do manejo, alterando significativamente a sustentabilidade da soja e suas culturas associadas, concluiu o
chefe da Embrapa Soja.


