Yasuo Tamekuni e a soja sobre palha: 23 anos em plantio diretoNão é preciso ir longe, para ver os efeitos negativos da chuvarada do começo de dezembro em lavouras semeadas sobre a terra nua, em terrenos arados, mesmo protegidas por curvas-de-nível: as enxurradas destruíram cordões e sulcaram o solo, arrastando as plantas pequenas, sementes ainda não germinadas e insumos. Isto aconteceu, por exemplo, no município de Londrina, polo de uma das regiões de agricultura mais desenvolvida do País.
Na Fazenda Horizonte, de Yasuo Tamekuni, no distrito de Lerroville, a soja ocupa 55, dos 85 alqueires cultivados. O milho está no restante da propriedade. As enxurradas não fizeram estragos lá, porque o lavrador utiiza plantio direto. Ele começou a empregar o sistema há 23 anos, para segurar as curvas-de-nível que não aguentavam chuvas fortes. Além disso, interessara-se por rotação de culturas.
CoberturaPalhada farta, protegendo das intempéries o solo e seus microorganismos
VantagensYasuo Tamekuni diz que uma das vantagens do plantio direto - além da proteção do solo contra a erosão, e da microfauna que poderia ser queimada pelos raios solares se estivesse em terreno desprotegido - é a rapidez do plantio. Outras são a conservação, por mais tempo, da água no solo, o que permite às plantas resistirem mais a períodos secos; menor necessidade de máquinas, menos implementos, menor consumo de combustível, preservação do ambiente e, no final, custo menor.
Como faz plantio direto, Tamekuni necessita de apenas dois tratores - um mais potente, para o plantio; outro mais leve, de cabine, para aplicação de insumos, principalmente herbicidas. ‘‘No sistema convencional eu precisaria de no mínimo cinco tratores’’, calcula o fazendeiro. Ele salienta que, no sistema convencional, o risco e o custo são maiores: ‘‘Muitas vezes o produtor tem que replantar’’, se a lavoura é prejudicada pelo mau tempo.
Lavoura convencional, em Londrina: erosão pela enxurrada e princípio de
vossoroca
Outra vantagem destacada por Tamekuni é a produtividade. ‘‘No ano passado, mesmo com seca, colhi em média 130 sacas de soja por alqueire’’, lembra. Em condições normais ele teria tirado da lavoura 135 sacas/alqueire. No milho, a média da Fazenda Horizonte é de 300 sacas/alqueire. De trigo, este ano Tamekuni colheu entre 80 e 150 sacas/alqueire. A produtividade oscilou conforme a variedade de semente utilizada por ele.
Durante anos, na sua região, a propriedade de Tamekuni era como um oásis cercado de terras desprotegidas. Ele conta que hoje a situação está mudada. ‘‘A maioria dos produtores daqui já entraram no plantio direto’’, afirma ao pesquisador Ademir Calegari, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e ao técnico agrícola da Cooperativa Agropecuária de Produção Integrada do Paraná Ltda., (sucessora da Cotia), José Roberto Pinto. O Iapar desenvolve a tecnologia, e a Integrada leva ao lavrador as informações técnicas que ele utiliza.
RotaçãoTamekuni faz rotação de culturas no inverno. Ele planta, nesse período, nabo-forrageiro, aveia e trigo. Começou a fazer plantio direto para melhorar a rotação, que empregava contra problemas de ervas-daninhas, pragas e doenças que a sucessão de lavouras da mesma espécie poderia preservar ou estimular de uma safra para outra.
O retorno econômico tem sido bom; a produtividade é estável, em anos secos ou quando chove em excesso. Em 1995, lembra, colheu 270 sacas de milho por alqueire, enquanto vizinhos chegaram a gradear a plantação e não colheram nada. Além disso, Tamekuni destaca as boas condições do solo, que tem hoje 7% de matéria orgânica, enquanto na região essa proporção, em média, é de 2,5%.
Por ali tem gente que já perdeu herbicidas (principalmente) e outros insumos. Estes precisarão precisar gradear de novo o terreno da soja, devido às enxurradas, aumentando o custo.
Redução de custoCalcula-se que o plantio direto na palha reduza em cerca de 30% o custo de produção de soja e milho, em relação ao método tradicional. Apesar das vantagens, hoje, em apenas cerca de 10% da área disponível para agricultura, no Brasil, é usado o plantio direto. Técnicos e agricultores prevêem que o método poderá acrescentar, no curto prazo, 40% à produção agrícola nacional.
Isto, em parte, devido à recuperação dos solos danificados pelo mau uso das máquinas agrícolas. Estima-se que seja possível uma redução de até 70% no consunmo de óleo diesel, e de 20% a 40% nas despesas de reposição de máquinas e implementos agrícolas.
Além disso, o sistema é importante para a alimentação de microorganismos que enriquecem o solo, e para estimular a capacidade biológica do ambiente. Isto dá ao solo a possibilidade de manter sua fertilidade, como observou recentemente, no Rio Grande do Sul, o presidente da Sociedade de Conservação dos Solos do Chile, Carlos Crovetto, em encontro internacional sobre plantio direto. Crovetto disse ainda que a rotação de culturas é importante para o sucesso das propriedades que utilizam o plantio direto. ‘‘Com rotação, eliminam-se as pragas até que seja feito um novo plantio de sementes’’, explicou.

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