Quem precisa de planta transgênica?
Quem precisa de planta transgênica?
Luiz Geraldo de Carvalho Santos
O problema de plantas transgênicas é que o Planeta não precisa delas. A vida existe há, pelo menos, 2,5 bilhões de anos; o homem surgiu há uns 300 milhões de anos. O homem faz agricultura há uns 10 mil anos. Portanto, a vida tem sido capaz de conviver com pragas desde sempre, sem que por isso precisasse de uma mãozinha do homem.
E qual o problema de existirem plantas transgênicas?
O problema é que a Natureza tem um processo lento e gradual de seleção e melhoramento das espécies. Alguns estudiosos dizem que o processo pode não ser tão lento e tão gradual assim. Bom, mas uma coisa é certa: pelo menos nos registros históricos conhecidos, em nenhum momento da história do Planeta uma espécie teve tanto poder sobre as outras, a ponto de extinguir e criar novas espécies.
Acontece que as plantas (e outros seres transgênicos) serão produzidas em escala massal e global e não somos capazes de prever as consequências desse processo. Mas não temos laboratórios modernos e eficientes com métodos cuidadosos e pesquisadores zelosos do seu dever? Sim, temos.
Também tínhamos quando foram inventados os inseticidas sintéticos, e a comunidade científica, ou agronômica, também afirmava que tais produtos não traziam consequências maiores para o ambiente. Hoje sabemos que na década de 60 já havia resíduos de organoclorados que podiam ser detectados em cascas de ovos de águias-carecas do Alasca e pinguins da Antártida, prejudicando, principalmente as águias que ficavam com a casca de seus ovos muito finas e tiveram redução de população (além da caça) também por este motivo.
E o que o agricultor tem a ver com a águia-careca do Alasca, daquele fim-de-mundo? Tem a ver é que não somos capazes de controlar o que acontece com uma substância química que não tem a capacidade de automultiplicação, quando ela é liberada no ambiente e pode viajar milhares de quilômetros e afetar inúmeras espécies de animais e vegetais, e consequências que só poderiam ser previstas se tivéssemos um planeta onde não houvessem seres humanos que pudessem fazer experimentos desse tipo, liberando substâncias no ambiente e monitorando o que aconteceria com tais substâncias durante um período de tempo.
Ora, teríamos que usar uma escala de tempo de menos um ciclo de vida de um ser mais velho, já que o nosso ciclo de vida (80 anos) não é dos maiores. Portanto, não teríamos condição de avaliar o impacto sobre outras espécies.
Qual seria um exemplo de ser vivo que pudéssemos usar como padrão? É difícil dizer, mas poderíamos usar uma araucária, que vive de 200 a 300 anos, ou uma peroba, que vive 500 anos. Talvez uma oliveira, que pode ter até 2 mil anos. Acho que o ideal seria uma sequóia de 2.500 anos.
Por que uma escala de tempo tão longa?
Porque os seres transgênicos são espécies totalmente desconhecidas e existe um processo chamado co-evolução, que nada mais é do que a evolução conjunta de organismos de um mesmo ecossistema que, ao longo de milhares de anos de evolução, vão-se adaptando uns aos outros à medida que cada um aprende a se defender do outro, mas o outro aprende a superar aquela defesa, ou então duas espécies descobrem que é vantajoso ter uma parceria onde as duas se beneficiem.
É por isso que, num ambiente natural, não existe praga, mas predadores e presas que interagem com uma série de outros predadores e presas num sistema complexo de competição e convívio, que é capaz de manter a vida continuamente. Isto é o que interessa, em última palavra, à Natureza.
Mas,enfim, o que a transgênese tem a ver com isso? Simples: o pesquisador pega uma planta de milho, com um gene de uma bactéria que produz uma substância que mata as lagartas que atacam o milho, faz uma série de testes durante 5 a 10 anos, depois chega à conclusão de que nos testes feitos o milho é seguro, já que o milho a Natureza conhece, assim como a substância da bactéria.
Mas a lagarta que teve que co-evoluir com o milho e com a bactéria só era atacada quando comia o milho, se as condições em que o milho estava plantado fossem favoráveis para causar a doença na lagarta. Nunca a lagarta (que é inseto e existe há muitos milhões de anos a mais do que qualquer macaco que tenha dado origem ao homem) teve que enfrentar um milho que tivesse uma defesa específica tão forte contra ela. É por isso que a lagarta, para sobreviver até hoje, não precisou tornar-se resistente à bactéria que a partir do milho transgênico estará dentro do milho.
Portanto, como seria possível prever consequências de todos os outros organismos que evoluíram com o milho, que também não tiveram que comer a mesma bactéria irão reagi? Como irá reagir uma espécie de percevejo que nunca teve que sugar uma baga de soja resistente a um inseticida? Como irá reagir uma espécie de mosca-branca (a praga da vez) a esta mesma soja, ou a uma espécie de tomate que não deteriora e que pode ficar fora de geladeira por 60 dias?
É responsável liberar no ambiente, em escala global, este tipo de produto do qual não temos a possibilidade de saber quais as consequências no ambiente? E se escapar alguma bactéria modificada em laboratório? Uma substância química que caia em um rio viaja pelo Planeta todo, afetando de maneira imprevisível milhares de espécies de vegetais e animais, mas a substância química não se multiplica, pois não tem vida. E uma bactéria usada para transferir um gene qualquer como se comportará no ambiente, se escapar de um laboratório? Como reagiriam os insetos a essas plantas modificadas e cultivadas em vastas extensões de terra? Será que conhecemos todos os insetos que podem se alimentar das plantas cultivadas? Em 1940 não havia sequer 50 espécies de pragas que atacavam lavouras comerciais. Atualmente existem perto de 1.000 espécies. Mas são novas as espécies que surgiram? Não são pragas novas. São competidores das plantas cultivadas que sempre existiram, mas que ou não conheciam a espécie cultivada, ou viviam dentro de seus ecossistemas, até aparecer o homem com pesados agrotóxicos. Mas se as plantas transgênicas não são seguras, porque cultivar tais coisas? Esta pergunta deve ser respondida com outra: quem precisa das plantas transgênicas?
O autor é engenheiro-agrônomo, produtor de tomate orgânico e consultor em agricultura orgânica.





