Quem paga a conta da rastreabilidade?
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sexta-feira, 20 de setembro de 2002
Cláudia Barberato<BR>Reportagem Local 
Em todo o Brasil, a questão mais discutida entre os pecuaristas é qual será o verdadeiro ''preço'' a ser pago pelo sistema de rastreabilidade. A reclamação mais comum tem sido sobre a forma como a medida foi imposta.
A maioria se queixa dos custos para implantação, um ''investimento'' que não estava previsto e que caiu, na opinião de muitos, como uma verdadeira imposição dos compradores da carne brasileira no mercado internacional.
Reclamando ou não da exigência do mercado, apoiada pelo Ministério da Agricultura (MAPA), por meio do Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov), existem prazos a serem cumpridos para aderir a rastreabilidade e atender compradores internacionais, sobretudo a União Européia (UE), destino do maior volume da carne brasileira.
Segundo técnicos do Governo, a determinação substitui a rastreabilidade parcial, caracterizada pelo acompanhamento do animal somente a partir da sua entrada no frigorífico. Agora a rastreabilidade tem que ser feita do nascimento do animal até o consumidor.
A polêmica começa na hora da entrega ao frigorífico já que a maioria dos pecuaristas não tem recebido pela entrega do animal rastreado.
De um lado, pecuaristas acreditam que a indústria exportadora deva bancar o custo do rastreamento; ou que o Governo reveja as regras do Sisbov e possa sentar com a categoria e esclarecer os pontos ainda obscuros. Produtores reclamam muito da falta de informação.
Na outra ponta, a indústria alega não ter condição de assumir custos, porque não tem vantagens na venda da carne de animais rastreados e que isso está sendo feito para cumprir determinações do governo e dos compradores do mercado externo.
Técnicos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) acreditam que a decisão da indústria de não pagar mais por esse critério pode prejudicar o próprio frigorífico, que ficará sem matéria-prima.
Para o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), João Almeida Sampaio Filho, os pecuaristas não podem arcar com as despesas de acompanhamento do animal. ''O pecuarista não trata diretamente da exportação e, portanto, não deve arcar com este custo'', garante.
O presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, Carlos Viacava, conta que os pecuaristas têm reivindicado a criação de um comitê, com participação de todos os elos da cadeia produtiva, para esclarecer dúvidas o Sisbov. Outro pedido é para que a adesão seja espontânea e não compulsória, permitindo a criação de critérios de remuneração diferenciada.
Algumas indústrias, segundo Viacava, omitem do pecuarista de que aqueles animais que está recebendo terão a carne destinada à exportação, ''porque senão teriam que pagar a mais.''
Viacava não economiza críticas ao processo. Para ele, por enquanto, o rastreamento consiste em apenas em colocar um brinco e dar um número para o animal. ''Estamos apenas tapando o sol com a peneira.''
Segundo ele, na venda de cotas de carnes sem taxação é possível obter valores ''quatro vezes maiores'' do que se consegue no mercado interno. ''Por isso é possível remunerar melhor o pecuarista.'' Para as exportações taxadas, Viacava acredita que a indústria possa estar ganhando o triplo. Embora a indústria alegue que exporta as carnes de primeira por preço melhor - mas perde na venda do restante do boi no mercado interno, que não tem renda para grande consumo -, ainda assim, na opinião de Viacava, o pecuarista é o único que não vê nenhuma fatia da lucratividade.
Parcerias - A posição de algumas indústrias é de que os custos com a rastreabilidade devem ser feitos em parceria com os pecuaristas, que devem encarar as despesas como investimento para manter mercados. Outras já acreditam que é de total responsabilidade do setor produtivo o custo de atender a exigência.
O que alguns frigoríficos têm feito é o pagamento de R$ 1 a mais pela arroba, no que chamam de ''parceria com a pecuária, para incentivar a entrega de animais rastreados.''
De acordo com o diretor da FNP Consultoria & Comércio, Vicente Ferraz, a iniciativa de frigoríficos do Paraná, que estão pagando esse R$ 1 a mais por arroba - R$ 16 a mais por cabeça - é interessante. ''A partir do momento que os frigoríficos perceberem que há pouca oferta por esse tipo de animal, eles passarão a pagar mais'', acredita.
Segundo Ferraz, o preço médio de exportação de carne até julho ficou em US$ 812 mil/t da carne industrializada e US$ 1.525/t para o produto de primeira, in natura, que vai do filé, vendido para a União Européia, até outros cortes de carne, inclusive de segunda, enviados para para Egito, Índia e outros países. Esses números referem-se a preços FOB de exportação, pagos pelos importadores, já deduzidos custos da indústria e transporte.
Lucro da indústria - O diretor da FNP afirma que é difícil usar um único critério de cálculo para chegar a valores de quanto a indústria possa estar ganhando na exportação.
''Tentar tirar uma média, considerando a heterogeneidade dos cortes e contratos, é querer misturar tatú com cobra. Fica difícil chegar a preços recebidos pelos exportadores (dólar/arroba) para compará-los aos preços recebidos pelos pecuaristas.''
No entanto, avalia Ferraz, normalmente a exportação remunera o boi entre US$ 22 a US$ 23 a arroba e paga ao produtor, no momento, menos de US$ 16/arroba.
''Com certeza os frigoríficos ganham dinheiro e é por isso que a exportação ganha tanta velocidade, mas há momentos em que o preço está acima dos US$ 20 no mercado interno, aí a margem dos exportadores é menor.'' Ultimamente, segundo o analista, como os frigoríficos têm pago menos de US$ 16, com certerza tem sobrado uma boa margem de lucro.


