Quem abre é por conta e risco
O agricultor Renato Joner é um dos paranaenses que se arriscaram no Oeste baiano. Ele chegou à região de Mimoso do Oeste, distrito de Barreiras, em 1985. Vinha de Toledo, no Sudoeste paranaense. No Paraná, filho de agricultores gaúchos, antes de trabalhar no campo foi bancário. As terras eram caras e inacessíveis para quem queria começar. Aqui encontrei terras baratas e de topografia plana.
Joner comprou 500 hectares na região de Mimoso. Ele lembra que o preço por hectare, na época, era o equivalente a uma boa refeição. Hoje ainda se encontra terra a preços baixos, mas é preciso saber que a terra é bruta, sem nenhuma benfeitoria. Transformar essa terra barata em produtiva dá trabalho e demanda tempo. Pelo menos três anos.
A longo prazoEm soja, por exemplo, moeda usada pelos agricultores como índice econômico, ele calcula que o preço da terra bruta equivale a 15 a 20 sacas por hectare para áreas brutas ou US$150 a US$200 por ha. Nas terras trabalhadas o preço aumenta. Mesmo assim ele faz um alerta: Transformar essa terra barata em produtiva dá trabalho e demanda tempo. Pelo menos três anos.
Dos primeiros 500 ha, Joner hoje tem 4 mil ha, dos quais 1500 ha produzindo. A soja soma 1000 ha, depois vem o feijão com 265 ha, arroz com 265 ha e café com 53 ha no cultivo superadensado. O arroz é boa rotação de cultura para a mesma área onde se cultiva o feijão.
Segundo o agricultor, o feijão, nesse ano, foi excelente negócio e promete, no ano que vem, manter-se como mercado razoável. Mas a cultura, alerta, está exigindo alta tecnologia, especialmente no combate a pragas, como a mosca-branca. A média de produção para o irrigado está em 52 sacas por ha. A mosca-branca vem afetando a produtividade do feijão e provocando o mosáico-dourado que pode até inviabilizar, não só o feijão mas culturas como tomate e outras. O método mais eficaz de controle ainda tem sido o uso de defensivos altamente perigosos ao homem e meio ambiente. Importante seria incrementar as pesquisas para desenvolver o inimigo natural do inseto.
Boas produtividadesAlém do feijão irrigado, Joner cultiva café, algodão, arroz e soja. A produtividade da soja, em 97, ficou entre 45 e 50 sacas por ha e, a tendência, aumentar mais. A produtividade do arroz ficou em 80 sacas por ha. Joner explica que hoje não se usa mais o arroz para abertura de novas áreas de agricultora naquela região. Na verdade, hoje estão se abrindo poucas áreas. Alguns agricultores entram direto com o cultivo da soja, fazendo correção, calcareando.
De 97 para cá, explica Joner, os produtores têm procurado aumentar a produtividade e não somente a área de plantio, em função de custo elevado para abertura de novas áreas e a falta de financiamento para a operação. Não existe, por exemplo, financiamento para correção do solo. Quem abre é por sua conta e risco.
Joner, nas áreas onde colhe a soja no verão coloca, no inverno, milheto e ou sorgo. A operação serve para um plantio direto mínimo já que há, pela seca, dificuldade de juntar palhada necessária ao plantio direto pleno.
Clima ajudaAté agora, segundo Joner, o seu maior lucro foi com a lavoura de feijão. A soja se coloca dentro das médias históricas. E ele aposta agora no café. Está fazendo a primeira área. Produtores que já colheram sua primeira safra estão otimistas. Somente em áreas irrigadas 50% dos cultivos são feitos a partir do plantio convencional e o restante pelo modelo adensado.
Além de excelente produtividade por área, garante o produtor, o clima da região favorece a qualidade do café. Não há chuvas durante a operação de colheita. O clima, de modo geral, funciona como uma estufa para o café, com temperaturas mínimas e máximas ideais.
Não se plantava café antes, por falta de irrigação. Joner adotou a irrigação para outras culturas desde 1992. Hoje tem três pivôs centrais, somando 300 ha irrigados. A captação é feita de um rio chamado Rio de Janeiro, um manancial controlado por órgãos de fiscalização do Governo e Comissão de Recursos Ambientais.
Segundo Joner, considerando a vazão mínima e histórica do rio e todos os equipamentos ligados ao mesmo tempo, o que é muito difícil de acontecer, hoje não se tira mais do que 15% da água, dando uma margem de segurança para o rio. A lei determina um percentual de 40% para uso da água.
Sem limitesA água do subsolo, afirma Joner, é outra grande novidade da região. Hoje não existe mais limitação para aumentar área de agricultura irrigada. Depende de coragem e dinheiro. Joner conta que a maioria dos agricultores da região instalou os pivôs com recursos próprios financiando, em alguns casos, apenas o custeio da lavoura.
A região, segundo ele, tem aproximadamente 500 pivôs centrais, já que existe água em abundância. Há apenas alguns casos onde se usa a irrigação por gotejamento. Os equipamentos, na sua maioria, são provenientes dos Estados Unidos. Outras máquinas utilizadas na lavoura, garante, são de primeira linha. São máquinas novas, de quatro anos em média e a maioria de apenas dois anos de uso.
ProgramaçãoJoner procura renovar a maquinaria de sua propriedade numa média de 4 anos a 2 anos.Se for para comprar máquinas usadas, mudo de ramo, porque isso representa um regressão. O agricultor tem que plantar na época certa, programar seu calendário e com máquinas velhas ou usadas demais, sem falar em desreguladas, isso não é possível. As propriedades, segundo Joner, por serem de grandes áreas, viabilizam a compra da maquinaria.
Há preocupação também de usar tecnologia de ponta nos cultivos. Técnicos que assessoram cultivos em regiões tradicionais em produção de café também prestam serviço aos agricultores do Oeste baiano. Outras culturas também têm assessoria especializada e os próprios agricultores, na sua maioria, são bem informados a respeito de tecnologia e mercado de seus produtos.
ParceriasNa soja, por exemplo, há orientação sobre uso de novas variedades, especialmente aquelas resistentes ao cancro-da-haste, o que já foi um problema para os agricultores daquela região. Hoje temos problemas fúngicos e estamos preparados também para o nematóide.
A Fundação BA, nos mesmos moldes da Fundação MT, do Mato Grosso; Embrapa e outros órgãos de pesquisa estão em contato direto com os produtores da região, para formação de bancos genéticos de sementes multiplicadoras e variedades testadas e melhor adaptadas à região. Parcerias, segundo Joner, agilizam o trabalho de pesquisa de novas variedades. A Associação de Agricultores e Irrigantes do Oeste da Bahia (Aiba) também cultiva campos experimentais. Joner é um dos agricultores que estão apostando na cultura do café naquela região. Hoje ele mantém área de 53 ha, mas pretende usar três pivôs centrais no café, o que representará, em dois anos, 300 ha da lavoura.
Na ponta do lápisNo sequeiro Joner tem uma área total de 3 mil ha, dos quais cultiva 1000 ha e quer ampliar para 2500 ha. No cultivo irrigado são 100 hectares e a ampliação com o café, além da soja e do milho, deverá dobrar a cada ano. Todo o controle da produção é feito no computador, com programas de gerenciamento.
A soja tem um custo de R$300/400 por ha. O arroz, com 40% de seu período irrigado, tem custo de produção de R$500/600 por ha. O feijão este ano, por causa da mosca-branca, teve custo de produção que surpreendeu o agricultor. Ficou entre R$1100/1200. Além da mosca-branca, o custo deverá elevar-se por causa do mofo-branco, podendo chegar a R$1400 por ha.
Para o café novo, que deverá ser colhido na próxima safra, o custo deverá ficar entre R$7 e R$8 mil por ha. Na manutenção do cafeeiro soma-se mais R$3 mil por ha. Mas a rentabilidade é boa. Quem plantou colheu até 113 sacas por hectare no adensado, afirma.
A cooperativa de cafeicultores local, segundo Joner, que deverá trabalhar pelo selo do café, reúne 25 sócios. Nas regiões tradicionais em cultivo do café no Brasil, o bom produtor colhe uma média de 25 a 30 sacas por ha. Aqui há condições de colher de 50 a 60 sacas por ha no sistema convencional, com custo de produção de US$60/65 ou até menor pela alta produtividade por saca. Na Colômbia, por exemplo, o custo de produção é de US$100/120 por saca. Além disso os plantios são feitos em áreas íngremes e dificuldades de colheita e tratos culturais, bem diferente da nossa condição.C. BarberatoEstímuloJoner, estimulado a plantar mais café. Produtividade média tem sido de 60 sacas/ha no convencional e 113 sacas/ha no adensadoCláudia Barberato





