Os produtores rurais que dispõem de pequenas áreas de agricultura e que não obtém renda suficiente para manterem-se na atividade têm teoricamente três opções para saírem da crise: adoção de tecnologia de ponta para produção competitiva e em escala; procurar nichos de mercado como produzir orgânicos, agregando valor ao produto agrícola; ou ainda investir nas chamadas atividades não-agrícolas, como turismo rural, prestação de serviços ou outros.
A orientação é dos pesquisadores do Projeto Rurbano, desenvolvido pela Universidade de Campinas (Unicamp), de São Paulo. Desde 1992 os pesquisadores analisam as mudanças que estão acontecendo na zona rural em 11 Estados brasileiros, entre eles o Paraná.
Segundo um dos coordenadores do projeto, José Graziano, da Unicamp, hoje propriedades com área média ou inferior a 50 hectares, devem esquecer a produção de grãos e apostar nas chamadas atividades não-agrícolas, um segmento que tem crescido muito nos últimos anos. Graziano garante que as atividades não-agrícolas têm propiciado melhor remuneração do que as obtidas nas atividades rurais ligadas à agropecuária tradicional. Além disso, mantêm na zona rural o produtor que antes não tinha condições de sobreviver na atividade.
Queda na renda Os dados do Rurbano indicam que hoje a renda média das pessoas que moram no campo e dependem somente da agricultura só é maior do que aquela que é paga para os serviços de empregados domésticos, mas perde para todos os outros tipos de empregos. Essas pessoas têm hoje uma alternativa para aumentar sua renda sem ter de se mudar para a cidade: mudar de atividade.
A saída para isso pode estar numa decisão política de instituições, prefeituras, associações, cooperativas e até mesmo do Estado, para auxiliar na implantação de projetos que evitem o desaparecimento dos pequenos agricultores e viabilizem sua permanência no campo. ‘‘Esse movimento já está acontecendo, mas é preciso procurar uma vocação regional, manter essas pessoas no campo e criar políticas para viabilizar a adesão a novas atividades no campo,’’ afirma o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Mauro Del Grossi, que também participa do Rurbano.
O novo rural As atividades chamadas de não-agrícolas, como a prestação de serviços, o comércio e a indústria, que respondem cada vez mais pela nova dinâmica do meio rural brasileiro, na verdade, são seculares, mas não tinham até pouco tempo importância econômica. Eram atividades de fundo de quintais, hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura, fruticultura de mesa, criação de pequenos animais, etc.), que estão se transformando em alternativas de emprego e renda.
‘‘Hoje uma família que depende somente da agricultura tem uma renda média de R$ 400 mensais, grande parte sustentada pelo pagamento de aposentadorias e pensões; enquanto que nas famílias onde um dos membros ou mais estão atuando nas chamadas atividades não-agrícolas a rentabilidade é de R$ 700 mensais’’, explica Del Grossi.
Mercantilização do tempo Segundo os pesquisadores do Rurbano, muitas dessas novas atividades surgiram do tempo livre das pessoas que moram na zona rural. Esse tempo era dedicado às atividades não-agrícolas (fabricação de doces, conservas, móveis e utensílios domésticos) e ao lazer (caça e pesca, artesanato, cultivo de flores, criação de animais exóticos, etc.). A diferença é que esses bens e serviços, que eram autoconsumidos são agora produzidos para a venda como uma outra mercadoria qualquer.
As atividades não-agrícolas não são o único marco desse novo cenário. Segundo Mauro Del Grossi, a zona rural também se converteu em local de residência para pessoas não ocupadas ou procurando emprego, desempregados e também inativos, em particular dos aposentados e pensionistas.
Outra mudança foi a transformação do meio rural em local de lazer nos feriados e fins de semana, através dos pesque-pague, hotéis-fazenda, chácaras de fim de semana, e outros. Houve crescimento dos condomínios rurais fechados, destinados a moradia ou lazer da classe média, e das áreas de moradia para atender pessoas de baixa renda, que moram na zona rural e trabalham na cidade.
‘‘Hoje temos todos os tipos de personagens no espaço rural’’, explica Mauro Del Grossi. Segundo ele existem profissionais liberais e outros ex-habitantes da cidade que passaram a residir no campo (neo-rurais) ao lado dos assentados (ex-sem terra) e daqueles que chama sem-sem (sem terra e sem emprego e quase sempre também sem casa, sem saúde, sem educação, e principalmente sem organização).
Da população economicamente ativa do meio rural, calculada em mais de 15 milhões pessoas, cerca de quatro milhões já estão ocupadas atualmente em atividades não-agrícolas. Os pesquisadores do Rurbano consideram que as criações de escargôs, canários ou rãs, ou outros pequenos animais, não podem ser chamadas de atividades agrícolas. Profissões como jardineiros, motoristas, e outros também servem aos dois meios.
No Paraná, diante deste novo cenário, segundo o pesquisador Grossi, há potencial para explorar áreas de turismo rural, a exemplo do que tem sido feito na região de Tamarana, no Norte do Estado, ou em Colombo, na região metropolitana de Curitiba. A produção de alimentos em escala deverá ficar concentrada em grandes propriedades, nas áreas de terra roxa, pelo alto rendimento, competitivo com as produções no Centro-Oeste, e o restante das propriedades poderá ser transformado em áreas que farão não só a produção agrícola, mas prestação de serviços ou agregação de valores a esta produção, viabilizando a permanência de mais gente na zona rural.
Outras atividades não-agrícolas ponteciais no Estado, de acordo com Mauro Del Grossi, são a piscicultura; criação de animais silvestres e exóticos; produção orgânica; produção de hortaliças para redes de supermercados e fast-foods; floriculturas e produção de mudas de plantas ornamentais; fruticultura de mesa; produção de sucos naturais e polpas de frutas; cultivo de plantas tradicionalmente extrativas e medicinais, entre outros.
Os pesquisadores do Rurbano sugerem também que em pequenas e médias cidades do interior seja implementada uma estratégia de criação de empregos não-agrícolas, dotando-as de infra-estrutura adequada (luz, água, esgoto, saneamento básico, escolas, creches, hospitais, etc.) e estimulando a instalação de agroindústrias, visando aumentar a produção agropecuária local e evitando assim os conhecidos passeios da safra, que além de prejudicial ao País como um todo, drena a maior parte do excedente da renda agrícola do interior do País.

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