Queda de preços gera crise no leite
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sexta-feira, 07 de setembro de 2001
Cláudia Barberato 
Nos meses de julho e agosto, historicamente meses de entressafra e de preço maior do leite, a remuneração obtida com a venda do produto caiu em torno de 15% em todo o Brasil. Em alguns Estados, como Minas Gerais e Goiás, primeiro e segundo lugar no ranking de produção do País, os preços caíram 30%, com produtores recebendo menos de R$ 0,30 pelo litro de leite, com custos de produção de até R$ 0,40/litro. O levantamento é da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
No Paraná, quinto produtor nacional, contrariando todas as expectativas de anos anteriores, o preço médio do leite recebido pelos produtores, em agosto, a receber nos próximos dias, está estimado em R$ 0,32/litro, 5,88% inferior do mês de julho, quando receberam R$ 0,34/litro, segundo informações do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura.
Os consumidores, no entanto, não se beneficiaram integralmente da redução do preço do leite in natura, uma vez que vários produtos lácteos estão com preços estáveis ou com ligeira queda no varejo.
Menor consumo As indústrias alegam que a queda no preço pago ao produtor se deve a retração no consumo e estoques elevados em suas plantas. Mas os produtores não concordam com a análise da indústria. ''Não há redução no consumo como alegam as indústrias, e nenhum motivo para uma redução nos preços ao produtor,'' afirmou o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite, da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Paulo Bernardes.
Segundo pesquisa do Ibope, da qual a CNA teve acesso, de janeiro a julho de 2000 foram consumidos no País o equivalente a 2,245 bilhões de litros de leite e, este ano, no mesmo período, o resultado foi um consumo de 2,268 bilhões de litros, contrariando a afirmação das indústrias.
Produção cresceu Para o chefe do Departamento Econômico da CNA, Vicente Nogueira, a queda na cotação é artificial, provocada por algumas indústrias, que continuam importando leite mesmo com as medidas antidumping e o aumento da produção nacional.
Representantes da indústria dizem que o excesso de produção é que tem causado a queda nos preços e os produtores acusam a indústria de formação de cartel e da diminuição da captação por causa da crise energética. Em plena entressafra, a produção leiteira cresceu 8%, quando se esperava um aumento de 5% para todo o ano.
Escala aumentou O crescimento, segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Leovegildo de Matos, é fruto do investimento dos produtores em genética e melhora na nutrição do rebanho. ''Esse crescimento se dá pela busca de aumento na margem de rentabilidade e num momento em que todos os produtores esperam a implantação do programa nacional de qualidade do leite e melhor remuneração do produto.''
O crescimento na produção é resultado também da melhor preparação do produtor de leite que, entusiasmado com os valores alcançados na última entressafra (R$ 0,37 o litro em agosto de 2000) e os preços dos grãos que deram condições de produzir mais na época da formação de cotas.
Mercado concentrado O pesquisador avalia também que essa queda de braços entre indústria e produtores é um reflexo da falta de organização da classe, que ao longo dos anos não se preparou para esta concentração de mercado.
De acordo com Matos, das 612 indústrias de lácteos que hoje existem no País, as 12 maiores compram 41% do leite que é produzido atualmente (pouco mais de 19 bilhões de litros em 2000 e 20 bilhões de litros até o final de 2001). Dessas 612 indústrias apenas 281 são cooperativas.
''Os produtores que fornecem para grandes indústrias estão produzindo mais como forma de sobreviver na atividade. Com as margens de lucratividade reduzidas esses produtores aumentaram a escala de produção para sobreviverem e aconteceu aumento de produção em plena entressafra. Agora o produtor está pagando o preço pela falta de associativismo, por não saber trabalhar em comunidade e não manter suas cooperativas fortes. Deixou de ser dono do seu negócio e ficou à mercê dos grandes grupos.''
Pagamento pela qualidade Segundo o pesquisador o Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite (PNMQL), que deverá ser regulamentado até o final do ano pelo governo federal, poderá modificar o cenário atual. O PNMQL tornará obrigatório, entre outras coisas, o resfriamento do leite na fazenda, e o transporte a granel, o que garantirá um produto de melhor qualidade. Em contrapartida o produtor deverá ser remunerado pela qualidade e poderá exigir melhor remuneração por parte da indústria.
As indústrias têm interesse na qualidade pelo rendimento industrial e pela exigência do consumidor, que está cada vez mais atento ao assunto. ''Como a produção está se voltando para o consumidor, hoje muito mais exigente, o produtor que investe em genética e melhora da alimentação do gado, vai continuar no mercado e as indústrias terão que remunerar melhor este produto,''avalia Matos.
Pelo programa de qualidade, as indústrias de lácteos terão que remunerar melhor quem produzir leite de boa qualidade, enquanto o informal não terá a quem entregar o produto, pois as queijarias também não irão mais aceitá-lo.
No Paraná um grupo de 32 entidades já tem pronto um programa de qualidade do leite produzido no Estado, a pedido do governo do Estado. Segundo o coordenador do Programa, o veterinário Osmar Buzinhani, da Emater/Seab, o programa estadual de qualidade deverá trazer basicamente três questões: todo leite deve ser resfriado na propriedade, o que impede a proliferação de bactérias; a coleta deve ser a granel em caminhões tanques, o que garante temperatura e qualidade; haverá também controle de células somáticas, o que dá uma idéia de saúde do úbere da vaca e, consequentemente, do leite.


