Quanto vale o cultivo agroecológico?
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sábado, 19 de dezembro de 2009
Erika Zanon<br> Reportagem Local 
Em Prudentópolis, cidade localizada há 50 quilômetros de Irati, o produtor José Mateus Opuskevicz, 47 anos, produz alimentos ecológicos. Deu início à atividade há apenas três anos, mas já tem muita história para contar. ''Têm sido dias de muita alegria, boas vendas e vida muito mais saudável'', relata, entusiasmado.
Faz sentido toda a exaltação do agricultor. Antes de produzir alimentos, ele era mais um que atuava na fumicultura da região e levava uma vida bem mais sofrida. ''Era muito difícil, trabalhava dia e noite e ainda respirando todo aquele agrotóxico utilizado na plantação'', rememora. Ficou doente, caiu em depressão e acabou tomando veneno - o mesmo utilizado na atividade - para tirar a vida. ''Fiquei 10 dias na UTI - Unidade de Tratamento Intensivo - e depois que já estava de volta em casa, ainda me recuperando, disse para mim mesmo que não voltaria a plantar fumo'', lembra Mateus, como é chamado pelos amigos.
Mesmo sem saber o que faria dali para frente e com a insistência dos técnicos das indústrias do fumo para que ele continuasse no ramo, decidiu mudar de vida. E mudou. Retomou algumas produções de alimento e ervas medicinais que tinha antes de entrar para o fumo, em 2003, descobriu o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aderiu ao projeto e ganhou novas oportunidades.
Ele cuida da propriedade, com menos de meio hectare, com a ajuda da esposa Lúcia, 52, e do filho João Paulo, 19 anos. ''Hoje me sinto muito mais feliz, não só por ter saído daquela atividade, mas também por saber que produzo alimentos saudáveis e que fazem bem para tantas pessoas. Além de contribuir para o bem do meio ambiente'', observa. No dia em que a reportagem visitou a propriedade de Mateus, a colheita do dia - muito variada - seria toda encaminhada para a Santa Casa de Ponta Grossa.
O que incentiva ainda mais o agricultor a continuar com a produção de alimentos é saber que o filho quer dar continuidade ao seu trabalho. João Paulo estuda no Centro de Desenvolvimento do Jovem Agricultor do Centro-Sul (Cedejor), que atua no sentido de capacitar os jovens a permanecerem no meio rural. ''Eu quero continuar no campo, ajudando o pai. E hoje, sei que tenho muito mais qualidade de vida e maneiras de melhorar ainda mais'', afirma João Paulo.
Guardiões da Natureza
José Mateus é apenas um dos produtores que estão incluídos no PAA em Prudentópolis e que também recebem o apoio da ONG Instituto Os Guardiões da Natureza, com sede no município. Segundo a presidente da entidade, a advogada Vânia Mara Moreira dos Santos, a ONG foi criada em 1998, depois que ela e outros profissionais de diversas áreas, inclusive médicos, começaram a observar que havia um número alto de suicídios entre os produtores de fumo da região. ''Média de um por ano'', conta Vânia.
''Começamos a investigar e, após palestras sobre o uso de alguns agrotóxicos na atividade, percebemos como isso era prejudicial à saúde'', acrescenta. Sem contar, aponta ela, o desmatamento que a atividade promove.
Alguns agrotóxicos, acrescenta ela, podem provocar problemas neurológicos, auditivos, de visão, atingir o sistema nervoso e provocar depressão. Segundo Vânia, alguns estudos realizados no Rio Grande do Sul pretendem mostrar o impacto de alguns desses produtos na saúde do agricultor.
Além da parceria com a Conab, que na cidade atende 89 agricultores por meio do PAA, a ONG também tem projetos de ecoturismo, que recebem incentivo da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza. Entre algumas ações estão o apoio aos agricultores para o cultivo de erva-mate e plantas medicinais. A advogada acrescenta que a produção desses produtos será comprada pela Natura. Vânia relata que há uma fila de espera de agricultores que gostariam de ser incluídos no PAA.


