Quando o lixo vira energia e renda
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sábado, 16 de fevereiro de 2008
Raquel de Carvalho<br> Reportagem Local 
Ganhos e vantagens com iniciativas que garantam a sustentabilidade do planeta vêm sendo disseminados em diversas atividades econômicas. Até mesmo aquelas reconhecidamente poluidoras podem, por meio de atitudes e ações, ser desenvolvidas de acordo com os preceitos de proteção ao meio ambiente.
É o caso da suinocultura, tida como uma das atividades mais nocivas por causa da emissão de gases e poluição do solo e água com os dejetos dos animais, que pode trazer ganhos ao produtor não somente com os resultados da granja, mas também com o tratamento dos resíduos.
Os dejetos dos animais podem ser transformados em energia, com o biogás, e biofertilizantes. A integração de um sistema de tratamento vai possibilitar até mesmo a criação de peixes. O que é um problema para o produtor pode ser um aliado para aumentar a renda da propriedade.
O sistema vai além do biodigestor, equipamento utilizado em diferentes épocas na suinocultura, cuja finalidade é produzir gás para o funcionamento de motores e geração de energia (ver matéria nesta edição). ''O biodigestor por si só não resolve os problemas ambientais, embora diminua bem o problema '', explica Alexandre Akira Takamatsu, gerente da Divisão de Tecnologias Sociais do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).
De acordo com o técnico, o biodigestor retira 70% da carga poluente dos resíduos dos suínos, muito abaixo do que determina a legislação, segundo a qual o efluente só pode voltar aos rios e lagos com uma carga abaixo de 50 mg DBO/ml. O DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) é o índice que mede o nível de poluentes. ''Como a carga de poluente dos dejetos chega a ser maior que 30.000 DBO/ml, com o biodigestor ainda haveria uma carga de 9.000 DBO/ml'', diz.
Takamatsu afirma que com o Protocolo de Kyoto houve um grande interesse pela instalação de biodigestores. Mas a preocupação foi apenas com a questão econômica, em função dos créditos de carbono (Reduções Certificadas de Emissões - RCEs), que só remuneram o controle da emissão de gases que causam o efeito estufa.
Há um problema tão grave quanto a poluição do ar, que são os danos causados por dejetos no solo e água. ''Se quisermos manter a premissa do desenvolvimento sustentável temos que ir além do fator econômico'', diz o técnico do Tecpar. Segundo ele, a questão engloba aspectos ambientais, econômicos e sociais.
Uma alternativa que permite solucionar os problemas decorrentes da atividade é o projeto Biossistemas Integrados na Suinocultura (BSI), desenvolvido há oito anos pelo Tecpar e implantado em algumas propriedades no oeste do Paraná. Com o BSI, o produtor produz gás metano no biodigestor, os dejetos se transformam em biofertilizantes. Numa outra etapa parte dos dejetos passa por lagoas de tratamento e é levada a um tanque para alimentar peixes. O que sobra do processo pode voltar aos rios ou lagos, sem o risco de poluí-los.
O projeto, segundo Takamatsu, atende a premissa do desenvolvimento sustentável. Além do ganho ambiental, ele destaca as vantagens sociais e econômicas. ''O BSI agrega valor à propriedade e ele se paga em no máximo dois anos e meio'', afirma.
A implantação do sistema também favorece a permanência da família na propriedade. De acordo com o técnico, uma das vantagens do sistema é o fim do mal cheiro, comum nas granjas de suínos, além da redução da população de moscas. ''O trabalho e a vida na propriedade ficam mais fáceis e prazerosos'', diz Takamatsu.
A partir de agora o Tecpar deixa a função de desenvolver os projetos de implantação do BSI. Segundo o técnico, o instituto passa por um processo na Organização das Nações Unidas (ONU), que vai credenciá-lo a emitir certificações nas propriedades. Atualmente essas certificações são emitidas por empresas privadas e internacionais.


