A saudade renasce e bate forte no peito chegando até doer, quando acordo bem cedo no dia de sábado e me apresso a recolher a Folha de Londrina para saborear as deliciosas histórias, que nos presenteiam os jornalistas que escrevem os artigos Dedo de Prosa. Num passe de mágica transporto-me aos anos idos bem distantes, lá pelos cafundós de Minas Gerais, e me vejo criança bafejado pela sorte de ter nascido em uma cidadezinha que jamais se apagará de minha memória. As lembranças fluem e os detalhes surgem como se tivessem acontecido ainda ontem.

"Miguelzinho" era um galinho garnizé que criei desde que saiu da casca do ovo. Jamais durante sua longa vida deixou de me acordar às 6 horas da manhã, com seu cantar fino e estridente. Ainda em plena aurora, eu e meu irmão Alberto, que repartíamos o mesmo quarto, sabíamos que era o momento de despertar e sair rápido para o quintal. Era feita, então, a busca diária pelas arapucas, devidamente armadas em lugares estratégicos espalhados pelos 5 mil pés de café plantados por meu pai. Miguelzinho, o galinho franzino e esperto, era o primeiro a descer do galinheiro feito de seis paus e coberto de capim.

Imagem ilustrativa da imagem Quando bate a saudade



Do lado de fora no terreiro, ele aguardava ansiosamente todas as galinhas descerem para cumprimentá-las. Não escapava uma! Não sei o por quê desse costume?! Ao sairmos de casa já sentíamos o aroma delicioso do café que mamãe preparava no fogão a lenha. Morávamos numa chácara, ali mesmo, dentro da cidade e os nossos costumes também eram os mesmos de quem fora criado em um sítio. Meu pai improvisou no quintal um cercado que servia de curral onde prendia Garoa, filha de Boa Sorte, nossa vaquinha dócil. Ainda de madrugada papai já nos esperava para saborearmos o leite saudável e gostoso que Boa Sorte nos dava todas as manhãs.

Minha tristeza é saber que a maioria das crianças, que nascem em cidades grandes, jamais sentiram o aroma perfumado das floradas de café e a brisa suave e leve do fim das madrugadas ainda com luar. Pena que muitas das crianças de hoje jamais pisaram descalças na terra orvalhada de um sítio, jamais subiram num mangueira e chuparam ali mesmo uma manga madura e gostosa. Quem nunca pisou no barro e nos estrumes do gado no curral, quem nunca viu o sol nascer na serra jamais foi criança de verdade.

Infelizmente, toda essa lembrança de minha infância terminou quando, lá de dentro da mata nativa do fundo do nosso sítio, fui levado à força para o colégio interno. Algum tempo depois, fiquei sabendo que Miguelzinho parou de cantar para sempre, sentindo minha falta. Chorei bastante.

PAULO CESAR JORGE, leitor da FOLHA (Crônica publicada no dia 16 de março de 2013, e republicada nesta edição a pedido da família, em homenagem ao autor, fã do Dedo de Prosa, e que faleceu no último dia 11 de fevereiro)

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