Quando a pastagem faz diferença
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sexta-feira, 31 de julho de 1998
Cláudia Barberato 
Pecuarista que pretende fazer o novilho precoce precisa, além de usar animais de boa genética, fornecer pastagem de qualidade aos animais, para que estejam prontos, no peso de abate, entre os 24 e 30 meses de idade. Pastos sem qualidade precisam ser recuperados. Quem já tem boa pastagem recuperar precisa cuisar da área, fazer adubação, divisão em piquetes e reservas para as épocas críticas de produção de massa verde, além de outras medidas para garantir ganho de peso do rebanho.
As considerações são do pesquisador da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), Armindo Neivo Kichel. Ele será um dos palestrantes do 2º Encontro Nacional dos Confinadores e 3º Encontro Nacional do Novilho Precoce, que acontecem de 5 a 7, em Uberlândia (MG). O tema será Manejo de Espécies Forrageiras para Produção do Novilho Precoce.
Qualidade dos pastosA produção do novilho precoce, segundo Kichel, requer diferenças no manejo e uso da pastagem. Animais tardios, com abate aos 48 meses, ganham em média 300 gramas/dia. Para ser precoce o animal deve ter média de ganho diário de 550 a 600 gramas. O pecuarista pode usar pastos de qualidade inferior para fazer os precoces, que terão ganho de peso inferior a essa média, mas terá que fazer suplementação alimentar, o que encarece sua atividade.
O manejo correto das pastagens equilibra o ganho de peso dos animais nas águas (período em que os pastos têm melhor produção) e no período crítico, nas secas (quando há queda de produção e de qualidade). O indicado é fazer o pastejo dos animais até meados de março. Mas a área deve receber uma adubação de manutenção no final de fevereiro. A seguir deve-se vedar o pasto até o final de maio para que a área se recupere e entre, no inverno, com produção de massa verde.
É importante que o pecuarista faça um diagnóstico das pastagens que tem na sua propriedade, alerta Kichel. Deve-se verificar se estão colocadas em local certo e não trabalhar somente com um tipo de capim. Os mais produtivos e de qualidade superior sempre serão os mais exigentens em qualidade de solo. Hoje muita gente planta o capim da moda.
Os custosA recuperação e a adubação dos pastos difere de acordo com a espécie de capim. A recuperação de uma pastagem pode custar desde R$50 até R$400,00. Se for adubado e manejado e houver necessidade de repor um elemento limitante na produção de massa verde, como o fósforo, por exemplo, o custo variará de R$50 a R$150,00 por hectare (ha).
Se o nível de degradação for muito alto, haverá necessidade de trocar a forrageira; recuperar e corrigir o solo (calcário e outros elementos), fazer adubação de fósforo mais o NPK (nitrogênio, potássio e cálcio), comprar sementes, micronutrientes e fazer cercas ou águas para divisão. Nesse caso, o custo pode chegar até R$400,00 por ha.
O certo é não deixar degradar, aconselha Kichel. Hoje, segundo ele, as causas da degradação começam no uso de espécie inadequada de capim em relação ao clima e solo onde está instalado. Depois, há má-formação dos pastos e a falta correção de nutrientes no solo. O manejo inadequado, com o superpastejo dos animais, também é uma das causas da alta degradação das pastagens.
Escolher as espécies corretas não custa nada ao pecuarista. Formar a pastagem usando tecnologia, na época recomendada, adequar a carga animal por área (não deixando que a pastagem fique rapada), fazer a adubação e outros manejos não custa nada a mais do que se fizesse o manejo incorreto; fica até mais econômico.
Ainda há vantagem, avisa Kichel, de ter os pastos recuperados, o que significa, em média, 30% a mais de qualidade da forragem. Um pasto recuperado cresce 10 meses por ano, enquanto o degradado cresce apenas cinco meses. A recuperação e adubação podem aumentar entre três e cinco vezes a produção das forragens.
As espécies mais indicadas pela Embrapa têm sido a brachiária brizantha, mombaça, tânzania, tiffiton, milheto e aveia. A escolha vai depender da região onde está instalada a propriedade. As agropecuárias, de modo geral, têm trabalhado com essas espécies. Primeiro porque vêm recuperado solo e corrigindo os pastos. Normalmente têm mombaça e tanzânia, por exemplo, ou tiffiton, no verão, e fazem plantio de milheto e aveia na entressafra (de abril a junho). Nas regiões mais frias planta-se aveia entre as culturas de verão ou o milheto em outras regiões. No caso do milheto, segundo o pesquisador, o gado pode ganhar uma média de 700 gramas a 1 quilo/dia.
EstratégiasO pecuarista tem que encarar as pastagens também como uma cultura, a exemplo do que fazem com a agricultura; fazendo o uso estratégico dos pastos nas águas e na seca. Um dos motivos de quase 100% dos pecuaristas estarem descapitalizados é a falta de profissionalismo no tratamento das pastagens.
Kichel exemplifica: Quando se desmama um animal, ele terá que receber alimento de qualidade, senão perdará peso. O manejo estratégico e recuperação e adubação dos pastos, além da vedação no fim do período das águas, são essenciais para sucesso na atividade da produção do precoce.
Todo animal que tiver volumoso de qualidade e suficiente responderá melhor também ao sal mineral, além de ganhar peso. Se só tem o talo para comer no pasto pode até não perder peso, mas também não ganhará.
A melhor tecnologia para qualquer tipo de pecuária, avisa Kichel, é o fornecimento de forragem de média a boa qualidade. A realidade mostra que a maioria dos animais come oito meses no ano; em dois meses empatam no peso e, depois, nos outros meses perdem peso.
É necessário, segundo o pesquisador, o pecuarista programar-se para fornecer alimento de qualidade o ano todo. Só assim terá uma pecuária rentável. Deverá também ter a carga animal ajustada de acordo com o potencial da forrageira do pasto.
Tipos de pastejoNo manejo com os animais a pasto pode-se fazer o pastejo contínuo ou rotacionado; ambos têm vantagens e desvantagens. Hoje o pastejo contínuo não funciona, porque é feito em áreas grandes demais. Os animais acabam comendo apenas próximo da água e do sal e restam locais onde o pasto é tocado e há perda de forragem. A vantagem do pastejo contínuo é que se consegue maior ganho de peso por animal.
No rotativo, de acordo com Kichel, há maior produção de carne por área. É preciso vedar áreas de pastos por 30 a 36 dias. O intervalo de pastejo permite que as plantas perfilhem e se recuperem. Outra vantagem do rotativo (os animais devem sair em 10 dias) é o melhor aproveitamento da forragem. Em áreas menores o animais vão consumir melhor e mais uniformemente e se evita o superpastejo.
O manejo sanitário também fica mais fácil na modalidade de pastejo rotativo, já que os animais são acompanhados semanalmente. Além disso, ficam mais dóceis. O rotacionado, segundo Kichel, tem um custo maior (mão-de-obra e construção de cercas), mas há possibilidade de ganho maior para o pecuarista.
Para plantas com formação em touceiras, o mais indicado é fazer o pastejo rotacional. Esse manejo também degrada menos as pastagens. A adubação de correção ou manutenção é mais econômica porque as plantas, com o descanso, têm maior potencial de produção. Há também melhor distribuição de esterco, melhorando o nível de nutrientes da área.
A divisão dos piquetes para o rotacionado depende do tamanho de cada fazenda. O tamanho das invernadas pode ir de 5 a 50 ha, com 4 até 16 piquetes. Quanto mais produtivo for o pasto, com alta carga animal por ha e maior adubação de manutenção, maior deverá ser o número de piquetes e menores deverão ser os períodos de pastejo por piquetes.
É ideal que uma fazenda tenha várias espécies de forrageiras, com produção em diferentes épocas de crescimento. Não existe forrageira ruim, todas são boas; vai depender do manejo, adubação, carga de animais, entre outros itens.


