Qualidade é referencial de lucro
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sexta-feira, 26 de setembro de 1997
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaMercado tem oferta de animais criados a pasto e de confinamentoHistoricamente os meses de agosto e setembro são considerados períodos de escassez de animais provenientes de pastos ou confinamentos. Mas não é o que está acontecendo na entressafra deste ano. O clima ameno permitiu que os animais de pasto e de semiconfinameto fossem ofertados simultaneamente.
Para o professor João Martines Filho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba, SP, embora atípica a entressafra deste ano retrata o comportamento que vem se registrando desde a instituição do Plano Real. Além de rígido controle sobre os preços, a nova moeda introduziu na pecuária de corte a necessidade de se buscar na qualidade diferenciais de lucratividade.
Martines esteve durante esta semana em Paranavaí, no Noroeste do Estado, para o Simpósio Pecuária Avançada, promoção da Associação Brasileira de Marketing Rural (ABMR). O evento faz parte de um ciclo nacional de simpósios que começou no dia 15 deste mês em São José do Rio Preto, SP, e acontecerá ainda em Cuiabá, MT, no dia 6 de outubro; Governador Valadares, MG, em 17 de novembro e Goiânia, GO, no dia 24 de novembro.
Sem aumentosPecuaristas devem evitar pressionar o mercado com um novo aumento do preço da arroba do boi gordo, alerta Martines Filho, especialista em administração de risco e comercialização agropecuária. Ele explica que o varejo não suportaria um reajuste, neste momento em que a economia está próxima de deflação e um reajuste de preços pode ocasionar redução da demanda.
Além disto, segundo Martines Filho, a carne bovina continua sofrendo pressão da carne de frango, que custa em média R$1,00 o quilo.. Na avaliação de Martines Filho a nova opção de consumo não é a única dificuldade enfrentada pelo mercado interno. Com a globalização, existem mais facilidades de importação de produtos que estejam com preços mais competitivos no mercado internacional, explicou.
Relação de trocaEmbora reconheça que a situação do mercado do boi gordo não é nada confortável na entressafra deste ano, o professor Martines Filho tem recomendado aos pecuaristas que evitem pressionar o mercado com aumentos e que fiquem atentos em relação aos preços atuais das categorias intermediárias.
A relação de troca boi gordo x boi magro é um dos problemas registrados nas chamadas categorias intermediárias. Mesmo com a deterioração das pastagens, poucos são os produtores que estão vendendo bezerros. Com isso, animais de boa qualidade chegaram a ser vendidos a preços superiores a R$ 300,00. Com a pouca oferta de bezerro e a consequente alta nos preços, a base de troca é de 2,5 por 1. Ou seja: o pecuarista troca 1 boi gordo de 16,5 arrobas para adquirir 2,5 bezerros. O abate indiscriminado de matrizes, ocorrido nos últimos anos, é uma das causas da valorização do bezerro.
Consciência forçadaTecnologia, melhoria genética e complementação alimentar, acredita Martines Filho, passaram a ser aplicados com maior frequência no rebanho. Isto favoreceu a terminação de bovinos, que passaram a ficar prontos para o abate em tempo bem menor em relação às técnicas de cria e engorda convencionais.
O resultado foi aumento na oferta de boi gordo, inclusive em períodos de entressafra, como a que estamos vivendo agora, reforça. Além da entrada do boi a pasto, o mercado tem registrado grande oferta de bois de confinamento. Graças a novas técnicas utilizadas, os confimamentos também evoluíram nos últimos anos. Estimativas não oficiais indicam a existência de 1,3 milhão de bois em confinamento este ano.
O mérito dessa transformação mais rápida foi a maior conscientização dos produtores, afirma Cláudio Haddad, master em nutrição animal e pastagens, também da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Haddad também esteve em Paranavaí para o seminário sobre pecuária, falando de tecnologia e manejo de pastagens.
A concorrência interna, com outras proteínas animais, e externa, de produção em outros países, acelerou a busca de técnicas para conseguir melhores produtividades nos rebanhos brasileiros. Segundo Haddad, uma das técnicas primárias para conseguir bons índices, tem sido a recuperação ou reforma de pastagens.


