Qualidade e produtividade, a solução
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de novembro de 1996
Cristina Côrtes 
Os problemas: mercado fraco, concorrência internacional, juros altos, preços baixos. A solução: soma de produtividade e qualidade. Resultado: um furo na barreira que limita o mercado da produção brasileira. Tradução: maior possibilidade de fazer negócios que darão melhor retorno ao produtor.
Nem é fácil, nem impossível. Exige-se disposição e os instrumentos estão aí mesmo, no campo da tecnologia. Esta conversa vem a propósito de iniciativas que têm mexido nos meios tradicionais, dito convencionais, de se fazer agropecuária no País.
Há alguns anos uma indústria italiana de equipamentos para café expresso, a Illycaffé, instituiu um concurso para escolher os melhores cafés brasileiros para o tipo expresso (spresso, em italiano). Os cafeicultores de Minas Gerais e de algumas regiões produtoras de cafés finos de São Paulo começaram a participar do concurso, que lhes dá garantia de compra da produção pela indústria européia. O preço pago supera o melhor preço de mercado.
Fazem poucos anos quando estiveram em Londrina dois engenheiros agrônomos da Mokiti Okada Organization (MOA), empresa japonesa que trabalha com pesquisa e produção de alimentos orgânicos e tem centros de estudos em vários países, entre eles a Argentina e o Brasil. Os homens da MOA queriam encontrar um produtor de café orgânico. Na época, não acharam. Hoje, já existem alguns em São Paulo e Minas Gerais. Este produto também é comprado com ágio...oferecido pelos clientes, que não relutam em estimular a produção daquilo que desejam.
Ainda na cafeicultura: mais recentemente o Paraná lançou um programa destinado a aumentar a produtividade por área: o programa de café adensado, que está em terceiro ano e já deu a primeira colheita nesta safra. Aqui, também, o controle integrado de pragas permite controlar insetos e plantas invasoras com menor custo, bastando para isto monitorar a presença dos predadores da agricultura e da pecuária. Menor custo, maior retorno, mais estímulo aos agricultores.
O cultivo de soja orgânica no Sudoeste do Estado também pode ser lembrado como oportunidade de maior rentabilidade numa atividade que tem nos últimos anos dado pouco retorno para a maioria dos produtores. Como em outros segmentos, quem quer vender bem sua produção deve atender integralmente os interesses do comprador.
Em diversas parte do mundo, em especial nos países mais ricos, não se discutem preços de alimentos, mas sim sua qualidade. É evidente a preocupação crescente da maioria das pessoas com a saúde, e a qualidade dos alimentos é sinônimo de uma boa condição física. Uma missão italiana que esteve recentemente no Paraná, deixou bem claro nas reuniões que manteve com pesquisadores e cooperativas, que tem interesse num abastecimento de frutas com qualidade e regularidade. Não perguntaram quanto vai custar.
A produção artesanal de açúcar mascavo no Interior do Estado demonstra também que a reunião de produtores com interesses comuns pode solucionar problemas e gerar riquezas. Mesmo com todos estes exemplos, a reação dos produtores é lenta. A justificativa é a falta de recursos para investir numa atividade nova, ou até mesmo para melhorar a atividade tradicional, no caso do café.
A qualidade da produção muitas vezes é apenas questão de um detalhe. Uma simples prática pode fazer muita diferença no momento da colheita. O acompanhamento diário da lavoura, e a identificação de pragas no momento certo para evitar perdas; o uso racional de defensivos. Diversas tecnologias desenvolvidas pelos institutos de pesquisas não são adotadas pelos produtores. Não se sabe se elas não chegam ao campo, ou se chegam, porque não são colocadas em prática.
Neste momento, quando se fala tanto em globalização da economia, a agricultura precisa se adaptar e voltar a crescer. Aliás, é o setor que responde mais rapidamente aos investimentos realizados, e que pode manter o País fiel a sua vocação natural de grande produtor agrícola. Sem esquecer da diversificação da economia, do aumento da renda do agricultor através da agroindustrialização e de outros segmentos da indústria. Como fazem outros países, a exemplo dos Estados Unidos, que são grandes produtores de alimentos.
A autora é jornalista da Folha Rural.


