Qualidade e competitividade
Antônio Leonel Poloni
Está na hora de todos nós, paranaenses, decidirmos se queremos ser um Estado forte na agropecuária; se queremos evoluir e conquistar mercado, ou se vamos nos acomodar e deixar nossa produção ser rejeitada pelo mercado internacional e sobrar nas prateleiras dos nossos próprios supermercados. A decisão não cabe só ao Governo do Estado nem só à iniciativa privada. Não existem dois Estados, o público e o privado. Só existe o Estado do Paraná.
Por isso, há dois anos foi criado o Conesa (Conselho Estadual de Sanidade Agropecuária), através de um projeto-de-lei do governador Jaime Lerner, aprovado pela Assembléia Legislativa. Com 23 entidades públicas e privadas, praticamente representativa de toda a agropecuária do Estado, o Conselho tem o objetivo de dividir responsabilidades no trabalho de controle de qualidade dos nossos produtos.
Neste trabalho não existe mais espaço para o amadorismo. É preciso sermos profissionais, para termos credibilidade. E credibilidade quer dizer preço e qualidade. Não podemos vender o nosso produto uma vez só. Precisamos vender sempre. E quando alguém comprar o nosso produto, terá que querer comprar novamente e ainda indicá-lo aos outros consumidores. É assim que se conquista mercado neste mundo globalizado.
Nós ainda importamos muitos produtos que podemos produzir aqui. Só para citar alguns casos, 65% das frutas que consumimos vêm de fora. Nas flores, este índice chega a 90% e nas hortaliças a 40%. Estamos mudando esta realidade.
Para conquistar mercado, no entanto, o nosso produto tem que ser igual ou melhor que qualquer produto similar produzido no mundo. Caso contrário, o nosso agricultor correrá o risco de ver seu próprio filho optando por comprar um produto importado, em detrimento daquele cultivado ou industrializado por ele no seu sítio.
Nesta conquista da qualidade, o Sistema Estadual de Agricultura tinha muito dever de casa para fazer. Ainda temos, mas grande parte dele já foi feito. É o caso do combate à febre aftosa. O nosso pecuarista entendeu que era preciso empenho na vacinação do gado e hoje, graças a este esforço, o Paraná agora é a bola da vez.
Vamos cobrar do Ministério da Agricultura que queremos, junto com os demais Estados do Centro-Oeste ou individualmente, se for o caso, fazer a sorologia em nosso rebanho para comprovar à Organização Internacional de Epizoootias (OIE) que cumprimos todas as exigências internacionais e já podemos ser declarados área livre de febre aftosa, a exemplo do que já conquistaram nossos vizinhos, o Rio grande do Sul e Santa Catarina.
A declaração representará um grande avanço para a agropecuária e, em consequência, para a economia paranaense e brasileira. Além de abrirmos novos mercados, teremos uma valorização de aproximadamente 30% no preço da carne que vamos exportar, o que representará divisas para o Estado e para todo o País.
Todo este trabalho comprova que estamos no caminho certo, ao optarmos por uma mudança de mentalidade na forma de governar. Não adianta mais assinar convênio com os municípios para distribuir semente de milho e matrizes suínas, se não tivermos sanidade. Hoje em dia, quantidade de produção não é mais garantia de mercado. O que garante o mercado é a qualidade. As barreiras alfandegárias, hoje no mundo globalizado, são secundárias. As grandes barreiras são sanitárias, sociais e de meio ambiente.
Estas premissas básicas têm que estar na cabeça de cada um. Todos nós temos que ter a consciência disso. Não adianta Estado punidor, Estado fiscalizador só, se a sociedade não entender que é ela a responsável. Se o agricultor não entender que, para ser um profissional de sucesso, e querer evoluir e ganhar dinheiro, é preciso respeitar o meio ambiente, os direitos das crianças e dos trabalhadores e a questão sanitária.
Não temos estrutura suficiente para colocar um fiscal na porteira de cada propriedade e nem isto deve ser feito. Por isso, estamos levando esta discussão a todas as regiões do Paraná, com a finalidade de fazermos a divisão de responsabilidades na defesa sanitária, através da criação de conselhos municipais de defesa agropecuária. Queremos instituir uma espécie de SUS Animal e SUS Vegetal, a exemplo do que acontece na saúde humana.
Com os conselhos municipais formados, os fiscais da Secretaria da Agricultura serão orientadores. Eles terão a missão de repassar todas as informações sobre as exigências internacionais para podermos ser competitivos. A partir daí, os próprios conselhos irão nos solicitar uma atuação punidora no momento em que virem agricultores desrespeitando as normas e prejudicando a si próprios e à coletividade.
Não adianta uma fiscalização genérica. É preciso conscientização. Se não tivermos isso, não vamos chegar a lugar nenhum. Não podemos ter meia defesa agropecuária no Estado. Ou nós temos uma defesa total, ou nós não temos. Não adianta nada ter 50 propriedades boas, cumprindo todas as exigências, se tiver uma que não cumpre. Esta estará comprometendo o trabalho de todas as demais.
O autor é secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná e presidente do Conselho Estadual de Sanidade Agropecuária (Conesa).

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