Qualidade do cereal brasileiro
Marcos BorgesA colheita de trigo no Paraná prossegue até o mês de novembro. A produtividade média está l.880 kg/haÉ o que garantem os pesquisadores da equipe de trigo da Embrapa Soja, Sérgio Dotto, Dionísio Brunetta e Manoel Carlos Bassói. Segundo afirmam, os resultados das pesquisas desenvolvidas com trigo no Brasil colocam abaixo as afirmações de que o trigo nacional é de qualidade inferior.
A produção nacional tem alcançado os melhores padrões de qualidade e a pesquisa tem contribuído para isso. Geneticamente o trigo nacional atende as demandas do mercado brasileiro de panificação e outros derivados, dizem os pesquisadores. Além da preocupação com a qualidade, tecnologias de produção e cultivares mais produtivas e resistentes a doenças estão sempre em processoo de criação.
ParceriaA equipe da Embrapa Soja desenvolve um trabalho conjunto com a Embrapa Trigo (Passo Fundo, RS) desde 1991, quando começou a desenvolver cultivares de trigo, tecnologias para o Paraná e germoplasma para São Paulo e algumas regiões dos Cerrados.
Segundo o pesquisador Sérgio Dotto, a Embrapa Soja já tem dez linhagens em fase de experimentação regional. E os testes estão mostrando que são cultivares produtivas e de alta qualidade para panificação, enfatiza. Outras características dessas linhagens são tolerância a doenças e boas características agronômicas.
As pesquisas desenvolvidas colocaram à disposição dos triticultores tecnologias que viabilizam a produção. Tecnologias como nível de adubação, rotação de culturas, densidade e época de semeadura e técnicas de colheita e armazenamento, que proporcionam aos produtores melhores condições de cultivo e bons resultados na hora da colheita. Alguns produtores estão alcançando produtividade de 140 sacas por alqueire, enquanto essa média no Paraná é de 78 sacas, comentou o pesquisador Dionísio Brunetta. Esses dados comprovam que é possível obter a curto prazo a melhoria da produtividade média do trigo no Paraná.
Os pesquisadores explicaram que os resultados dos experimentos desenvolvidos no Estado pela Embrapa Soja e pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) podem estender-se a outras regiões produtoras. Eles lembraram que o Paraná é o maior produtor do cereal no País, respondendo por 65% da produção nacional. Além disso, trigo de melhor qualidade, em âmbito nacional, sai daqui do Norte do Paraná, afirma Brunetta.
Derrubando mitosOs pesquisadores desmistificaram também a idéia que se criou em torno da qualidade de trigo. Segundo eles, todo trigo é importante, independente do padrão, desde o de qualidade comum até o melhorador, para compor o mix da farinha. A qualidade do trigo é medida pela força do glúten. Existem produtos que precisam de maior teor de glúten, como o pão de forma, enquanto em outros a força de glúten tem que ser necessariamente menor, como na pizza, bolachas e pão caseiro. Na industrialização são necessários todos esses padrões. Se tivéssemos, por exemplo, apenas trigo de qualidade superior ou melhorador, a indústria não teria como produzir biscoitos, exemplificou Bassói.
Eles destacaram também a importância da cultura na composição dos sistemas de produção agrícola da região Sul do Brasil. Plantando o trigo no inverno, o agricultor pode ter redução no custo de produção das culturas de verão, principalmente da soja, em até 20%. Isto porque parte do fertilizante utilizado para o cultivo do cereal incorpora-se ao solo, podendo ser aproveitada pela cultura seguinte. Além disso, pode haver redução da incidência de ervas daninhas e maior proteção do solo contra a erosão.
É preciso incentivoPor todos esses motivos, os pesquisadores sugerem maior incentivo à produção de trigo, que tem atendido apenas 25% da demanda nacional. O País deveria produzir um volume de trigo suficiente para não ficar vulnerável às oscilações do mercado internacional. Condições tecnológicas e agroclimáticas existem para isso, argumentam.
Segundo os pesquisadores, as indústrias moageiras consomem anualmente cerca de 8,5 milhões de toneladas de trigo. Na última safra, o País produziu aproximadamente 3,1 milhões de toneladas. O decréscimo gradual da área cultivada com trigo no Paraná, que diminuiu de 1,9 milhão de hectares em 86 para 860 mil ha em 97, deve-se à falta de um mecanismo de comercialização que favoreça a compra do trigo brasileiro. Ou seja, compra-se o trigo importado por melhores preços, devido a subsídios que esses países adotam para proteger sua produção e ainda com melhores condições de pagamento. Isso desestimulou a produção, afirma Dotto. Para os pesquisadores, a garantia de comercialização a preços compatíveis é um fator que levaria ao aumento da produção do cereal no País.





