Propriedade rural: uma empresa no campo
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sábado, 22 de dezembro de 2018
Rafael Costa <br> Reportagem Local 


O Sistema Faep apresentou os vencedores de mais uma edição do PER (Programa Empreendedor Rural) no último dia 14. Dez projetos finalistas foram ao palco montado no Expotrade Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, sob os olhares de mais de 5 mil pessoas de todo o Estado, reunidas para o Encontro Estadual de Empreendedores e Líderes Rurais.
Nenhum propunha a invenção da roda: as soluções variavam desde um aumento de 50m² de área plantada de maracujá até a implementação de um novo aviário com sistema de aquecimento alimentado por cavaco granulado, como foi o caso do projeto vencedor, dos irmãos André e Adriano Facin, de Céu Azul, no Oeste do Estado (confira os projetos finalistas na página 7).
Mas também poderia ser apenas o caso de melhorar uma cerca, já que o que mais interessa aos organizadores do programa é o percurso feito pelos participantes. A ideia, segundo a gestora do programa, Luciana Matsuguma, é que os produtores olhem para suas propriedades com lentes de empreendedor e passem a conduzi-las como as empresas que elas, de fato, são.
"O produtor é um empreendedor porque faz a gestão, implanta novas tecnologias, contrata ou demite (a depender do tamanho da propriedade). Ele trabalha com todas as áreas", explica Matsuguma. "A partir do momento em que compreende que tem uma empresa, ele se torna cada vez mais profissional no que está fazendo."
A empreitada já dura 15 anos: o PER foi criado em 2003 pelo Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) do Paraná para atender pessoas ligadas ao meio rural, de proprietários e suas famílias a prestadores de serviço.
O curso inclui uma fase de conteúdos multidisciplinares, que soma 136 horas de aulas semanais com assuntos que vão desde economia até questões jurídicas do meio agrário, passando por gestão e administração rural. Parte-se, então, para o diagnóstico da propriedade, o planejamento estratégico, o estudo de mercado e, por fim, o projeto - que pode ou não ser implementado.
Ao longo desses 15 anos - e 28 mil participantes -, um perfil diferente de produtor foi surgindo, conforme conta o instrutor do Senar Luiz Antonio Tiradentes, "facilitador" do programa desde a primeira edição. Para ele, o produtor rural está se profissionalizando mais e buscando mais informações para se manter competitivo.
"De uma maneira geral, as propriedades rurais, hoje, possuem muitas oportunidades, porque a população mundial está aumentando e a demanda por alimentos é crescente. Por outro lado, há a concorrência, questões climáticas e de mercado e também questões políticas e sociais que também trazem ameaças. O produtor tem de estar atento ao que está acontecendo fora da porteira para conseguir de adaptar", analisa. "Quando as pessoas vêm ao PER, vêm porque sabem que a concorrência é pesada e se, não fizerem a gestão de forma correta, nem o leite, nem a ave e nem a soja vão dar dinheiro", diz.
Criz Zanovello, que levou o segundo lugar do prêmio ao lado de Roni Zanovello com um projeto de desenvolvimento de um sistema integrado de produção para o sítio da família, em Santa Maria do Oeste, conta que percebe essa mudança em curso. Para ele, há uma "questão cultural" a ser mudada do campo. "A gente cresce com a ideia de 'ir levando' as coisas, sem planejamento", explica. "Mas essa mudança está acontecendo. E, se não ocorrer, muitas propriedades pequenas, familiares, vão acabar sucumbindo às grandes fazendas", avalia.
O projeto vencedor neste ano é um bom exemplo de como as ferramentas exploradas pelo curso funcionam neste sentido. Adriano Facin conta que o trabalho possibilitou um diagnóstico preciso do que estava dando retorno na propriedade, que, além de avicultura de corte também produz soja, milho e leite. "O que vinha salvando era a atividade avícola. O PER trouxe esse diagnóstico e nos auxiliou na tomada de decisões e no planejamento", conta.
O projeto dos irmãos envolve a substituição da lenha utilizada no aquecimento do aviário por cavaco granulado para viabilizar a autossuficiência energética. Isso envolveu, por exemplo, mapear a região para descobrir fornecedores. "Implementar um projeto desses sem saber se era viável poderia dar prejuízo para a propriedade", explica.
"É extremamente importante para o produtor não sair simplesmente fazendo", explica Luciana Matsuguma. "Ao colocar no papel, se o projeto é inviável, o produtor terá gastado apenas papel e caneta", ilustra.
Foram inscritos 89 trabalhos na edição 2018 do PER. Os primeiros colocados ganharam uma viagem técnica internacional a ser feita em 2019.


