Plantar, colher e retirar da terra o sustento da família faz parte da história de milhões de brasileiros, cuja vida teve origem na zona rural. Ensinamentos, valores e as técnicas de cultivo na propriedade foram passados de pai para filhos, ao longo de séculos. A produção da semente, cultivo, colheita e venda dos produtos seguia a tradição de famílias e comunidades de cada região.
Tecnologias produzidas pela pesquisa em empresas públicas ou privadas fornecem possibilidades de profissionalização da atividade. Mas junto com as novas técnicas há a disseminação da idéia de que o conhecimento do agricultor pouco vale diante da produção da pesquisa. Com isso, a tradição da agricultura acaba se perdendo, o que provoca o aumento da dependência do agricultor.
A semente é um dos grandes patrimônios da agricultura familiar que se vão com a opção da produção altamente tecnificada. Em vez de produzir suas próprias sementes o pequeno agricultor adota o material desenvolvido por empresas de pesquisa, junto com pacotes tecnológicos nem sempre adequados para a sua propriedade. Com o tempo, variedades crioulas - que tiveram origem ou foram mantidas na propriedade por até 60 anos - acabam extintas.
Um projeto desenvolvido por agricultores de 22 municípios da região centro sul do Paraná e norte de Santa Catarina, que resgata sementes crioulas de milho, inspirou agricultores familiares da região de Londrina a recuperar as variedades e utilizá-las na propriedade. O projeto reúne professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que atuam junto com os agricultores do centro sul, o escritório local da Emater e a Secretaria da Agricultura de Londrina.
''Os híbridos desenvolvidos pelas empresas pode até ser mais viáveis, mas nem sempre é a melhor escolha'', afirma Josué Maldonado Ferreira, professor da UEL que atua junto aos agricultores do centro sul. Também participam do projeto as professoras Rosângela Maria Moreira e Eliane Tomiasi Paulino, e o técnico agropecuário Paulo Mrtvi, do escritório local da Emater, em Londrina.
Segundo Maldonado, o agricultor familiar não tem condição de comprar a semente e ainda arcar com os custos do pacote tecnológico necessário para os resultados na lavoura. ''A produtividade daquele híbrido não alcançará a máxima expressão'', enfatiza. Do contrário, se o agricultor familiar cultivar com sua própria semente, não terá a produtividade do híbrido, mas vai garantir a rentabilidade, porque os custos serão menores.
O resgate das sementes crioulas serve também para valorizar os conhecimentos do agricultor. ''Está no imaginário popular que produção tecnificada depende de insumos externos à propriedade - sempre caros -, o que dá idéia de modernidade. E ninguém quer ser antigo'', diz Maldonado. ''Podemos resgatar o senso de comunidade do agricultor, para que ele volte a ser o pesquisador que era'', completa Paulo Mrtvi, da Emater de Londrina.
Recuperar o material requer o envolvimento das comunidades. De acordo com Maldonado, as atuais gerações de agricultores familiares acreditam que se separar 10 espigas de milho estão conservando a variedade. Porém, se utilizar um pequeno número de espigas, vai fazer cruzamentos entre indivíduos aparentados e a qualidade e produtividade acaba se perdendo. ''O agricultor diz que a 'variedade cansou', mas o que ocorre é a manifestação da carga genética por causa desses cruzamentos'', explica.

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