Os órgãos de pesquisa são parte essencial na conservação de recursos genéticos ex sito (fora do local de origem do material), armazenados em outro ambiente. Porém, o professor do departamento de biologia geral da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em genética e melhoramento de plantas Josué Maldonado Ferreira faz um questionamento: "Quem foi o responsável por identificar, conservar e fazer o melhoramento genético dessas variedades que nos servem hoje de alimento ao longo da história?".
A resposta é clara para ele: o produtor rural. Por isso, nada mais natural que ele participe e tenha papel importante no processo de conservação de recursos genéticos.
"Mesmo que tenhamos uma grande representatividade nos bancos de germoplasma, eles não têm toda a diversidade lá dentro. Estas conservações que estão fora do local, em certo sentido, param no processo evolutivo, porque novas doenças, novos problemas surgem no campo. As populações (culturas) que se mantém nas propriedades têm indivíduos que vão sobrevivendo ao processo de evolução graças às alterações que existem no meio ambiente", relata Ferreira.
Um projeto que prova que é possível realizar esse trabalho é o de Conservação, Produção e Melhoramento Genético Participativo de Sementes Próprias de Milho, coordenado pelo professor da UEL e que acontece em parceria com o Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). Produtores da região Norte do Estado têm pouca disponibilidade de variedades locais, chamadas crioulas. A equipe monta experimentos nas propriedades com variedades desenvolvidas pela UEL, Iapar e Embrapa, com o intuito de escolher a mais adaptada para as condições do agricultor familiar.
Identificadas as variedades com melhor potencial, é fornecida uma amostra de 10 mil sementes para a multiplicação e melhoramento genético participativo dessas variedades. Em uma área isolada para que não aconteça cruzamentos genéticos, os agricultores escolhem as mil melhores plantas depois do florescimento. "Depois se selecionam as melhores espigas, que serão debulhadas e formarão quatro amostras: uma para retornar ao ciclo produtivo, uma de segurança (caso haja problemas climáticos), outra amostra fica permanente no banco de germoplasma da UEL e outra é cedida a novos grupos de agricultores", explica o coordenador do projeto.
O agricultor recebe a semente apenas uma vez. "Depois desse processo, o agricultor se torna independente em relação à compra da semente, melhora a variedade para o sistema de produção dele, conserva o material genético e produz quantidade suficiente para a plantação dele e dos vizinhos."
O produtor de Assaí Lauro Tetsuo Kokamura participa há quatro anos do projeto. Ele planta grãos em diferentes áreas que totalizam 50 alqueires e reserva quatro alqueires para a produção de sementes com a metodologia do projeto. "É clara a melhoria da genética do milho ao longo das quatro safras. No primeiro procedimento, o total era de 14 fileiras de semente por espiga. Agora já atingimos 22 sementes", conta.
Para a próxima safra de milho, ele espera aumentar a área dedicada à produção de sementes de seis para oito alqueires. "Os valores da semente de milho no mercado são elevados, por isso vale a pena apostar na produção de sementes na propriedade", complementa Kokamura. (V.L.)

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