Condecorado na última quinta-feira como comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, o pesquisador da Embrapa/Soja, Flávio Moscardi, tem na homenagem o reconhecimento do seu trabalho científico dedicado à preservação ambiental, com destaque na área de manejo de pragas de soja. O diploma da Ordem foi entregue pelo presidente FHC, em solenidade no Palácio do Planalto. Moscardi foi indicado pela Academia Brasileira de Ciências e cientistas de outras áreas também foram homenageados na ocasião.
Com 30 anos dedicados à pesquisa, Moscardi teve, em 1972, quando ainda era estagiário do curso agronomia na Esalq/USP, de Piracicaba, a oportunidade de começar a estudar a infestação de lagartas em soja. Durante os estudos, foi identificado um vírus, reconhecido como ''baculovírus'', que teria o potencial de matar a lagarta da soja, não provocando nenhum malefício ao meio-ambiente, ao contrário de muitos dos inseticidas clorados usados na época - hoje banidos do mercado - como o DDT.
Após concluir o curso, em 1973, foi contratado pela Embrapa. Fez mestrado e doutorado na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, para desenvolver o potencial do uso do baculovírus. De volta ao Brasil, em 1983 começa a utilizar a substância com os produtores. Em 1985, desenvolve formulação do vírus em pó, solúvel em água, e produto passa a ser produzido em escala comercial por cinco empresas nacionais. Hoje, produto é utilizado em 1,6 milhão de ha de soja, cerca de 10% da área cultivada do país.
''A demanda está sendo maior do que a indústria está produzindo, mas como ainda dependemos da lagarta morta, contaminada pelo vírus, como matéria-prima, a produção ainda é limitada'', explicou. Atualmente, a Embrapa está desenvolvendo metodologia para implementar a produção do bioinseticida em laboratório, com custo cinco vezes reduzido, e aguarda recursos do governo federal para viabilizar laboratório experimental.
''O nosso produtor é constantemente doutrinado pelo marketing das grandes indústrias agroquímicas com métodos que visam o benefício imediato. Mas esse panorama vem mudando, e hoje os produtores começam a ficar mais conscientes, utilizado inseticidas mais seletivos e diminuindo a quantidade de aplicações'', afirmou.
Para Moscardi, investir em Ciência e Tecnologia deve ser prioridade do programa do próximo governo. ''É uma questão de segurança aumentar a nossa competitividade diante de outros países e iniciativa privada e para isso precisamos de mais investimentos, o que deve ocasionar aumento de arrecadação.''
Sobre a contribuição do avanço tecnológico para diminuir a fome, Moscardi afirmou que, na prática, isso não está acontecendo. ''Isso é uma questão política e falta uma estratégia global para melhorar a distribuição mundial de alimentos'', criticou.
O mercado de soja, para o pesquisador continua bastante promissor, principalmente para o Brasil, que possui grande potencial de expansão de área, com destaque nas regiões de cerrado. ''O ocidente recentemente despertou para a importância 'sagrada' dessa oleaginosa para o povo asiático, e o consumo do produto tende a aumentar com a expansão populacional'', comentou.
Procurar métodos não poluentes e praticar uma agricultura auto-sustentável é crucial para a vida, segundo o pesquisador. ''Não temos outra saída. Precisamos mudar a nossa filosofia de produção. O apelo econômico é grande, mas o governo precisa desenvolver condições para a diversificação, oferecendo subsídios ou redução de impostos aos produtores que praticarem uma agricultura mais consciente'', sugeriu.

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