Jota Oliveira
De Londrina
Um som triste e grave se espalha por dois-três quilômetros de distância, na tarde do campo. Pouco depois, do lado oposto, como dois instrumentistas caminhando um ao encontro do outro, espalha-se um som semelhante, igual na maior parte das vezes. Em segundo plano outros sons, mais baixos e ‘‘surdos’’, começam a ser ouvidos. Quem conhece esses sons, sabe que duas boiadas se aproximam.
Os primeiros sons, tristes, são dos berrantes, chamando os animais. Os outros são mugidos cansados dos bois. Está começando, na estrada empoeirada, uma tradição dos chefes das comitivas: o desafio dos berranteiros (leia box) . Usado em todo o País, nas regiões de pecuária onde se movimentam grandes manadas, como no Pantanal sul-mato-grossense, o berrante é um instrumento que pode ser extinto pela modernização no campo. Já está difícil encontrar os grandes chifres dos quais eles são feitos, porque existem muitas raças sem cornos (por exemplo, nelore mocho), e aumenta o abate de animais jovens, os novilhos precoces ou superprecoces, que não chegam a desenvolver guampas de bom tamanho.
Boi carreiroA modernização da agricultura é outra ameaça ao berrante. Auderci Pequeno Alves, o ‘‘Alemão’’, e seus três parceiros (Edmilson Joaquim Alves, José Joaquim da Silva e Francisco Rodrigues Santana), artesãos, fabricam berrantes e pequenas peças de chifres em Jaguapitã, no Norte do Paraná. ‘‘Alemão’’, além de trabalhar na fabricação das peças (‘‘quando tenho tempo’’), é o encarregado de comprar matéria-prima, mas observa que está ficando difícil encontrar bons chifres. Ele trabalha no ramo há sete anos e há três formou a parceria com os amigos, que estavam desempregados ou aposentados.
Em certo mês os quatro fizeram 518 berrantes, além de peças menores, mas a média é pouco superior a 400 berrantes/mês. Para atender a demanda, Auderci compra chifres em Chapecó e Timbó, Santa Catarina, e no Mato Grosso do Sul, Estado que é seu principal mercado. Mercados para berrantes e outros artesanatos de chifres são os Estados de Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rondônia e Distrito Federal, além do Paraná. Aqui, apesar da quantidade de peças fabricadas no Estado, existe pouca procura.
Pequenos proprietários rurais de Santa Catarina ainda utilizam bois de carro, para transporte e trabalho na roça, desde o preparo do solo. Cada um desses produtores tem geralmente três juntas, ou parelhas – os velhos, os jovens e os bezerros, que vão cedo para a corda, para se acostumarem.
Quando os primeiros bois carreiros são dispensados do serviço e vão para o corte, têm grandes chifres, que são comprados pelos fabricantes de berrantes. No entanto, a picape e o trator já estão entrando até nas menores roças, e o boi-de-carro poderá em breve ser apenas uma reminiscência em fotografias e nos bancos de sêmen destinados a preservar espécies em extinção no Brasil.
BaguáEm Mato Grosso do Sul, outro Estado onde é comprada matéria-prima, o bravio ‘‘baguᒒ, ou tucura pantaneiro, de grandes chifres, cede lugar ao nelore e outras raças de pequenos cornos, ou raças mochas. A produção que Auderci e seus parceiros fazem em Jaguapitã, utiliza cornos grandes.
‘‘Se tivesse mais chifres, a gente poderia fazer mil berrantes por mês’’, calcula ‘‘Alemão’’, o que facilitaria o trabalho em feiras agropecuárias ou na Festas do Peão de Barretos (SP), onde este ano foram vendidos 2.000 berrantes feitos em Jaguapitã. Mil deles fabricados apenas por ‘‘Alemão’’ e seus sócios.
Os artesãos fabricam ainda cuias para tererê (chimarrão frio ou gelado, comum em Mato Grosso do Sul e Paraguai), garrafa sobre casco de boi (retira-se o osso da canela, abre-se o couro e, depois de secar bem, coloca-se a garrafa); garrafa de puro chifre, para água, cachaça e outros líquidos; cinzeiro sobre casco, buzinão (uma trompa que vem sendo usada também por criadores de cabras e ovelhas), porta-canetas (parte inferior da canela, aproveitando a pata). São milhares de peças por mês. Os berrantes são de quatro tamanhos: pequeno, menor, médio e grande.
Ora, a LeiA Lei ajuda e prejudica o negócio dos pequenos, lamenta. ‘‘Alemão’’, tem pensado em comprar chifres no Paraguai, mas para isso, ele precisaria ter uma firma. A Lei ajuda quando protege os artesãos, mas atrapalha quando não permite que esses artesãos emitam nota fiscal, e aí fica difícil para vender a mercadoria, ou para importar matéria-prima. E a situação de ‘‘Alemão’’ é ainda pior, porque nem a carteira de artesão ele consegue. Já procurou associações de artesãos sediadas em Rolândia e Maringá, à procura da carteira, mas responderam que o quadro de artesãos das respectivas associações está completo.
Além disso, outra situação que dificulta a atividade dos parceiros: a Lei proibe cobrança de impostos dos artesãos, enquanto outra exige pagamento de imposto para vender a mercadoria. Quando vai à Coletoria estadual, pagar imposto para vender seu artesanato, a repartição nega-se a receber, enquanto por outro lado ‘‘Alemão’’ e seus sócios não têm carteiras de artesãos e por isso precisam pagar impostos...
No fundo do quintalOs artesãos ‘‘Alemão’’, Edmilson, José Joaquim e Francisco construíram uma pequena oficina ao lado da casa do primeiro (Avenida Minas Gerais x Ceará). Ali eles fazem a seleção e limpeza da matéria-prima, os cortes e aplicam a lixa nas peças que em seguida serão montadas por eles mesmos no fundo da casa. Cada um faz uma parte, embora todos saibam fazer de tudo. É uma pequena linha de montagem. Na oficina, o equipamento foi montado artesanalmente por eles, desde um torno para fazer os toquinhos de madeira que servem de fundo para garrafas e copos de chifre, até a lixadeira e a fresa.Máquina x carro-de-boi, boiada sem chifres, novilhos precoces – alguns dos inimigos da tradição boiadeira
‘‘Alemão’’ toca o berrante. Na parede e na mesa outras peças de chifreSe houvesse mais oferta de chifres, poderiam ser feitos 1.000 berrantes por mêsNa linha de montagem: Edmilson, José Joaquim e FranciscoHistóriaExperimentando o berrante. Edmilson é quem dá o tom, por ser o mais experiente dos parceiros

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