Profissionais da agricultura
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de outubro de 2002
Oswaldo Petrin<br> Reportagem local 
Eles são profissionais da agricultura; utilizam técnicas modernas, têm um bom controle de custos e fazem parcerias para obter orientação. Os produtores de soja do Norte do Paraná estão satisfeitos com os resultados deste ano, mas têm clareza que fatores como o descontrole do câmbio, que alavancou o preço do produto, são atípicos. E que a quebra da safra norte-americana, outro motivo de alta, não se repete todos os anos.
O importante para produtores como os Bertoletti, os irmãos Renato e Juliano Dísparo, de Cambé, e Rui César, de Apucarana, entre outros, é fazer agricultura com competência todos os dias, para concorrer com norte-americanos e argentinos, independente de fatores extraordinários.
Mesmo tendo negociado parte da produção da última safra, 3 mil sacas, a R$ 40,00, no ponto mais alto da temporada, e 27 mil sacas a R$ 36,00 - uma média igualmente alta -, Juliano Dísparo Gomes tem claro o seguinte: ''Em agricultura não se pode errar, da escolha da variedade até o melhor momento de fechar um contrato de venda''.
Para mostrar que a agricultura é uma empresa complexa, ele relaciona os muitos problemas comuns enfrentados numa safra. Esses problemas vão desde as doenças do solo - que exigem num bom tratamento de sementes - até a colheita, em que a perda tem que ser mínima. Doenças e pragas do solos proliferam na matéria orgânica deixada pelo sistema de plantio direto. Mas esta técnica é induscutível tanto que a Fazenda São Paulo, em Cambé, não tem mais equipamentos do antigo preparo convencional.
Usar tecnologia implica em não abrir mão de insumos na dose certa. Em adubação de base, a quantidade aplicada pelos irmãos Dísparo está acima da média da região. A boa produtividade na última safra (138 sacas/alqueire a um custo fixo de 53 sacas - segundo a Belagrícola) tem a ver com essa atitude de ''utilizar bem os fatores de produção''.
Um ativo real - Diferentes da maioria dos produtores, os irmãos José Mário e Valdemir Antônio Bertoletti, da Fazenda Panorama ®MD77¯(entre os municípios de Cambé e Prado Ferreira), não fizeram venda antecipada da safra 2002/03. Mas parcelaram bem as vendas da última safra, 2001/02: 30% foi vendida no final de abril, a R$ 25,00; 30% a 35%, em julho, a R$ 37,00 e o restante ficou para fechar em outubro. Sem pressa.
''Acho que ainda temos um período favorável pela frente apesar do recuo dos últimos dias'', comentou esta semana José Mário, um dos gerentes, enquanto Valdemir observa: ''Trocando idéias com o Joãozinho (João Andreo Colofati, da Belagrícola - que mantém parceria com produtores, no projeto ''Bela$afra''), ele me perguntou: você em dívida vencendo? - e, como eu não tenho - ele sugeriu: então não tenha pressa de vender''.
®MD77¯
''De fato, estamos capitalizados e não precisamos vender sob pressão de calendário'', resume José Mário Bertoletti. Essa situação cômoda, porém, não dispensa a preocupação com o comportamento da bolsa e outras variáveis que exercem influência nos preços. Ele sabe, por exemplo, que nas últimas semanas os preços internos descolaram das cotações da Bolsa de Chicago, pela pouca disponibilidade do produto.
®MDNM¯ Esses agricultores têm em comum o intenso uso de tecnologia. Produtividade e custo não diferem muito entre eles. Os Bertoletti, com uma produtividade de 128 sacas/alqueire, tiveram um custo variável de 53 sacas, na soja. No milho, a relação é menor, pelo alto custo da semente e dos fertilizantes: 310 sacas/alqueire e um custo variável de 140 sacas.
Além de saber vender é importante saber comprar. Os insumos para a safra 2002/03, que começa a ser plantada nos próximos dias, foram adquiridos quando o dólar ainda estava entre R$ 2,60/2,70.
A fórmula 2.20.20, uma das mais usadas na soja, foi adquirida em junho por R$ 519,00/tonelada. Mas neste mês de outubro já está custando R$ 702,00 - conforme compara José Carlos Maschiari, de uma loja de insumos, em Cambé. No mesmo período, a fórmula 0018, menos utilizada, passou de R$ 380,00 para R$ 600,00/t.
A semente de soja, também no período, passou de R$ 32,50 para R$ 60,00.
O produtor Rui César de Oliveira, de Apucarana, vê pelo menos três razões para o preço da soja continuar em alta: aumento do consumo mundial, baixos estoques mundiais e tendência de manutenção de alta no câmbio.
Para o engenheiro agrônomo Rodrigo Marques Tramontina, da Belagrícola, os agricultores que adotam alta tecnologia são também os que se adaptam melhor ao mercado. E são bem sucedidos na medida em que entendem que investimento não é gasto mas sim produtividade.


