Conforme eu contei em outra estória, João Pinto de Oliveira Castro nasceu em 1927 em Ponte Nova, Minas Gerais. Cresceu na roça e desde pequeno gostava de nadar no rio Piranga e no rio do Carmo. Da junção das águas desses rios é que se forma o Rio Doce, que em 2015 foi devastado por um desastre ambiental que arrasou aquela bacia hidrográfica.

Desde criança João ajudava seus pais e irmãos na roça, preparando a terra, semeando, colhendo. Tinha muita habilidade no plantio de milho, especialmente no uso da matraca. Depois do trabalho na roça, saía de casa às dez horas da manhã e ia a pé pra escola numa jornada de oito quilômetros. No caminho iam se juntando outras crianças que se dirigiam ao mesmo lugar. A aula começava às onze horas e terminava no meio da tarde.

A professora, Dona Quitéria, ensinava os alunos do 1º ao 4º ano na mesma sala, que ficava num galpão de fazenda onde não havia carteiras e o quadro negro era uma parede tosca na qual ela escrevia com pedaços de cal ou cacos de telha. A maioria dos alunos não tinha caderno e muitos se revezavam na utilização do mesmo toco de lápis para copiar as coisas que a professora ditava.

Imagem ilustrativa da imagem Proezas de João Ligeiro



No final da tarde, depois da aula João corria para a beira do rio Doce, onde ficava atendendo as pessoas do outro lado da margem. Como ainda não havia ponte naquele lugar, seu serviço era buscar e levar coisas de um lado para o outro. Ele amarrava várias cabaças em torno da cintura e descia o rio flutuando, levando as coisas dentro de um picuá. Carregava de tudo: toucinho, cachaça, enlatados, linguiça, queijo, milho..., ganhando para isso alguns trocados. Conhecia bem os remansos e corredeiras e com suas vigorosas braçadas atravessava o rio com rapidez. Daí veio o apelido: João Ligeiro.

Tocava a vida trabalhando na roça, indo pra escola e fazendo o ofício de "leva e traz" na beira do rio, até que um dia surgiram algumas manchas esverdeadas nos seus braços. Sua mãe tinha falecido e o rapaz foi mostrar as manchas ao pai, que o mandou procurar a Vó Izolina, famosa rezadeira da região. A benzedeira disse que ele havia sido enfeitiçado pela mãe d’água, a Iara. Por isso fez orações, passou um óleo nos braços dele e recomendou que voltasse em duas semanas para terminar o benzimento. E que não fosse mais nadar nas águas do rio! Ele obedeceu por alguns dias e as manchas diminuíram. Logo se achou curado, não voltou à benzedeira e continuou com seu serviço na beira do rio. Depois de um mês as manchas voltaram, ficaram mais fortes e quando João estava ao sol, parecia que brilhavam. Seu pai não teve outro jeito a não ser levá-lo ao doutor, que naquele tempo era um prático farmacêutico, na verdade um boticário. João Ligeiro nunca tinha ido ao médico, dentista ou coisa parecida, por isso estava assustado antes da consulta e ficara arrepiado, o que fez as manchas ficarem mais salientes.

Depois de fazer muitas perguntas e examinar os braços do rapaz, o boticário coçou com demora a barba e deu o seguinte diagnóstico:

É um causo difícil de entender, mas parece que por ficar muito tempo dentro d´água, o João Ligeiro tá criando escamas......tá virando peixe!

GERSON ANTONIO MELATTI, leitor da FOLHA (inspirado na canção Guri Canoeiro de Pedro Ortaça)

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