Produzir é fácil; difícil é vender
Mais uma lição ao produtor, que não deve começar uma atividade sem ter garantia de mercado
Jota Oliveira
Ossamo KandaViabilidadeCarmino Hayashi: ‘‘Do ponto de vista técnico não há restrições à produção de escargô no Brasil’’Tecnicamente o Paraná tem condições de produzir escargôs, principalmente o ‘‘gigante africano’’ (Achatina fulica), também chamado ‘‘gigante chinês’’, que por ser originário da África se dá bem no Brasil, um país também tropical. O professor Carmino Hayashi, do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), vem pesquisando essa espécie e constata que do ponto de vista técnico a produção é viável. O que restringe a helicicultura no Estado é a comercialização.
Mestre em Produção Animal e Doutor em Ecologia e Recursos Naturais, Hayashi pesquisa o escargô do ponto de vista biológico, de suas exigências nutricionais, mas não deixa de acompanhar outros aspectos da cadeia produtiva do molusco. Por isto, ele observa um problema fundamental de comercialização: no Paraná - e no Brasil todo, salvo nos maiores centros como Rio de Janeiro e São Paulo - o produto não tem demanda. Para os vendedores de matrizes tem. Esses percorrem o Interior, cantando as maravilhas comerciais do escargô, suas grandes possibilidades, o retorno do investimento em curto prazo, e vende seus reprodutores. Quando começa a produzir, o novo helicicultor não encontra mercado, não tem orientação mercadológica, nem assistência técnica.
São raros os restaurantes que servem escargô, no Brasil. Este promove até festival da raça de Bourgogne (Borgonha, região da França)Matrizes‘‘O problema nosso não é produzir, mas comercializar’’, constata o professor da UEM. A população não tem o hábito de consumir escargô. No entanto, como lembra o professor, existem pessoas interessadas em vender matrizes, pelas quais cobram R$5,00 cada, ‘‘sempre alegando ser um bom negócio’’. Para produzir um quilo de escargô, um bichinho que pesa de 10 a 15 (petit gris) ou chega à média de 20 gramas (‘‘gigante africano’’), conforme o tamanho da raça, haja matriz!
O iniciante acaba investindo um bom dinheiro apenas na compra de animais para reprodução. O matrizeiro faz a entrega e some. Não aparece para dar qualquer orientação quando o produtor, com a criação nas mãos, fica sem saber o que fazer com ela. Para vender os reprodutores, os matrizeiros afirmam que vão comprar a produção, ‘‘mas na realidade falam isso para vender; depois o produtor se vira’’, comenta Hayashi. Se o produtor achar comprador, o preço gira em torno de R$7,00 a R$10,00 o quilo vivo.
TecnologiaNo Paraná foram vendidas matrizes das espécies petit gris, européia, mais de clima frio, e Achatina fulica, de clima quente. Carmino Hayashi comenta que petit gris, por sua cor mais clara, e também pelo aspecto e sabor melhores, é preferido e tem maior valor valor comercial. O ‘‘chinês’’ ou ‘‘ africano’’, tem carne mais escura.
Hayashi pesquisa as exigências nutricionais do escargô; o manejo da criação, como a densidade por caixa - quantos animais por metro quadrado. Em nutrição estuda níveis de proteína bruta, por exemplo. O pesquisador aponta um problema que considera muito sério: a alta densidade causa doenças como bacterioses; proporciona a criação de ácaros, parasitas. O único meio de controlar esse problema é a prevenção, como aumentar o local da criação ou diminuir o número de moluscos por área, baixando a densidade.
Em Maringá havia, no começo de 1993, alguns produtores de escargôs. Hoje, afirma Hayashi, ninguém está produzindo comercialmente. Em outros municípios do Paraná, como Foz do Iguaçu e Mirasselva, helicicultores chegaram a vender escargôs como isca, para pescadores; outros criadores, revoltados com o logro em que caíram, jogaram suas criações no rio. Este fracasso ocorreu, comenta o pesquisador, porque havia uma promessa de retorno rápido. Muitas pessoas entraram no negócio e perderam.
Manejo e preçoComendo 10 gr por dia, o escargô aparentemente não dá muita despesa, mas se o produtor tem 5 mil animaizinhos, ele poderá necessitar de 50 quilos de ração industrial ou de verduras (folhosas) por dia. Embora sendo um herbívoro, o caracol aceita ração. Na Universidade de Maringá, Hayashi e sua equipe preparam a alimentação do caracol, à base de ração comercial para herbívoro e fazem uma complementação de proteínas, carboidratos e outros elementos.
Criar escargô não é coisa que se deve fazer para ficar rico. É uma atividade como outra qualquer, mas para ganhar algum dinheiro é preciso ter mercado, adverte Hayashi. A espécie pesquisada por ele pode ser criada em pequenos espaços, com poucos investimentos e, sendo originário de um país tropical, adapta-se bem às condições brasileiras. O pesquisador diz que ele pode pesar ‘‘mais de 100 gramas’’ em sua fase adulta, mas já pode ser comercializado a partir de 15 gramas, aos 90 dias de vida. Se os produtores se organizarem para exportar, sem intermediação, podem alcançar até UR$20,00 o quilo no Exterior.
Na USP em Pirassununga (SP) faz-se também pesquisa com escargô, mas, segundo Hayashi, é na linha de medicamentos, para aproveitar o muco como cicatrizante.

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