Produza mais, com qualidade
O vice-presidente do Conselho Nacional do Café, Luiz Marcos Suplicy Hafers, que esteve em Maringá para o 2º Encontro Paranaense de Café Adensado, durante a semana passada, defende a cafeicultura como forma de diversificação. Ele aconselha os produtores, que estão entrando agora no plantio adensado, a adotar a tecnologia disponível, única forma de garantir uma lavoura lucrativa. Hafers acha também que a experiência de café adensado no Paraná é bem sucedida, devolvendo ao Estado a condição de produtor de café de qualidade. Em entrevista à Folha Rural Hafers falou sobre a cafeicultura.
Folha Rural: Como está o mercado de café hoje?
Hafers: O mercado está em seus índices mais baixos dos últimos anos. Acredito que é o fim de um movimento de baixa. A posição estatística é muito boa e não se justificam os níveis de preço. O que acontece é que, se os valores eram formados pela posição dos estoques nas mãos dos compradores e vendedores, está evoluindo para o fluxo de produto. Com isso ficou em uma situação mais complicada, porque o café reage a percepções e nós ainda não estamos suficientemente preparados para colocar as nossas condições de uma maneira tão clara que faça frente aos valores praticados pelos compradores.
Arquivo FolhaO café adensado pode ser a saída para as pequenas propriedades que apostam na diversificaçãoRural: O que falta para o Brasil entrar no mercado internacional com mais força?
Hafers - Precisamos ter uma liderança mais clara, uma parceria e não uma tutela do governo. No momento eu acho que a maior fragilidade que nós temos é a financeira. Ainda temos que vender café por necessidade e precisamos melhorar nossa estrutura financeira, para poder vender café por opinião.
Rural -E o que falta para isso a nível de produtor?
Hafers - Falta um acesso mais claro, fácil e barato ao crédito, para carregarmos em estoques. Nunca os estoque estiveram tão baratos, por dois motivos: pela falta que houve nos últimos três anos e custo elevado do juro. Falta simetria entre produzir durante 120 dias e consumir em 360 dias. A categoria tem que carregar em estoque, mas com os juros que estão aí é impossível.
Rural - E o que falta de apoio oficial?
Hafers - A agricultura perdeu o poder político há muito tempo e nós do setor como um todo, e não apenas a cafeicultura, somos encarados como parte do problema, mas somos uma das principais partes da solução. Temos que falar hoje para a opinião pública, que representa 75% da população. Com isso talvez tenhamos mais apoio ao invés de indiferença.
Rural - O senhor aconselharia um produtor da região Norte do Paraná a plantar café, hoje?
Hafers - Sem dúvida. Só acho que quem planta café bem plantado não pode dar espaço para o mais ou menos. Ou é bom ou não é. Nosso presente e nosso grande futuro é a técnica, a competência e a gerência. Precisa ser competente para ter retorno.
Rural - E isso passa pela diversificação e pelo café adensado?
Hafers - Sim, mas passa principalmente por uma revolução cultural do lavrador, que precisa saber que ele tem que ser bom. No resto a gente dá um jeito. Um proprietário com as boas terras do Paraná, com 10 alqueires, pode ter uma vida boa.
Rural - O café adensado pode ser a saída para as pequenas propriedades que apostam na diversificação?
Hafers - Sim. O café adensado vai bem em qualquer área, até nas mais quebradas. O pequeno produtor até leva algumas vantagens. Uma família toca perfeitamente cinco hectares de café, e como a mão-de-obra é familiar, elimina os problemas trabalhistas. Hoje quem paga 10 trabalhadores tem o custo de 17.
Rural - Existe um limite para a volta das lavouras de café no Paraná, já que outros Estados estão na dianteira e têm mercado garantido?
Hafers - Nunca pensei nesse assunto. Mas acho que com todo esse movimento do adensado, ainda vai-se plantar menos que o necessário. Acho que o Paraná chega nos 130 mil hectares a curto prazo, elevando a produtividade a 30 sacas por hectare, chegando a uma produção de quatro a quatro e meio milhão de sacas por ano, contra dois que está produzindo. Existe mercado para essa produção e até mais um pouco.
Rural - E o senhor acredita que o café do Paraná tem qualidade para competir com o de outras regiões, como do Cerrado, que tem até selo próprio?
Hafers - Podemos ter qualidade, mas para isso é preciso apostar na produtividade e na melhoria de todo o processo de produção. No tempo do IBC (Instituto Brasileiro do Café), comprava-se qualquer porcaria de qualquer jeito. Hoje não vendemos mais café para o governo, vendemos para o consumidor, que exige satisfação. A pessoa toma uma xícara por hábito, mas a segunda vai tomar por prazer. No Paraná o café descascado é de uma qualidade excepcional, que vem ganhando mercado e preço. Não tenho dúvida de que, com tecnologia e profissionalismo, o Paraná poderá produzir um bom café.Marcos NegriniQualidadeSuplicy Hafers:O mercado quer qualidadeMarcos Zanatta





