Produtores motivados com o trigo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de maio de 2008
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
O apoio do Governo Federal para o plantio do trigo era negociado desde o mês de janeiro por entidades da cadeia produtiva do Paraná e do Rio Grande do Sul, estados responsáveis por mais de 90% da produção nacional. A principal conquista no Plano Nacional do Trigo, anunciado no dia 17 de abril, na avaliação do engenheiro agrônomo Robson Mafioletti, assessor técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), foi o aumento de 20% no preço mínimo, elevando de R$ 24,00 para R$ 28,80 o valor do saco de 60 quilos do grão.
''O preço mínimo se mantinha o mesmo há mais de sete anos, bem ao contrário dos custos de produção que se elevam a cada safra. O produtor tem mais garantias de liquidez'', diz Mafioletti. As lavouras de trigo já estão espalhadas em 37% da área de plantio prevista para esta safra. Segundo dados do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), deverá ser maior que a do ano passado. Estimativas apontam o plantio de 996 mil hectares contra 839 mil de 2007 - quase 19% superior.
Se as condições climáticas continuarem favoráveis, o estado deverá ter também safra recorde, com elevação de 34% na produção - o que significa 2,6 milhões de toneladas de trigo. No ano passado, foram colhidos 1.949 milhões de toneladas. O aumento na área de plantio, entretanto, deve-se muito mais às condições do mercado tanto nacional quanto internacional que registram preços muito acima da média histórica. No início da semana, o preço do grão fechou a R$ 41,84/sc - a média de maio de 2007 foi de R$ 25,31. Na Bolsa de Chicago o valor pago era de US$ 810,25 bushel/tonelada (preço bruto aproximado de US$ 29,00/sc).
Otmar Hubner, técnico do Deral, também concorda que o plano do trigo não pesou na decisão dos produtores e, consequentemente, no aumento da área de plantio. ''É uma política importante para dar segurança ao mercado. ''O preço muda a qualquer tempo, assim quando o produtor for vender tem a garantia do governo, dos prêmios'', diz ele, referindo-se também ao preço mínimo.
Já o presidente da Bolsa de Mercadorias de Londrina, Luiz Roberto Ferrari, diz que é muito difícil a interferência do governo nas decisões de plantio porque essas medidas saem sempre muito atrasadas, com a safra em andamento. Ele cita a contribuição do mercado nesta safra e calcula que os bons preços devem se manter por, pelo menos, mais dois anos.
O que preocupa, segundo ele, são os baixos estoques reguladores de praticamente todas as commodities. ''Se tivermos problemas climáticos teremos dificuldades sérias no abastecimento. O volume de recursos disponíveis para o agronegócio cai ano a ano, como então o governo trabalhará com esses estoques estratégicos?'', questiona.
Para outro empresário consultado pela Folha Rural, o trigo ''é um mercado complicado para se analisar''. O plano anunciado pelo Ministério da Agricultura traz soluções paleativas, ''não combate a causa, só os efeitos''.
Ele destaca que, como a produção do trigo é, praticamente, restrita aos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, aumentar a produção sem dar condições de transporte para o grão pode complicar a situação. Boa parte dos moinhos ficam no Norte e Nordeste do país. O meio mais barato seria por navios, mas a legislação brasileira só permite este transporte por embarcações com bandeiras nacionais. ''O número de navios é pequeno - cinco ou seis - e os donos encarecem o frete. Fica mais barato trazer o produto de outros países. Vai sobrar trigo nacional'', prevê.
Além da cabotagem (navegação mercante entre portos de um mesmo país) com navios de outras nacionalidades - defendida também pelos demais entrevistados, a solução para ele seria a produção do trigo em outras regiões do país. ''Há tecnologia para isso'', garante.


