Curitiba - Nos países ricos a agricultura está substituindo a chamada matriz química, dominada pelos agrotóxicos, pela matriz da biotecnologia, como forma de atender a escala de produção que tem que ser planetária, de acordo com as regras de mercado. O problema é que na escala de produção global não existe espaço para o agricultor familiar e não está ocorrendo nenhum tipo de preparo para essa transição, criticou o professor Sebastião Pinheiro.
Por conta dessa mudança de matriz sem preparo, ele diz a Argentina está varrendo os agricultores familiares de seu território, destacou. Pinheiro aponta que, nos últimos seis anos, cerca de 30 mil pequenas propriedades produtoras de leite e 25 mil pequenas propriedades com fruticultura foram eliminadas. O espaço foi ocupado pelo plantio de soja transgênica que praticamente tomou conta do País.
''O Brasil precisa acordar rapidamente para esse fenômeno, que tem todas as condições de se disseminar por aqui, e elaborar um projeto para o futuro da nossa agricultura'', alertou. Para Pinheiro, o Brasil deveria desenvolver sua própria matriz biotecnológica, aproveitando o conhecimento dos cientistas e professores brasileiros, para disputar mercado e espaço ''sem ficar dependente da biotecnologia desenvolvida por multinacionais'', defendeu.
Outra alternativa para o agricultor familiar seria a agricultura orgânica, mas o problema é que estão criando serviços que, segundo Pinheiro, são desnecessários como certificações e rastreabilidade que estão penalizando o agricultor familiar. ''Isso é mais um meio de tirar dinheiro do pequeno agricultor que não tem condições de pagar por certificados caríssimos''. Segundo Pinheiro, as empresas certificadoras cobram em média US$ 7,5 mil por propriedade, dinheiro que é desembolsado do lucro do produtor. ''Por isso, os produtos orgânicos custam tão caro ao consumidor'', afirmou.
Para Pinheiro, se o sistema de exploração da agricultura orgânica continuar dependentes desses certificados, o produto vai continuar sendo destinado apenas a uma elite que pode pagar mais caro, quando na verdade a agricultura orgânica tinha que ser disseminada para todos, destacou. ''É uma falta de respeito o agricultor depender de uma avaliação de instituição estrangeira que nem conhece o Brasil para dizer se ele está falando a verdade ou não. Essa situação tira totalmente sua autonomia'', disse. (V.C.)

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