Produtores de uva da comunidade Três Águas, no município de Bandeirantes (34 km a leste de Cornélio Procópio), estão colhendo a segunda safra anual da fruta. Desde 1973, eles colhem duas vezes por ano, garantindo oferta do produto em dezembro, durante a safra normal e no outono, quando produzem a uva temporã.
De acordo com a Associação Comunitária de Desenvovilmento das Três Águas, que reúne 80 produtores, a região é a única do País a oferecer uvas fora de época para consumo do mercado interno. ‘‘O nordeste também colhe, mas é apenas para exportação’’, esclareceu José Pedro Marson, presidente da entidade.
Segundo ele, as duas colheitas anuais são propiciadas pelas condições naturais da região, que apresenta clima quente e altitude baixa, favorecendo a maturação precoce do produto.
Manejo José Pedro explicou que para produzir no outono, é preciso fazer a poda dos pés em janeiro, logo após a colheita normal. Como a região apresenta condições para maturação precoce, essa safra começa a ser colhida em abril e termina em junho, garantindo tempo para a maturação da safra habitual de dezembro.
O produtor ensina que a poda de junho, para a produção do final do ano, deve acontecer na quarta gema da rama da planta. Para obter a safrinha, a mesma rama deve ser podada na oitava gema, em janeiro. Ele acrescenta que a maturação da safra normal leva 150 dias, mas se reduz para 120 dias na segunda colheita.
O manejo da lavoura é semelhante nas duas épocas. A uva temporã exige, porém, maior aplicação de fungicidas, pois seu crescimento acontece durante um período de clima mais quente e úmido, favorecendo a proliferação dos microorganismos. Para atender às exigências do mercado por produtos livres de agrotóxicos, eles utilizam um defensivo natural extraído do cogumelo.
Qualidade No total, os 80 produtores cultivam uma área de 200 hectares (ha), que rende 200 mil quilos de uva durante a safrinha e 300 mil quilos na safra normal. Rubi, itália, benitaka e brasil são as variedades mais plantadas na região. Em 1995, eles iniciaram um processo para qualificar a produção, sob orientação do agrônomo Daniel Takahashi.
O objetivo é produzir uvas doces com bagas uniformes, que são as frutas mais procuradas pelo consumidor. A obtenção dessas características depende do capricho do agricultor, que precisa observar o desenvolvimento da parreira e tratar os cachos individualmente, tirando as frutas miúdas durante o desbaste.
A adubação deve ser feita anualmente e a cada dois anos. É recomendável fazer a análise do solo, para identificar as deficiências de nutrientes. Após a reposição das substâncias, o aproveitamento da terra se potencializa, aumentando também a produtividade.
A incidência do sol é importante para produzir frutas doces. Por isso, os produtores recomendam manter 22 a 24 quilos de uva por pé. De acordo com Marson, os cachos menos uniformes precisam ser retirados para proporcionar o desenvolvimento dos melhores. ‘‘A carga excessiva ocasiona perda de qualidade da fruta e diminui o volume da colheita nas safras seguintes’’, comentou.
O granizo, os pássaros e morcegos que destróem as uvas são os grandes inimigos das parreiras. Para evitá-los, o sombrite (cobertura de tela) é a melhor opção. ‘‘O investimento compensa pela diminuição das perdas e aumento da qualidade’’, afirmou o produtor Wanderley Aparecido da Silva.
A chuva em excesso também é nociva às frutas, que apodrecem ao entrarem em contato com a umidade excessiva. O caçá (espécie de pequeno guarda-chuva plástico colocado nos cachos) é uma solução simples e eficiente para amenizar o problema, de acordo com o agricultor.
Garantia de preço Os produtores de Três Águas que aderiram ao processo de ganho de qualidade das uvas vendem sua produção a compradores de todo o Brasil que pagam à vista. Dessa forma, livram-se das vendas por consignação, que remuneram pouco e acabam inviabilizando a permanência dos pequenos na atividade. Por outro lado, os agricultores que não evoluíram estão abandonando a cultura. ‘‘Quem ainda vende por consignação está parando de produzir’’, avaliou José Pedro.
Durante a atual safrinha, o quilo da uva está sendo vendido pelo preço médio de R$ 1,10, que é considerado bom pelo grupo. Segundo Marson, o valor é garantido pelos compradores que conhecem a qualidade das frutas de Três Águas e pagam à vista, em transações intermediadas pela associação, que também orienta sobre os preços propostos pelos atacadistas, dininuindo os maus negócios. ‘‘Quem tem frutas de qualidade pode comercializá-las através da entidade, que inclusive possui dois funcionários para realizar esse serviço’’, afirmou José Pedro.
Apesar da menor oferta do produto durante a colheita da uva temporã, o preço costuma ser melhor no final do ano, quando é possível vender o quilo até por R$ 1,50. ‘‘Em dezembro o preço sobe por causa do Natal e do Ano Novo’’, lembrou o presidente da Associação.
Ele afirmou que um alqueire de uva bem cuidado gera a mesma renda que 25 alqueires de soja, constituindo boa alternativa para pequenas propriedades. ‘‘Além disso, gera muitos empregos, pois cada hectare de uva precisa de três pessoas trabalhando durante o ano inteiro’’, analisou.
Na propriedade de Wanderley, três famílias sobrevivem dos 2,5 alqueires cultivados com uva. ‘‘Os porcenteiros conseguem uma renda mensal de R$ 500’’, garante.

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