Produtor utiliza garrafas pet em projeto simples, barato e criativo
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sábado, 27 de janeiro de 2007
Marta Ortega<br>Reportagem Local 
Driblar as crises da agricultura faz parte da rotina dos produtores rurais. Se o governo deixa a desejar, de um lado, e o clima sacrifica a produção, de outro, o jeito é usar a criatividade para fazer ''sobrar''. E são as pequenas coisas, que surgem em função da grande criatividade desses homens do campo, que fazem a diferença no dia-a-dia em áreas rurais. Idéias que surgem da observação, da necessidade de preservação e do cuidado com o meio ambiente. Experiências que são testadas, adaptadas e implantadas na propriedade, mesmo de forma rústica e que, aos poucos, vão dando resultado.
Produtor de flores, Getúlio Norio Fukunaga precisa de estufas para manter a produção das 15 espécies, que cultiva numa área de 8 mil metros quadrados, na região de Tamarana (62 km ao sul de Londrina).
Toda estrutura metálica, instalada na antiga propriedade em Sertaneja (63 km ao norte de Cornélio Procópio), está sendo transferida para a nova propriedade em Tamarana. Mas o custo com a estrutura metálica é muito alto. ''Produtor precisa de economia e praticidade. Utiliza tudo o que está à mão.'', afirma Norio, escolhendo o bambu e a madeira para fazer a sustentação da estrutura das estufas, no lugar da estrutura metálica.
O problema é que ele esbarrou numa questão: ''Como manter a madeira que vai ficar enterrada, sem apodrecer?''. Experiências com madeira sem tratamento indicam que a vida útil é de apenas um ano, devido à umidade do solo e o ataque de fungos. No caso das empresas que fazem o tratamento, a garantia de vida útil da madeira é de apenas 10 anos. ''Precisava de alguma coisa mais barata e que durasse mais''. O jeito foi colocar a cabeça para funcionar.
Foi aí que entrou a criatividade. Recordando brincadeiras infantis, onde o plástico em contato com a água quente se deformava, ele imaginou o mesmo processo, moldando o material na madeira que ficaria enterrada no solo. ''Se eu conseguisse 'derreter' o plástico na madeira, de uma forma que impedisse a entrada de umidade e de fungos, teria a estrutura preservada por mais tempo'', calculou.
O material utilizado são as garrafas pet, encaixados na estrutura dos mourões de cerca. O processo é simples e utiliza apenas um soldador térmico (do tipo usado para colocação de insulfilmes), que mais parece um secador de cabelo. Conforme é acionado, o vapor quente vai derretendo a garrafa e ''grudando'' o pet na madeira. Pode ser utilizado qualquer material que gere calor. ''É o processo inverso da fabricação da garrafa pet'', que também utiliza o calor para moldar a garrafa.
A capa protetora forma-se nas partes superior e inferior do mourão, locais onde a deterioração acontece mais rapidamente. ''De certa forma a garrafa moldada impermeabiliza a madeira. A água da chuva escorre e no solo, a estrutura fica protegida'', confirma Fukunaga.
Testes com água dentro de um pedaço de bambu, que tem a abertura recoberta com a garrafa pet, não deixam que o líquido derrame. Vários experimentos testados na propriedade indicaram o mesmo resultado. ''Só sei que não vaza. E se não vaza, não vai umedecer a madeira'', prevê o produtor.
Os testes começaram há um ano, mas vai levar tempo para verificar os resultados. ''Estamos só começando. É pouco tempo para dizer, mas me baseio na duração do plástico. Se o material leva centenas de anos para se decompor, acredito que vai demorar muito para a madeira deteriorar''.
Na propriedade dele em Tamarana, os palanques (estruturas para cercas) já utilizam o novo método. Das 20 estufas que estão sendo instaladas na área, pelo menos dez serão construídas com madeira e bambu, utilizando o novo sistema.
A única limitação encontrada pelo produtor, é quanto ao tamanho das garrafas pet. Dependendo do diâmetro da madeira, a garrafa é pequena e não se encaixa na estrutura. ''Normalmente o diâmetro utilizado nas cercas é menor do que o das garrafas e conseguimos utilizar o material sem problemas'', explica o produtor.
Em caso de um diâmetro maior, não é possível garantir a impermeabilidade da madeira. Testes unindo uma garrafa pet à outra mostraram que é possível garantir a vedação, mas não a fusão. ''O material veda, mas não funde um pet ao outro. As partes ficam ajustadas, mas não existe fusão'', o que não assegura que a madeira não será umedecida ou atacada por fungos. ''Por enquanto, só conseguimos fazer o limite da garrafa pet, mas estamos usando equipamentos bastante simples'', informou o produtor, que ainda não buscou maior tecnologia para desenvolver seu produto.


