ArquivoNo campoA pecuária leiteira emprega cerca de 2 milhões de pessoas que também estão sendo prejudicadas‘‘A importação de leite em pó tem sido o ‘calvário’ dos produtores de leite’’. A afirmação é do presidente da Associação de Produtores de Leite do Brasil, Jorge Rubez. A entidade, antes Associação Brasileira de Produtores de Leite B (ABPLB) e hoje Leite Brasil, foi estruturada a partir de assembléia no mês de julho e mudou não só de nome mas de abrangência. A Leite Brasil, segundo Rubez, herdou toda a tradição de luta da ABPLB, agrupando produtores de leite ABC.
A Associação de Leite B tinha 7 mil produtores. No Brasil existem 400 mil produtores de leite que trabalham sob inspeção federal. Já a produção de leite sem inspeção federal soma 1,4 milhão. O leite B foi criado quando o leite era tabelado; hoje o preço é liberado. A Leite Brasil quer ampliar a atividade da associação para conseguir força e coesão política.
Produção maiorDe acordo com Rubez se não fossem as importações dos produtos lácteos de forma geral, que desestimulam a atividade, o País estaria produzindo 30 bilhões de litros/ano e até exportando o produto. As importações têm desestabilizado toda a cadeia produtiva, do empregado passando pelo vendedor de sêmen, o vendedor de ração, o veterinário, produtores, cooperativas, laticínios e vendedores de remédios, entre outros. A pecuária de leite, segundo Rubez, gera 1 milhão e 900 mil empregos. Se contar os empregos indiretos, pode-se multiplicar este número por 10.
O Brasil produz atualmente 20 bilhões de litros/ano, dos quais 11 bilhões e 400 milhões passam pelos laticínios. O restante é leite da carrocinha, sem fiscalização. O consumo de leite pasteurizado é de 2 bilhões e 800 milhões mais 2 bilhões e 300 milhões de leite fluído longa vida. A diferença vai para a produção de derivados.
Rubez, presidente da entidade, também é representante do Brasil no Mercosul, e está participando das discussões sobre a importação desnecessária de leite em pó. Esta semana o assunto foi discutido em Brasília, DF, com o Ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo, Francisco Dornelles, numa reunião na quarta-feira.
Paralelamente já foi pedida à Secretaria de Comércio Exterior a investigação de subsídio no caso das importações. No passado a alíquota compensatória era de 70% sobre o leite que vinha de fora. Foi pedido também que o Governo reduza o prazo de importação de lácteos para 30 dias, no máximo, enquanto não existir linhas de crédito no Brasil compatíveis com os juros internacionais.
Emprego no campoRubez acredita que o Governo possa intereferir e renegociar estas importações. ‘‘Com a importação o Governo acha que está beneficiando os consumidores, só que esquece que está, na outra ponta, desempregando gente da atividade, enquanto os países exportadores estão preservando o emprego no campo.’’ O dirigente calcula que a atividade leite emprega diretamente 2 milhões de pessoas.
Quem compra este leite? ‘‘Tem aí meia dúzia de pessoas se aproveitando da situação e enriquecendo. País nenhum do mundo admite subsídio dentro do seu contexto, a exemplo do que está acontecendo no Brasil. Ainda se permite que países como a Alemanha e outros da União Européia que dão prazo de pagamento de mais de 1 ano, possam estragar o mercado interno. Fazem isto porque querem preservar, no seu país, o homem do campo, exportando o excedente de produção a preços bem abaixo do que é praticado no país de origem’’, desabafa.
‘‘Seria o mesmo que o Brasil pegar 1% da sua produção e entregar paras as usinas venderem, garantindo o preço interno, exportando com dois anos de prazo, enxugando o mercado e avacalhando a produção nos países exportadores’’, explica.
Taxação menorTodo o leite em pó que entra no Brasil é via Mercosul. Um leite que vem da Alemanha, por exemplo, teria que pagar a Tarifa Externa Comercial (TEC), de 27%. Se entrar pela Argentina, porque existe diferença nas taxações devido ao acordo do Mercosul, terá que pagar apenas 16%, com uma diferença de 11%, o que incentiva os países exportadores a entrarem via Argentina, principalmente.
Países como a Alemanha têm o leite mais caro e exportam excedente. Há um acordo no País de origem para não baixar preços internos; o leite é praticamente ‘‘dado’’ para a usina, que exporta com dois anos de prazo. Com isso mantêm-se a estabilidade de mercado e a atividade no campo. Além da Alemanha, de onde vem muito queijo, países como a Bélgica, França, Nova Zelândia e Austrália, entre outros, vendem seus produtos lácteos para o Brasil.
Bom negócioEm 1995 o Brasil importou 390 mil toneladas, considerando leite em pó e outros derivados. Em 1996 foram 200 mil toneldas e, neste ano, sabe-se que houve até maio um aumento de 82% em relação ao mesmo período do ano passado, do leite longa vida; 34,9% para o leite em pó e 45% para o queijo. Este aumento, segundo Rubez, deve-se ao prazo estabelecido para pagamento desses produtos importados que, em muitos casos, chega até a dois anos. Mesmo assim, segundo o dirigente, informações não oficiais indicam que no mês de junho e de julho esses números caíram, porque houve internalização de quantidade necessária de produto importado até maio.
De acordo com Rubez o que faz uma importação ser um bom negócio, além da perspectiva de que vai faltar o produto, é conseguir preços mais baratos para beneficiar o consumidor interno e prazos longos de pagamento. No caso do Brasil, as atuais importações, defende Rubez, não provocaram nem uma coisa, nem outra.
Produção horizontalDe acordo com Rubez não há falta de leite no Brasil que indique necessidade de importações. A produção, segundo ele, tende a ficar cada vez mais horizontal, reduzindo diferenças entre safra e entressafra, porque a pecuária está se tornando mais especializada. Os produtores estão trabalhando para tratar melhor o gado, fazendo silagem, investindo em genética, e obtendo melhor produtividade.
Ele cita o exemplo de São Paulo, onde o produtor está estimulado por um programa social do Governo, chamado Campo Cidade. No programa o Governo paulista compra leite e fornece o produto para 700 mil famílias carentes. Além de beneficiar as crianças carentes, o programa está gerando ou preservando empregos no campo. ‘‘E a vitória não é só do produtor, mas do distribuidor, da cooperativa, laticínios e outros setores da cadeia produtiva. É um exemplo a ser adotado por outros Estados já que não é um programa igual aos outros que distribuem leite em pó.’’

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