‘‘Não adianta só culpar a indústria. É preciso unir interesses, para fortalecer um movimento a favor do produtor de leite que hoje tem ficado com a menor fatia na atividade’’. A afirmação é do produtor Louis Baudraz, presidente da Associação Norte-Paranaense de Produtores de Leite, com sede em Rolândia, no Norte do Estado, e integrante da Comissão de Pecuária Leiteira da Federação de Agricultura do Estado do Paraná (Faep).
Baudraz acredita que um maior comprometimento por parte dos produtores de leite em defesa da atividade, junto às indústrias e laticínios, poderia resultar num preço melhor para o produto. ‘‘Mas não é só isso’’, avalia. Segundo Baudraz, a própria associação da qual ele faz parte pode servir de exemplo da falta de união entre os produtores. Quando começou a funcionar, no final de 99, houve grande interesse dos produtores da região em participar da entidade. A união dos produtores (40 inicialmente) resultou na volta do gado leiteiro na exposição de Londrina e também em economia na compra de insumos para produção de alimentos a serem detinados aos animais. Hoje, o interesse esfriou.
‘‘Temos que fortalecer toda a cadeia produtiva do leite, defender a indústria nacional e o produtor. Não adianta só culpar a indústria, na verdade é preciso unir os interesses para se fortalecer o setor’’, reafirma Baudraz. Segundo ele, o produtor hoje desconhece o ‘‘poder’’ que tem nas mãos e está acomodado.
Venda conjuntaHoje é comum o produtor entregar o leite, receber depois de 45 ou 60 dias um valor inferior ao pago anteriormente, sem nenhuma explicação ou satisfação por parte da indústria e sem nenhuma reação. Ele próprio viveu essa experiência recentemente. Com um contrato firmado para entregar seu leite a uma indústria com preço pré-estipulado de setembro até novembro, foi chamado para renegociar depois do primeiro mês de vigência.
O produtor acredita que a venda conjunta, em maior volume, pode ser uma forma de pressão. Outra alternativa é lançar mão do poder de instituições de defesa do produtor, como sindicatos e federações, na pressão por melhores negociações.
Segundo ele, as grandes redes de supermercados também colaboram na confusão dos preços do leite, e prejuízos para o produtor. ‘‘Muitas vezes a indústria chega com o caminhão para descarregar e o supermercado oferece pagar menos que o combinado, ameaçando mandar o produto de volta’’, afirma Baudraz.
Segundo Baudraz, desde setembro do ano passado, o produtor de leite vem sofrendo com a queda de preços que agora chegou no limite. Alguns, que ainda estão empatando no custo de produção, ainda têm fôlego. Antes de setembro o preço recebido pelo litro de leite era até R$0,50/0,45. Hoje alguns produtores chegam a receber pelo leite/cota R$0,24 até R$ 0,30 a R$ 0,34 no caso de produtos de maior padrão de qualidade.
Como investir?Mesmo com a queda na remuneração, produtores se vêem diante de um impasse. Têm que investir em ordenhadeiras e resfriadores, para se adequarem às novas normas de qualidade, o que acarreta elevação dos custos de produção. Em contrapartida, entregam o leite sem saber quanto irão receber e não podem fazer um planejamento da atividade. ‘‘As indústrias se sentam à mesa para discutir quanto vão pagar pelo nosso leite, mas nós não temos vez’’, afirma. O ideal, segundo o produtor, é que o leite só fosse entregue depois de acertado o preço.
ImportaçõesOutra dificuldade está na importação do produto, que no ano passado chegou bem na hora que os produtores, estimulados, tinham aumentado sua produção. Suspeita-se, segundo Baudraz, que multinacionais do setor fizeram a importação para provocar excesso de oferta e baixa de preços no mercado interno.
Segundo levantamento da CNA, as empresas formaram um estoque de 1 milhão de litros de leite e passaram a não comprar o produto de cooperativas, para forçar uma queda artificial nos preços. Enquanto pagavam R$0,45 o litro de leite importado (cerca de 300 milhões de litros, em setembro e outubro), as indústrias só ofereciam R$0,30 pelo leite nacional.
Para ele, a questão envolve o grande varejo, concentrado nas mãos de empresas e de algumas indústrias e laticínios que podem comprometer a renda e a permanência dos produtores de leite no mercado. ‘‘Temos que implantar um novo sistema de relacionamento entre os elos da cadeia, para que o produtor consiga mais segurança e possa planejar quanto e como vai produzir, com uma expectativa clara do preço que vai receber para seus produtos’’, afirma.
As importações, segundo dirIgentes de cooperativas, não são feitas nem pelas cooperativas nem pelas indústrias de laticínios. Na maioria das vezes essas compras são feitas por escritórios comerciais sem qualquer vinculação com as indústrias que importam e negociam direto com o varejo. Os donos desses escritórios não têm compromisso com os produtores como têm as cooperativas e por isso não estão preocupados com os baixos preços pagos ao produtor.

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