Cláudia Barberato
De Londrina
Só neste semestre cinco granjas de médio porte da região da Associação de Suinocultores do Norte do Paraná (Assuinopar) e Associação de Suinocultores de Arapongas e Região (Assuar) deixaram de funcionar. Eram plantéis de uma média de 150 a 200 matrizes que produziam cerca de três mil animais anualmente.
A situação, segundo o suinocultor de Arapongas, José Nobuo Sato, reflete as dificuldades da maioria dos produtores, não só daquela região mas de todo o Estado. ‘‘O produtor vem se descapitalizando desde 1996, quando o custo de produção chegou a ser o dobro do que se recebia pelo quilo da carne do suíno’’, avalia Sato.
Hoje o custo de produção do quilo do suíno vivo, à vista, está entre R$1,10 e R$1,15 e o produtor tem recebido a mesma quantia na hora de vender aos intermediários que farão o abate. A venda é feita com prazo de 15 dias para pagamento, quando a maioria dos seus custos são pagos à vista. O preço do milho, que representa cerca de 80% do custo de produção, saltou de R$8,50-9,00 nos últimos 30 dias para R$10,20-10,50 a saca de 60 quilos.
De acordo com Sato os produtores ficariam satisfeitos com uma margem 10% maior do que os preços atuais. ‘‘O suinocultor não espera e não quer vender por um preço fora da realidade, até porque se subir muito, o consumidor procura alternativa. É preciso apenas estabilidade para poder trabalhar’’, explica Sato.
Redução de plantelSato faz parte de um grupo de suinocultores que, para não sair do negócio, teve que reduzir o plantel. A expectativa, segundo ele, é recuperar ‘‘um pouco’’ com o aumento de consumo da carne suína que é aquecido no final do ano. O consumo, de acordo com Sato, se intensifica a partir de novembro e tem o auge em dezembro.
‘‘Em relação à carne bovina o preço do suíno sempre acompanhou a cotação da vaca e hoje está 30% abaixo’’, afirma o produtor. A alta no preço da carne bovina também poderá trazer um aquecimento para a suinocultura, na previsão de Sato. Para fugir dos novos preços da carne de boi, o consumidor pode optar por consumir o porco, que sai mais barato.
DescapitalizadoSato tinha um plantel de 150 fêmeas e uma produção anual de três mil animais. Agora com 80 matrizes, uma redução de mais de 50%, calcula produção anual de 1.200 a 1.300 animais. De acordo com o produtor, a crise no setor é um desdobramento do que aconteceu em 1996.
‘‘O produtor foi descapitalizando-se até fechar ou reduzir o plantel. Em 1996, por exemplo, tínhamos o custo de R$0,90 para produzir um quilo de suíno e recebíamos R$0,42-0,45 por este mesmo quilo de carne’’, lembra o suinocultor.
Hoje o custo de produção e o preço recebido deixam o produtor sem margem de lucratividade. ‘‘O varejo paga por uma carcaça, por exemplo, R$1,85-1,90, e vende a costelinha ou a bisteca do suíno por R$4,50 a R$5,00, numa margem alta de lucratividade. Seria preciso baixar as margens no varejo e atacado, para aquecer o consumo. Com isso todo mundo ganharia um pouco mais’’, argumenta Sato.
DificuldadesSato prevê que a situação deverá se complicar ainda mais para o suinocultor paranaense, caso as margens de lucro do atacado e, principalmente do varejo, não sejam alteradas. É que, enquanto se reduz o plantel em algumas regiões do Paraná, em Estados como Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, cresce o número de novas granjas. ‘‘Aqui fecha-se uma granja de 200 fêmeas e lá se abre uma de 500 matrizes’’, alerta o suinocultor paranaense.
Segundo o produtor de Arapongas, outro agravante para o setor foi a desvalorização do Real no início deste ano, que resultou na alta de 25% a 30% no preço dos insumos e medicamentos, a maioria dolarizados na matéria-prima.
‘‘Parte do custo de produção é dolarizada. Os medicamentos têm matéria-prima cotada em dólar; o farelo de soja, que compõem a dieta dos suínos, também tem cotação em dólar e o preço do milho tende a subir’’, afirma Sato.
Menos milhoOutro problema, segundo o produtor, é o atraso no plantio da safra convencional do milho, base do cardápio que é fornecido aos animais. Nesta época o normal seria ter uma área de até 40% de plantio.
Seca e chuva insuficiente têm atrasado o plantio e o preço do milho começa a subir. ‘‘Há também o problema de falta de estoque. O Brasil tem apenas entre quatro a cinco milhões de toneladas do milho, insuficientes para atender o consumo’’, diz.
Este ano, com a previsão de pouca chuva na primavera, a tendência é que se cultive menos milho. ‘‘Os agricultores deverão preferir, depois da primeira boa chuva para plantar, começar com a soja e deixar o milho para a safrinha’’, prevê Sato. Ele próprio, que cultiva pequena área de milho para consumo da granja, ainda não plantou. ‘‘Além da pouca chuva, há muito vento que seca a terra e atrapalha o plantio’’, explica.
CampanhaNo ano passado a Associação Brasileira de Suinocultores (ABS) realizou uma campanha de marketing para incentivar e aumentar o consumo da carne de porco. A campanha foi feita numa grande rede de supermercados do País, com a redução nos preços da carne de suínos, fiscalizada de perto por todos os produtores associados da entidade.
Sato lembra que no caso do Norte do Paraná a campanha deu tão certo que outros supermercados até baixaram seus preços. É importante que todo o produtor, lembra Sato, faça o recolhimento de R$0,10 por cabeça abatida. Esse dinheiro vai para o fundo de marketing da Associação e será gasto com propagandas e outros serviços de divulgação sobre as qualidades da carne de porco.
‘‘O objetivo é mudar a imagem e abordar questões como a do colesterol ligado ao consumo da carne de porco. Estudos comprovam que determinados cortes até do frango, por exemplo, têm mais colesterol. Não é falar mal do frango ou brigar com o produtor, mas defender a qualidade da carne suína. É importante que o consumidor saiba o que cada carne tem de bom’’, garante o produtor.
Aumento de consumoSanta Catarina, primeiro produtor no Brasil; Rio Grande do Sul e Paraná, são auto-suficientes na produção de suínos e exportadores para outros Estados. O consumo per capita no País é de 9 a 10kg/ano. Um aumento de 10% no consumo, de acordo com Sato, já aliviaria a crise no setor.
De acordo com dados da ABS, o consumo per capita/ano da carne suína no Brasil ainda é muito baixo em relação a outros países. A média mundial é de 40 kg-per capita-ano. Na Holanda, por exemplo, o consumo é de 60 a 70 kg-per capita-ano.
Informações da ABS indicam que um aumento de consumo entre um a dois quilos de carne-percapita-ano já seria significativo para o setor e representaria um volume de demanda bem maior do que as exportações, além de uma saída para a falência de muitos produtores que hoje estão sem margem de lucro para trabalharem e se manterem na atividade.Granjas foram fechadas e outras tiveram que reduzir plantéis por causa da baixa remuneração da atividade
A redução de animais nas granjas foi uma alternativa para produtores não largarem a atividadeSato reduziu mais da metade do seu plantel para permanecer na suinoculturaSuinocultor tem custo de produção à vista, mas recebe com prazo de 15 dias pelos animais abatidos

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