Jota Oliveira
A opinião é do vice-presidente da Milênia Agrociências S.A., José Antônio Fontes, ampliando as discussões a respeito das sementes transgênicas que já estão começando a ser submetidas a testes no Brasil. Ele considera inquestionável a evolução da genética (‘‘Nós vemos apenas a ponta do iceberg. Vamos ter possibilidade de melhor qualidade em todos os setores da vida’’), mas ressalva que qualquer tecnologia tem que deixar alternativas, nunca aprisionar o lavrador.
Fontes lembra que já existem alternativas, e que por isso culturas resistentes a herbicidas não devem ser o único caminho para o produtor. ‘‘A soja resistente a herbicidas não traz melhoria de qualidade para o consumidor, e não está claro se reduz o custo para o agricultor’’, analisa o industrial.
Custo e economia‘‘Quando a soja transgênica chegar’’, calcula Fontes, seu custo será semelhante ao da soja natural, porque as entidades de pesquisa desenvolveram muitas variedades, alternativas, e a própria Milênia pesquisa a redução de custo de produtos. ‘‘Estamos desenvolvendo produtos para dar o mesmo custo ao produtor’’, diz o industrial. Ele não vê motivo para ‘‘mudar a agricultura’’, se existe a opção do controle químico a custo semelhante, ‘‘em vez da soja estar sob controle de alguém, de ser agravada por royaltties e do agricultor ficar submetido ao mesmo herbicida.’’
Os defensores da soja transgênica afirmam que ela é mais econômica. O diretor da Milênia rebate: ‘‘Se a produtividade de uma soja dessas cai 5%, a pretensa economia não tem sentido. Só o mercado é que define o que o agricultor deve plantar, e o agricultor ainda não decidiu se vai plantar soja modificada. Então, porque mudar?’’
AlternativaImportantes clientes da soja brasileira, como os consumidores europeus e japoneses, não aceitam grãos modificados geneticamente, ou farelos que se originem desses grãos.
Por isso, analisa o industrial, ‘‘a grande alternativa para o Brasil continua sendo a soja natural, porque o mercado está querendo isso. Ele lembra que o plantio de soja (e outros produtos transgênicos), já iniciado em algumas regiões, possibilita a mistura dos produtos natural e modificado. O mercado não quer soja transgênica cultivada perto da natural.
O diretor de Desenvolvimento da Milênia, Luiz Cesar Guedes, lembra que a rede de supermercados Carrefour, uma das ‘‘portas de entrada’’ na Europa, não aceita transgênicos. Fontes acrescenta que, tradicionalmente, quando aparece nova tecnologia, as empresas voltam-se para ela. ‘‘Mas, não podemos tirar a competitividade do produtor. Estamos desenvolvendo produtos para competir’’, conta. Ele lamenta que o agricultor, ‘‘pessoa mais usada’’, seja ‘‘o último que eles procuram, quando deveria ser o primeiro, porque precisa ter alternativa.’’
Herbicidas mais baratos Luiz Cesar Guedes lembra que os Estados Unidos são o maior produtor mundial de soja; o Brasil é o segundo, e a Argentina é a terceira produtora. ‘‘Os Estados Unidos e a Argentina optaram por soja transgênica, e têm um concorrente fortíssimo, que é o Brasil, perturbando o mercado’’, comenta Guedes. Ele destaca que a soja natural brasileira é, em consequência, ‘‘uma opção forte do mercado que compra.’’
Fala-se que os herbicidas representam 15% do custo de produção da semente, mas pode ser conseguida, graças à pesquisa, uma redução de até 30% no custo. A Milênia, dizem Fontes e Guedes, está capacitada a oferecer em breve essa diminuição do custo. Quanto à participação dos herbicidas no custo total de produção, com a melhoria da eficácia agronômica, ela cai para 11%, estimam.
A semente representa 9,2% do custo de produção e se sabe que nos EUA a semente resistente representa 67% do preço para o consumidor. Com produtividade de 80 kg/ha, o custo da semente sobe para 15,3%.
A soja natural, com a proposta de redução do preço do herbicida para o produtor, é igual. ‘‘E o produtor, imaginando redução de custo, a possibilidade de ganhar mais dinheiro, tem interesse em saber quanto gastou e quanto obteve de remuneração por hectare. Se a semente transgênica produz menos que a convencional, e tem o mesmo custo de produção, gerará menos sacas por hectare. Por isso, tem-se que analisar pelo lado do custo e se a semente tem a mesma produtividade.
Existem de 12 a 18 variedades naturais, com épocas diferentes para plantar, enquanto da soja transgênica são ainda apenas 5 variedades, segundo os diretores da Milênia, indústria sediada em Londrina. Esse é um número pequeno que pode levar a situações como esta: a variedade ser de ciclo longo, e pegar veranico durante o desenvolvimento; ser de ciclo curto e sofrer perdas por excesso de chuva ou estiagem, conforme o lugar onde for plantada.
E se não produzir bem; se for variedade precoce ou tardia, não adaptada ao Sul, ao Norte ou a outras condições ambientais do País, toda uma lavoura pode ser destruída por um fenômeno climático. ‘‘A discussão envolve todo o sistema produtivo. Este é o diferencial da soja natural e a soja transgênica’’, concluem os diretores da Milênia.

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