Produtor não tem poder para determinar preço de seu produto
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de julho de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
Independente dos custos de produção ou da qualidade da safra, as oscilações do mercado são as principais determinantes do preço pago ao produtor. Após a colheita da safra, na hora de comercializar a produção e finalmente receber o pagamento pelo seu trabalho, muitas vezes o agricultor tem surpresas desagradáveis.
Isso acontece porque na atividade agrícola, o preço dos produtos é determinado por diversas fatores além da simples oferta e da demanda, explicou a engenheira agrônoma Vânia Guimarães, professora do departamento de Economia Rural e Extensão da Universidade Federal do Paraná. O produtor é tomador de preços, ou seja, não tem poder para sozinho modificar os valores praticados pelo mercado, destaca.
Oferta e DemandaDe acordo com Vânia, existem diversas variáveis que modificam a oferta e a demanda pela produção. A oferta é influenciada pelos preços dos insumos e dos produtos agrícolas que concorrem entre si na área, pela tecnologia de produção e pelo clima que pode aumentar ou diminuir o volume da safra que os agricultores esperam obter, informou.
A demanda, por sua vez, depende de variáveis como o crescimento, os hábitos e as preferências da população, a renda que determina o poder de compra do consumidor e os preços dos produtos substitutos.
A especialista acrescentou que quando um produto é comercializado no mercado externo, a situação fica mais complexa ainda, porque o preço praticado no país em questão ocasionará mudanças em todos os fatores. Além disso, a taxa de câmbio passa a ser uma nova variável. A formação do preço é um processo complexo que se define pela ação conjunta de centenas ou milhares de agentes.
Custos de produçãoOs custos de produção, nesse contexto, influenciam os valores de venda apenas indiretamente. Segundo Vânia, ao contrário do que acontece com os produtos industriais, cujo valor de venda é formado pelo custo de produção mais a margem da indústria, na agricultura o preço é dado pelo mercado e pode estar abaixo do custo de produção. Quando isso se estabelece, os produtores tendem a reduzir a área plantada, diminuindo a oferta de produto, que pode ocasionar a alta dos preços.
Para os produtos agrícolas perecíveis, a situação fica mais complicada para o produtor. Neste caso, a tendência é o produtor enfrentar maior variação de preços.
Como são itens que não podem ser armazenados, o excesso de produção reduz os preços com maior intensidade, pois o produto tem que ser consumido naquele momento e isto só vai ser possível a preços baixos. Se há escassez, o preço sobe e assim por diante.
Com relação aos produtos armazenáveis, parte do excesso de oferta é estocado, dificultando uma queda de preços mais significativa. Quando há escassez, os estoques podem complementar o abastecimento, disse.
Ela também explicou que o estabelecimento de uma política de garantia de preços por parte do governo é a única forma de garantir, no início da safra, maior remuneração ao final da colheita. Mesmo assim, pode acontecer uma frustação de safra e não haver colheita, avaliou.
Renda Agrícola Questionada sobre as reclamações recorrentes dos produtores a respeito da renda agrícola, que é baixa e poderia inviabilzar a produção de alimentos, a engenheira agrônoma afirmou não acreditar que isso venha a acontecer. Ela explicou que o maior problema na queda de renda rural é identificada na região Sul do País, caracterizada por uma estrutura fundiária formada por pequenas e médias propriedades.
Segundo Vânia, a agricultura brasileira está passando por um período de transição, motivada principalmente pela abertura do mercado brasileiro. Saímos de uma economia fechada e protegida para uma situação de competitividade, opinou.
Nesse contexto, configuraram-se novas necessidades, que causaram mudanças no sistema de produção. O Sul continua sendo um importante produtor de grãos, mas os produtos de grande escala estão migrando para o Centro-Oeste, onde os agricultores utilizam tecnologias avançadas e possuem propriedades maiores, que permitem a obtenção de lucros mais positivos, analisou.
Para a pesquisadora, o grande desafio a ser vencido pela pesquisa é identificar quais são as tendências para a agricultura do Sul do País. São várias respostas que ainda vão se configurar.


