Produtor leiteiro não tem como reduzir 10% de energia
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sexta-feira, 15 de junho de 2001
Cláudia Barberato De Londrna 
O produtor de leite, quando tem e usa energia, usa o necessário. Não tem nada de supérfulo, tudo é feito com economia, afinal o desperdício representaria aumento de custos de produção. A afirmação é do presidente da Leite Brasil, entidade que hoje representa os produtores de leite do País, Jorge Rubez. Segundo ele, pela quantidade de equipamentos que hoje são utilizados na produção do leite, a atividade é hoje uma das que mais consome energia no campo. Para a zona rural o Governo estipulou a redução de consumo de 10%, contra os 20% na zona urbana.
O Governo ao realizar os planos do racionamento e prováveis apagões, na opinião de Rubez, pensou mais nos centros urbanos, já que 80% da população do País está nas cidades. Mas esqueceu-se que os 20% da população que estão no campo produzem alimentos para alimentar quem está nas cidades e, para isso, precisam de energia.
Problema em cadeia A produção leiteira é de quase 21 bilhões de litros de leite/ano e não há como parar a produção não só do leite, mas do boi, do frango e de outros produtos. Nos últimos anos tecnologias que foram adotadas em favor da qualidade e que dependem de energia, terão que retroceder?, pergunta Rubez.
As aves, por exemplo, comem 24 horas e precisam de aquecimento; a carne de boi, desde o momento do abate até quando sai e também no varejo passa por processos onde a energia é primordial para o resfriamento do produto e garantia de qualidade. E como fazer para beneficiar o arroz, descascar o café e secar o feijão? Vamos voltar a era do pilão?, questiona.
O racionamento não é problemático, na opinião de Jorge Rubez, apenas na propriedade leiteira. Há desdobramentos em toda a cadeia produtiva, do produtor, passando pela indústria, até os pontos de venda. Em todo o processo há gastos de energia. Na verdade, devemos olhar a situação como um risco muito grande para toda a complexa cadeia do agronegócio do leite.
Quem gasta energia, continua o dirigente, não gasta porque quer. Isso representa um custo e não um investimento. Em casa o consumidor, urbano ou rural, pode privar-se de certos equipamentos e reduzir o consumo. Na produção rural, reduzir os 10% exigidos pelo Governo é complicado.
Fontes alternativas Uma das consequências, na avaliação de Rubez, poderá ser que o produtor tenha que fazer investimentos em fontes alternativas de energia como a compra de geradores para o funcionamento de ordenhadeiras, resfriadores e outras máquinas. Outra maneira é usar energia solar para aquecer a água que lava os equipamentos.
Essas alternativas são caras para o produtor. A maioria está descapitalizado. Nem todos têm condições de fazer isso. Na minha propriedade também estou na expectativa de como vai ser. Já orientei que se apague todas as luzes da sede e que os funcionários economizem nas suas casas. Mas o maior consumo está na produção. A economia, numa propriedade rural, pode ser feita na sede e na casa dos funcionários, mas isso representaria apenas 1%, o que é irrisório, acredita Rubez.
Economizar como? Fica impossível, segundo Rubez, economizar o percentual que o Governo está pedindo para a zona rural. A não ser que o produtor, por exemplo, deixe de lavar o estábulo porque para isso usa bombas de água de pressão e gasta energia. Mas isso prejudicaria a higiene na ordenha e, consequentemente, a qualidade do produto final, o leite.
Mesmo os pequenos produtores que não tem ordenhadeiras eletrônicas e tiram o leite na mão, têm necessidade de energia para o uso da picadeiras de cana e de capim e não podem deixar de tratar das vacas.
Comprometimento da qualidade Propriedades que usam resfriadores para conservar o leite até que o produto seja entregue na indústria, não têm como desligar a máquina para reduzir consumo de energia. Desligar o resfriador pode comprometer a qualidade.
Logo depois da ordenha o leite tem que ser imediatamente resfriado até chegar a temperatura de 7 graus centígrados. Se o leite não é resfriado, a partir da primeira hora da ordenha, começa o comprometimento da qualidade, já que as bactérias que estão no leite têm um poder de multiplicação em proporções geométricas.
Do leite captado pelas grandes empresas no País, 90% é na forma a granel, em caminhões tanques, informa Rubez. E esse leite fica armazenado nos resfriadores, instalados nas propriedades, esperandos os caminhões que muitas vezes passam com intervalos de dois a três dias.
Para voltar na era do latão não dá mais. O armazenamento do leite na propriedade e o transporte a granel veio para facilitar e baratear o transporte e garantir qualidade melhor ao produto, retroagir fica difícil.


