Produtor intrigado
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sexta-feira, 07 de julho de 2017
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

O Brasil está entre os três maiores exportadores de alimentos do mundo e tem cacife para chegar à liderança na próxima década, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Ao mesmo tempo, é o terceiro no ranking global em importação de trigo. O grão não goza da mesma reputação da soja e do milho entre os produtores paranaenses e nacionais, muito pelo alto risco da triticultura e pela baixa lucratividade dos últimos.
Mesmo assim, o Paraná responde por 61% da produção nacional de trigo, abriga 24% dos moinhos e oferta 23% da farinha consumida no País, segundo o Panorama Setorial da Indústria do Trigo divulgado no fim de junho pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Os dados são de 2015, mas não mudaram tanto em termos de representatividade do grão para a região. Isso porque há uma crescente resistência ao plantio não só por aqui, mas no restante do País, o que reacende a necessidade de debater a viabilização da triticultura.
Somente neste ano, a área plantada foi reduzida em 11%, de 1,099 milhão para 977 mil hectares, no Paraná. O Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab) estima ainda uma queda de 12% no volume produzido, de 3,486 milhões para 3,068 milhões de toneladas. "A produção tem de ser repensada. De um lado, temos moinhos e cooperativas que investiram em estrutura e que trabalham com capacidade ociosa. Do outro, há falta de condições para o produtor, problema que perdura há mais de 20 anos", diz o coordenador do departamento econômico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Pedro Loyola.
O principal desafio é mesmo a comercialização. A concorrência do trigo vindo da Argentina e do Paraguai, onde os custos de produção são bem menores e que fornecem o produto melhor dividido em tipos mesmo em caso de excesso de chuvas, por exemplo, é o maior problema. Mesmo o governo federal, que possui acordos bilaterais por meio do Mercosul e compra o grão sem sofrer com flutuações cambiais, naturais em outras commodities, parece não ter interesse na cultura nacional.
Tanto que o preço mínimo para o trigo foi reduzido em 3,6% para a safra 2017/18, para R$ 37,26 por saca de 60 quilos do trigo tipo 1. O valor serve como referência para políticas de subvenção em caso de recuo exagerado nas cotações de mercado, ainda que mal cubra os custos de produção, dizem os agricultores paranaenses.
Fica difícil achar motivos para plantar trigo no Estado, ainda que existam. A cultura casa bem na rotação com a soja, por garantir boa nutrição e conservação do solo e elevar a produtividade da commodity de verão. Ainda, há procura na região, que conta com 96 moinhos paranaenses, 88 gaúchos e 57 paulistas, que representam mais da metade do mercado consumidor nacional.
No entanto, a redução de área mostra que os aspectos negativos pesam mais na hora da decisão. "Se reduzir demais a área do trigo, vamos ter problema na estabilidade do mercado interno, que vai atingir todos os derivados, do pão ao macarrão", diz o gerente de pesquisa de trigo da Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola (Coodetec), Francisco de Assis Franco.


