Produtor de trigo sofre com instabilidade climática
Geada na safra atual e secas nos dois anos anteriores fazem produtores pensar duas vezes em investir ou até mesmo em permanecer na cultura
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de julho de 2019
Geada na safra atual e secas nos dois anos anteriores fazem produtores pensar duas vezes em investir ou até mesmo em permanecer na cultura
Victor Lopes - Grupo Folha 

Expectativa versus realidade. Talvez essa seja a melhor expressão para tratar da produção de trigo paranaense nas últimas safras. Os 'exercícios de futurologia' da cultura estão cada vez mais difíceis de serem realizados, afinal, dificilmente as áreas plantadas estão atendendo às projeções de volume e qualidade do cereal. O principal vilão – mais uma vez – foi o clima, desta vez a geada, que pegou a commodity nas fases mais críticas, de floração e frutificação.
O início do mês, mais especificamente dias 6 a 9 de julho, registraram geadas pelo Estado, que acabaram pegando com mais intensidade as regiões Sul, Sudoeste, Oeste, Centro-Sul, Sudeste, Campos Gerais e Região Metropolitana de Curitiba. Entretanto, quando se trata da região Norte, apesar das geadas mais fracas registradas, alguns produtores de trigo foram severamente penalizados. No Oeste, municípios de Cascavel, Toledo e Campo Mourão devem mostrar números de quebra impactantes. Os dados oficiais de quebra do Deral (Departamento de Economia Rural), da Seab (Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento), devem ser divulgados na próxima quarta, dia 24.
Por enquanto, o que sabe é que o Paraná vai passar longe da última projeção da cultura para a safra 2018/2019, que girava em torno de 3,2 milhões de toneladas numa área de um milhão de hectares. O engenheiro agrônomo do Deral, Carlos Hugo Godinho, acha difícil, inclusive, que o volume atinga os números do ano passado, quando a safra 2017/2018 fechou em 2,8 milhões de toneladas. A última atualização do Deral aponta que apenas 67% da área plantada de trigo é considerada 'boa'. 51% da cultura estão nas fases de floração e frutificação.
Godinho relembra que desde a safra 2015/16 – quando a safra atingiu 3,4 milhões de toneladas – que o trigo vem sofrendo com fatores climáticos severos. Em 2017, por exemplo, a combinação para a quebra foi seca e geada. No ano passado, atraso no plantio devido ao déficit hídrico. “Em 2018, o plantio foi atrasado no seco e depois na região Norte acabou tendo um segundo momento de seca em setembro. O trigo tem uma dificuldade por ser plantado de abril e junho e isso dificulta não acontecer perdas. Em 2016, o número foi bem positivo porque todas as regiões ficaram dentro da média.”
Com isso, tem se tornado cada vez mais comum a desistência de muitos em permanecer na cultura. A retração de área este ano ficou na casa dos 10%. Vale dizer que a maior área nos últimas dez anos foi pouco acima de 1,3 milhão de hectares e, a menor, na safra 2011/12, de 782 mil hectares. “Essas indefinições climáticas também fazem com que o produtor fique cansado de arriscar na cultura. Isso foi o motivo de retração de área neste ano.”

Na região Norte do Estado, uma mistura de sentimentos em relação à safra atual de trigo: alguns aliviados por terem escapado da geada do início do mês sem grandes prejuízos e outros bem chateados com as perdas e já projetando apostar em outras culturas de inverno no ano que vem. De fato, está difícil investir no trigo nos últimos anos. A dor de cabeça já está virando crônica para o produtor.
José Yamanaka é produtor em Mauá da Serra, área que por sua geografia se dedica ao trigo, sendo um polo produtivo da região. Todo ano Yamanaka investe bastante na cultura: na área de 150 alqueires são mil quilos de adubo por alqueire, e mais quatro aplicações de fungicida anualmente. Tudo isso para uma projeção média de colheita de 200 sacas por alqueire.
Mas nas últimas safras está difícil chegar em tal produtividade. O motivo sempre são os fatores climáticos. Neste ano, perda forte, dolorida. Na área de 50 alqueires que plantou precocemente, no dia 2 de abril, deve ainda ficar na média de 100 sacas por alqueire. Agora, no restante da propriedade, a quebra deve ser de 100%. “Visualmente, até parece que salvou um pouco. O cacho até saiu bonitinho, mas não está florando, porque a flor abortou dentro do cacho”, lamenta o produtor.
Ele relembra que a última vez que a geada pegou sua área dessa forma foi há sete anos. Entretanto, nas duas últimas temporadas também não conseguiu chegar na média projetada. Em 2018 a seca no plantio fez com que ele atingisse produtividade de 140 sacas por alqueire. Em 2017, um pouco melhor, 187 sacas por alqueire. “Os últimos anos bons de fato foram em 2015 e 2016”, relembra.
Para Yamanaka, a sensação que fica é de querer parar com a cultura, como muitos já fizeram no Estado. “A gente ganha dinheiro na soja para depois ter que cobrir as despesas do trigo, já que o Proagro (seguro agrícola) só garante a parcela do banco. Esse ano minha soja foi bem, em torno de 180 sacas por alqueire, mas o lucro vai ficar tudo aqui no trigo.”
Já o produtor de Lerroville, Carlos Alberto Barbosa Junior, escapou da geada. Na área de 10 alqueires no distrito, apostou sete deles no trigo, plantado no dia 1º de maio. “Sempre faço um pedaço da área com a cultura. Esse semana andei pela área e ela passou ilesa, não afetou em nada, está saudável”, comemorou.
Até aqui, Junior relata que fez duas aplicações de fungicida e espera uma produção razoável, como no ano passado, em torno de 100 sacas por alqueire. “Na minha opinião, o grande problema do trigo é o mercado instável. Um bom preço fica entre R$ 45 a R$ 50 a saca. Esta semana estava na casa dos R$ 46.”
O meteorologista Luiz Renato Lazinski, do Inmet/Mapa (Instituto Nacional de Meteorologia, do Ministério da Agricultura), alerta que apesar de o frio intenso ter demorado a chegar no Estado, a partir de agora as passagens de massas de ar frio devem ter uma certa regularidade. “Tivemos essa massa de ar frio extremamente forte no início de julho. Vamos ter um inverno com intensidade”, prevê.
Lazinski explica que, apesar de ter se propagado que estamos sob efeito de um El Niño, o tempo está mais condizente com um ano de neutralidade. “Em anos de El Niño, o tempo fica mais chuvoso, as massas de ar não são tão intensas. O que nós estamos observando, de fato, é um ano em uma situação que chamamos de neutralidade. Tanto é que tivemos um mês de junho praticamente sem chuva e um mês de maio extremamente chuvoso. Isso é típico de um ano neutro”, enfatiza.
Para o meteorologista, os produtores precisam se preparar para outras ondas de frio, que têm potencial inclusive para trazer geadas mais tardias do que a média. “Os modelos de previsão climática de mais longo prazo continuam com essa tendência de clima neutro pelo menos até o fim do inverno. Até o fim de setembro temos chance de ter essas massas de ar fortes chegando no Paraná e com potencial de geada. Principalmente nas áreas mais altas do Estado”, alerta. (Reportagem Local)


