Os estoques mundiais fazem com que a previsão dos preços para o próximo ano, se não acontecer nada com a safra americana, sejam os mais baixos dos últimos cinco anos, tornando inviável a sojicultura brasileira cultivada além de 400 quilômetros dos portos de exportação ou indústrias. A afirmação é do produtor Nagib Abudi, de Londrina, que cultiva soja desde 1973.
Os Estados Unidos, segundo ele, anunciaram este ano uma produção de 78 milhões de toneladas, contra 75 milhões no ano passado e 68 milhões de toneladas produzidas em 97. Depois da crise asiática, em 97, a demanda pelo produto começou a cair, enquanto a produção cresceu demais.
Não há demanda‘‘Os anos de 96 e 97 foram muito bons para a soja; 98 foi um ano médio e 99 também se mostra como um ano de preços médios para a soja.’’ O ano 2000, no entanto, se prenuncia, segundo o produtor, como ‘‘muito ruim’’ para a cultura. Isto porque há um grande estoque mundial do produto, devido ao aumento de produção, mas houve queda na demanda.
De dois anos para cá as produções americanas e latino-americanas têm batido recordes de números. Não há demanda para esse aumento de produção. A América Latina, como um todo, aumentou sua produção de 40 milhões de toneladas para 55 milhões de toneladas nos último três anos.
‘‘Os produtores que não tiverem estrutura de transporte eficiente, capaz de reduzir custos, ficarão inviabilizados’’, garante Abudi. Hoje, a soja cultivada no Mato Grosso, em comparação ao produto do Paraná, por exemplo, tem um custo de produção bastante elevado. Além de aumento nos insumos, plantar soja em Goiás ou Mato Grosso do Sul, por exemplo, também fica mais caro do que plantar em Londrina, Cambé, ou Ponta Grossa.
Plantar mais pertoO preço da soja colocada do navio, que foi cultivada em Ponta Grossa, por exemplo, terá o mesmo valor do que a cotação da soja cultivada no Mato Grosso. Acontece que a essa soja plantada no Mato Grosso, além de todos os custos de produção, ainda se somam US$2 de frete, para chegar até o porto.
Uma saída seria reavaliar as áreas de cultivo, ou seja, plantar mais perto dos portos; porém, o mais importante é fazer contas, para saber se compensa o plantio da soja em relação aos preços de mercado e custos de produção. ‘‘Se não fizer as contas, o produtor será capaz de plantar já perdendo.’’
Só milhoO próprio Nabig Abudi, que mantém anualmente 210 hectares de soja, com produção média dos últimos cinco anos de 50 a 54 sacas por hectare, este ano não fez o plantio. Durante anos o produtor dividia a área total de plantio de verão entre soja e milho. Depois passou a seguir as tendências de mercado, para repartir as culturas pela área. Este ano não plantou soja, somente o milho.
‘‘Embora as estruturas de transportes estejam se modernizando no Mato Grosso, o produtor tem que fazer as contas e reavaliar o cultivo da soja’’, alerta o produtor. ‘‘Este ano o sojicultor foi salvo pela correção do câmbio. No ano que vem não teremos preços de Chicago, que apontam com 4 dólares o bushel. Se não houver redução de custos de transporte e colocação na indústria ou portos, além da manutenção da produtividade, o sojicultor terá um desastre anunciado.
Hoje, segundo Abudi, vende-se a soja no Mato Grosso a US$6,50/7 a saca e no Paraná a US$8. Com a previsão de preços menores no ano que vem e como tudo que se usa no cultivo é importado, a tendência é ter um custo maior de produção.
‘‘As empresas que trabalham com os insumos da soja, além de corrigirem o câmbio, tiveram que recompor suas margens de lucro. O excesso de produção, aliado à queda na demanda ou manutenção, fará com que os preços caiam ainda mais.’’
Pressão da classeUma alternativa, segundo Abudi, é a organização dos produtores junto a suas associações ou entidades como a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) ou Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), para questionarem o aumento de preços dos insumos agrícolas e tentarem reduzir esses índices como forma de diminuir custos de produção.
Outra alternativa, ‘‘se muito necessário’’, é usar menos insumos e procurar comercializar melhor a sua safra. ‘‘Contra os preços de Chigaco nada pode ser feito. Contra a cadeia internacional do produto não há muita defesa. Os preços são formados por milhares de transações diárias.’’
Preço baixoO sojicultor Henning Baer, de Campo Mourão, é outro que não se conforma com o mercado da soja. Baer cultiva a soja há mais de 20 anos, numa área atual de 5 mil hectares. A produtividade média tem sido de 45 sacos por hectare. Segundo ele, hoje o produtor enfrenta dois extremos: de um lado boas produtividades, através de melhoramento de sementes e cultivos e, de outro, o preço do quilo da soja, o mais baixo dos últimos 20 anos.
‘‘Os grandes compradores do grão sempre foram os países da Ásia, África, Rússia, entre outros, que hoje não têm dinheiro para comprar. Além disso, hoje a agricultura é uma das atividades mais taxadas, não só na importação, mas na compra de insumos e pagamento de impostos’’, diz Baer.
O produtor reclama também dos juros cobrados na agricultura e do crédito de 8% ao ano, ‘‘que é limitado e não está lá quando o produtor vai procurar.’’ Além de produtor, Baer é presidente da Cooperativa Mista Agropecuária do Brasil (Coopermibra), instalada em Campo Mourão e que soma 700 produtores de soja. ‘‘Na falta do crédito, o produtor é obrigado a entrar no juro do dólar.’’
É lucrativa‘‘O problema é conjuntural, que envolve, além de outros fatores, na minha região, uma frustração da última safra de inverno. A soja, isoladamente, ainda é lucrativa, apesar da cotação atual ser a menor dos últimos 20 anos’’, afirma Fábio Schimidt, de Ponta Grossa.
Schimidt mantém um plantio de 1000 hectares de soja. O cultivo foi iniciado por seu pai, João Conrado, há mais 30 anos. A produtividade média este ano ficou em 48 sacos/ha, mas foi superior a isso em outros anos.
A redução, explica Schimidt, aconteceu em função de um período de seca em novembro do ano passado, que também atrasou em 50% o plantio da área e prejudicou plantas que já haviam sido plantadas. Ele explica também que a frustração da safra de inverno, naquela região, transferiu para a soja as despesas da cultura do inverno. ‘‘Além disso, o produtor encontrou preços mais baixos.’’
‘‘Saída é vender aqui’’A saída, na opinião de Schimidt, pode estar na negociação da soja no mercado interno. ‘‘Com a venda escalonada da produção, o produtor pode escapar dos picos de baixa e esperar uma possível reação de mercado, sobretudo do mercado interno; se bem que as perspectivas não são boas em função do mercado internacional’’.
O mercado interno, de acordo com Schimidt, exportou muito no início da safra, imaginando uma produção normal. ‘‘Como a produtividade caiu e houve uma certa redução, as empresas que trabalham com a soja, para garantir seu funcionamento normal, terão que comprar. Isto deverá ser determinante no preço interno da soja, mais do que o mercado internacional. Não uma cotação muito elevada, mas uma pequena reação a mais do que está sendo praticado hoje.’’

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