Produto se sobressai sobre serviços e processos
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sexta-feira, 03 de junho de 2016
Victor Lopes<br>Reportagem Local 
Na balança, um desequilíbrio que fica nítido: as culturas transgênicas não estão resultando numa sustentabilidade agrícola ideal. A afirmação é do pesquisador da Embrapa Trigo em Passo Fundo (RS) José Eloir Denardin. Para ele, a tecnologia chega ao produtor de forma eficiente, mas ele não consegue resultados em efeitos sustentáveis, pois os processos que estão em torno não o satisfazem.
Denardin explica que a sustentabilidade não está no produto ou tecnologia, mas parte desde o laboratório até os resultados em campo. "O erro não está no glifosato, por exemplo, mas sim em seu manejo. Ou seja, o agricultor não utiliza a tecnologia de forma adequada, o que gera a seleção de plantas tolerantes e resistentes", salienta.
Num sistema agrícola produtivo, segundo o pesquisador, há entradas produtos, serviços e processos e saídas, com o resultado final na lavoura. O que Denardin bate na tecla é que as tecnologias de produto se sobressaem sobre as tecnologias de serviço e de processo. "A tecnologia de serviço, que seria uma assistência técnica, se tornou basicamente a venda do produto. O agricultor, então, não usa a tecnologia como deveria, deixando o sistema desbalanceado."
Ele compara o que acontece hoje na safra com uma receita de bolo única, distribuída para cinco pessoas. No final, segundo ele, acabam surgindo cinco bolos completamente diferentes um do outro. "O que muda não é a receita e sim o manejo dela, cada um fazendo de uma forma. O agricultor é induzido a fazer dessa forma, como uma propaganda que faz tomarmos decisões que não deveríamos. No Brasil, cada vez mais o produto compete com o serviço e o processo."
O reflexo dessa interferência violenta das empresas é a degradação dos solos e estagnação da produtividade. Segundo dados do pesquisador, a produtividade da soja não evolui na região Sul desde 2001, antes mesmo dos transgênicos ingressarem no mercado. "O fato é que as entidades de extensão e pesquisa não conseguem chegar ao produtor porque não detêm a tecnologia de sementes e insumos que as empresas detém. Essa inovação constante dos produtos é mais rápida que um treinamento para resolver o problema de erosão em função da compactação do solo, por exemplo."
Por fim, Denardin decreta que tecnologia é uma questão de informação e manejo, de formação. Muitos produtores da nova geração, entretanto, são sucessores na agricultura, e não foram formados para a atividade. "Qual o percentual dos cursos de agricultura do Brasil que ainda lecionam manejo e conservação de solo? Não existe mais essas disciplinas na grade curricular dos alunos. Com essa desinformação, o agricultor é induzido, dependendo do poder de persuasão de quem está vendendo."


