Mário CesarBaccari afirma que acima dos 26ºC animais podem entrar em queda de produçãoO professor titular em Bioclimatologia Animal, Flávio Baccari Jr., está em Londrina para trabalhar no projeto ‘‘Desenvolvimento de um Novo Índice de Conforto Térmico para Vacas Holandesas em Lactação’’. Baccari também é pesquisador-visitante do CNPq junto à Universidade de Londrina, pós-doutorado pela Universidade do Missouri (EUA) e professor visitante da Universidade da Flórida (EUA).
O projeto, de acordo com Baccari, será desenvolvido em propriedades de criação de gado leiteiro na região de Londrina. Enquanto isso, na Flórida (EUA), onde já se estuda o assunto, outro veterinário, Henry Herbert Head, estará trabalhando em projeto semelhante para o intercâmbio de informações, ‘‘consideradas as diferenças climáticas’’, ressalta Baccari.
Na sombraUm dos erros mais graves de manejo com vacas leiteiras, lembra Baccari, é não dar sombra aos animais. A energia que eles teriam para produzir leite é desviada da produção. Resultado: muitos não chegam a produzir o que trazem no seu potencial genético. Por isso, a escolha das propriedades para desenvolvimento do trabalho de Baccari partirá da idéia de que o criador forneça pastos ou piquetes com sombra, para que os animais se protejam nas horas mais quentes do dia.
A sombra, de maneira geral, reduz de 30% a 50% a carga de calor sobre os animais. Isso vai depender da sombra que se ofereça. Seja pelo sombreamento natural ou artificial, é preciso que as vacas disponham também sempre de água e alimento sob a sombra.
Altas temperaturas quando associadas a altas umidades do ar, principalmente, assim como a radição solar, têm sido combinadas com baixas performances do gado leiteiro. Considerados estressantes afetam também a eficiência reprodutiva dos animais.
Arquivo FRErroFornecer sombra aos animais, nas horas mais quentes do dia, seria um primeiro passo para o conforto
PrejuízosO veterinário explica que todas as espécies domésticas de produção precisam de sombra no calor. O estresse pelo calor, além de queda na produção, pode provocar redução de 40% na fertilidade das vacas, causando altos prejuízos ao criador.
Ao final do projeto, segundo Baccari, deverão sair conclusões de técnicas de manejo que poderiam amenizar o desconforto dos animais. Técnicas como aspersão de água e uso de ventiladores para ajudar na evaporação da água, já utilizada nos Estados Unidos, poderão ser adaptadas para a realidade brasileira.
EstressePara desenvolver o projeto, Baccari usará os conhecimentos da bioclimatologia (ramo da climatologia e da ecologia que trata dos efeitos do ambiente físico sobre os organismos vivos). Segundo ele, a bioclimatologia se ocupa dos efeitos do estresse ambiente que limitam a produção animal e da aplicação de técnicas de manejo ambiental para aliviar o estresse dos animais e melhorar sua produção.
‘‘O estresse caracteriza a soma dos mecanismos de defesa do animal e respostas a agentes agressores ou estressores’’, explica. Considerando um país tropical como o Brasil, estes agentes estressores apareceriam a partir de alterações na temperatura, umidade do ar, radiação solar e zona de conforto térmico.
Boas condiçõesPara poderem expressar seu máximo potencial genético de produção, os animais devem viver em condições meteorológicas que idealmente devem situar-se dentro da chamada zona de termoneutralidade ou de conforto térmico. Por exemplo: em termos de temperatura do ar, a zona de conforto térmico de vacas holandesas em lactação vai de 4ºC a 26ºC. Abaixo dos 4ºC entrariam em estresse pelo frio e acima dos 26ºC sofreriam do estresse pelo calor.
No Brasil a principal preocupação, sendo país tropical, é estudar o efeito do estresse causado pelo calor. Em termos de temperatura e umidade do ar combinadas, a produção de leite começa a declinar a partir do índice 72 (índice de temperatura e umidade). A proposta do projeto é conhecer um novo índice.
O índice 72 é resultado da combinação de temperatura e umidade limites suportadas pelos animais. É uma unidade determinada pelo Bureau de Meteorologia dos Estados Unidos e usada pela maioria dos climatologistas do mundo. Baccari explica que 72 é um dos valores críticos; acima disso os animais entram em declínio de produção.
Pelo número de horas em que a temperatura e o índice de umidade estiverem acima dos valores críticos vai-se saber a influência na produção diária das vacas. Sabe-se que acima de 26ºC cai a produção de leite.
ManejoO projeto permitirá saber qual é o número de horas por dia que poderia provocar o estresse e que práticas de manejo usar para amenizar estes efeitos. Um exemplo seria a aspersão de água e a ventilação forçada (artificial). Na Flórida (EUA), por exemplo, assim que a temperatura passa dos 27ºC um termostato aciona os aspersores de água e, cinco minutos depois, liga ventiladores automaticamente. A água resfria e serve para baixar a temperatura do corpo dos animais nas horas mais quente e os ventiladores ajudam na evaporação.
O aumento da temperatura do corpo acima do limite superior normal está associado à diminuição do apetite, menor consumo de alimento e, consequentemente, redução da produção de leite:‘‘Aumentando a temperatura há uma inibição do apetite no hipotálamo, e o animal passa a comer menos’’.
O uso do sombreamento, afirma Baccari, possibilita aumento em até 20% a 25% da produção; a utilização de aspersão e ventilação forçada podem aumentar mais 10% o índice de produção. A viabilidade de usar este manejo, que depende de investimentos, vai depender da relação de custo-benefício que o produtor tem na sua propriedade.
Baccari pretende fazer um levantamento dos dados climáticos da região nos últimos 20-30 anos, para calcular o índice de temperatura e umidade média mensal ou diária, se possível. O próximo passo será determinar o índice de conforto térmico e técnicas de manejo ambiental. ‘‘A aspersão com água fria, 20ºC, poderá ser uma alternativa’’, afirma.
Bom resultadoUma experiência na UNESP de Botucatu (SP), segundo Baccari, demonstrou a eficiência da aspersão. Suínos sob estresse pelo calor, não intenso, em câmara térmica, depois da aspersão com água ganharam 350 gramas/dia de peso a mais que os que não participaram da experiência. A técnica funcionou em ambiente quente e úmido. Mas o veterinário alerta que a aspersão não funcionaria em locais como a Amazônia, por exemplo, onde a umidade relativa do ar chega a 80%.
MestradoDe acordo com o chefe interino do Departamento de Clínicas Veterinárias da Universidade, Wilmar Sachetin Marçal, colaborador do projeto, o trabalho deverá durar três anos. Além do projeto, Baccari deverá apoiar o departamento na implantação do Mestrado em Ciência Animal. ‘‘A bioclimatologia animal ainda não é ofertada aos alunos da veterinária, mas a intenção é incentivar que mais profissionais atuem nesta área’’, afirma Marçal.

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