Produção por área pode aumentar
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Cláudia Barberato 
A receita não é nova: produzir mais por área, caprichar no manejo alimentar e sanitário e adotar o pastejo noturno. A novidade, segundo o nutricionista do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), da Estação Experimental de Ibiporã ( 14 quilômetros a oeste de Londrina), Humberto Codagnone, está na produção conseguida a partir desse manejo simples e organizado: 184 mil litros de leite em 10 hectares, com um rebanho de 48 fêmeas em lactação, que num cálculo simplista daria 18.400 quilos (kg) de leite, por hectare (ha), no ano. No Brasil, a média é de mil a 1.500 kg/leite/ha/ano.
Aumento de produção por área. Este é um dos ítens mais importantes dentro do projeto, afirma o nutricionista. O Sistema Ibiporã Intensivo de Produção de Leite no Norte do Paraná está sendo desenvolvido desde 1994, com uso de gado mestiço, com grau de sangue aproximado ao do gado holandês.
Dorico da SilvaTrabalho proporcionou aumento na produção leiteira por áreaAlimentação diferenciada Basicamente o projeto tem duas fases que acontecem, no verão e inverno. São essas estações que definem o manejo alimentar e sanitário dos animais. No verão é fornecido pasto de qualidade aos animais e ração concentrada no cocho.
No inverno, os animais recebem uma mistura concentrada com 18% de proteína, de acordo com a produção de leite, além de sal mineral à vontade. A rotação de pastejo com cerca elétrica também garante uma pastagem melhor aos animais numa época em que a produção de matéria verde não é tão boa, ficando nos 20%.
Sem sofisticaçãoSegundo Codagnone, o objetivo é mostrar a viabilidade da produção de leite, a partir de técnicas simples e que não demandam muitos investimentos. O produtor não precisa, por exemplo, ter instalações sofisticadas, mas funcionais, para ganhar dinheiro produzindo leite.
Basicamente o que ele sugere é um bom gerenciamento (alimentar e sanitário) do rebanho. Para isso também não será necessário um computador. Ele pode anotar tudo em fichas ou em cadernos, mas terá que ter um controle. Há necessidade também do manejo dos pastos. Com isso poderá obter resultados excelentes.
O gerenciamento da criação ajudará na identificação dos pontos de estrangulamento da atividade, que estejam encarecendo a produção. Um erro, por exemplo, poderá estar na alimentação inadequada dos animais, interferindo na reprodução e outros índices zootécnicos. A questão de fornecer a mesma quantidade de concentrado para todos os animais, independente da produção leiteira, é um erro.
O produtor terá que controlar a produção de cada fêmea em lactação e fornecer o concentrado de acordo com essa produção. Além disso terá que ter pastos bons, no verão (época em que os pastos produzem 80% de massa verde) e manejados no inverno (quando cai, além de qualidade, a quantidade de capins)
Como funcionaNo verão os animais ficam no estábulo, de ordenha a ordenha (são realizadas duas por dia) e depois vão para os pastos de capim elefante, tifton 85 e panicum k 249 (um primo do colonião, desenvolvido pelo Iapar). Ali ficam no pastejo noturno até a ordenha do outro dia. O mesmo manejo de pastejo noturno é adotado no inverno. O que diferencia o manejo total do gado é a alimentação.
O pastejo noturno tem objetivo, principalmente no verão, de deixar os animais estabulados durante as horas mais quentes do dia, livres do estresse pelo calor ou de ficarem expostos ao sol atrás de alimento. Quem não tem estábulos na propriedade pode fornecer sombreamento ao gado, por galpões ou árvores no próprio pasto, próximas da instalação da ordenha, até para facilitar o trabalho de reunir o rebanho.
Nos meses de janeiro e fevereiro, por exemplo, se chega a ter 40 graus centígrados na nossa região e o gado leiteiro tem uma zona de conforto térmico entre 5 e 15 graus centígrados.
Suplemento no invernoNo inverno, de abril até o final de setembro, os animais ficam também estabulados durante o dia e recebem uma dieta de 1 quilo (kg) de mistura concentrada, com 18% de proteína, para cada três quilos de leite produzido. Também recebem sal mineral para suprir a baixa qualidade dos pastos.
Durante os meses de inverno também vão para o pastejo noturno, onde os pastos são manejados com rotação e cerca elétrica. Lá encontram sal mineral à vontade. É uma maneira de compensar não só a falta de quantidade, mas de qualidade dos capins.
Em todo o manejo, as vacas estão divididas em lotes de acordo com a produção leiteira. O alimento concentrado é fornecido de acordo com essa produção. É um manejo elementar, segundo Codagnone, mas que a maioria dos produtores ainda não adotou.
Três cortesNa Estação do Iapar os animais são alimentados com silagem de sorgo, cerca de 20 a 25% da alimentação, mais a mistura concentrada na proporção de 1 para 3. Ou seja, para cada três quilos de produção de leite, um quilo de mistura concentrada. No verão, se o pasto estiver bom, a relação poderá ser de 1 para 4.
Embora a silagem de sorgo seja que qualidade inferior em termos de proteína, em relação à silagem de milho, em contrapartida, para o tipo de gado que está sendo usado no projeto (mestiço) produz mais biomassa do que a silagem de milho.
Enquanto a produção de matéria verde da silagem de milho é de 40 toneladas (t) por hectare, a de sorgo, garante Codagnone, alcança 60 t/ha. Ainda com o sorgo é possível conseguir três cortes, sendo que no segundo há 40% da produção do primeiro. O segundo corte dá uma produção de 24 t/matéria verde/ha. Se plantado no cedo, em outubro, com temperatura do solo adequada, pode-se obter o terceiro corte que seria usado numa emergência, cortado e servido no cocho.
Pastos adubadosO esquema utilizado na Estação do Iapar de Ibiporã para os pastos engloba a rotação e cerca elétrica. As áreas são adubadas de acordo com análise de solo. Toda vez que o gado é retirado de um piquete, é feita a adubação com nitrogênio na área. O normal tem sido aplicar 200 kg de nitrogênio por ha/ano. De acordo com análise de solo, feita em agosto ou setembro, é feita a adubação fosfatada.
Aumentar a capacidade de suporte no pasto, melhorando manejo de forrageiras, e manter essa capacidade o ano todo é um dos objetivos do trabalho. O trabalho já proporcinou um aumento na capacidade de suporte de pastagem de uma média de 5 cabeças por ha, no ano todo. A média brasileira, segundo Codagnone, não chega a 2 cabeças por ha.
No verão, por exemplo, é possível manter 12/15 cabeças por ha, já que é a estação de pleno crescimento dos capins e outras gramíneas. Mas e no inverno? Segundo Codagnone o produtor deve procurar manter um equilíbrio de suporte de animais no pasto o ano todo e para isso terá que cuidar desses pastos.
Vitrine para produtoresO objetivo do trabalho em Ibiporã, garante Codagnone, é gerar e difundir tecnologias para sistema de produção de leite nas áreas de clima quente do Norte do Paraná, que poderão ser extrapoladas para o Oeste e Norte Pioneiro do Estado. A idéia, segundo ele, é transformar a Estação em uma vitrine, disponível para visita de produtores e encontros técnicos sobre o assunto.
Segundo Codagnone o projeto não tem ainda data para acabar. Mas ele ficaria satisfeito com 10 anos de coleta de dados e um avanço na produção média de 11 kg/vaca/dia para 13 kg/vaca/dia. Mas não mais do que isso porque a filosofica não é se preocupar com aumento de produção por animal e sim por área.
Participam do projeto, além de Codagnone, o zootecnista Ademir Martins Vieira, a nutricionista Celina Jorge Leme, o técnico agrícola Márcio Alcântara Batista e o coordenador de serviços Walter Gomes Ferreira, todos do Iapar.


