O incremento de área dos laranjais representa quase 10% sobre os atuais 23 mil hectares plantados no Paraná
O incremento de área dos laranjais representa quase 10% sobre os atuais 23 mil hectares plantados no Paraná | Foto: Saulo Ohara



Enquanto nas principais regiões produtoras de laranja se enxerga um copo de suco meio vazio, os agricultores paranaenses estão entre os que veem o copo meio cheio. O greening, doença que causa má formação dos frutos e exige a erradicação da árvore, prejudicou a cultura em São Paulo e, mais severamente, na Flórida, que são os dois principais fornecedores da fruta no Brasil e nos Estados Unidos. O problema faz crescer o interesse de agroindústrias locais no mercado de exportação de concentrados, com estimativas que apontam para o plantio de 2 milhões de novas mudas nos próximos três anos no Estado.

O incremento de área representa quase 10% sobre os atuais 23 mil hectares plantados no Paraná. De acordo com o maior fornecedor de mudas do Estado, o Viveiro Pratinha, foram 1 milhão de encomendas para 2018 e o restante até 2020. Cerca de 40% serão plantados pelo grupo que comanda a revendedora e também a marca Suco Prat's na região de Paranavaí, diz o empresário Gilberto Pratinha. Outros 25% serão direcionados a associados à Integrada Cooperativa Agroindustrial, como parte da política de diversificação de culturas entre os cooperados e que visa garantir todo o abastecimento da própria indústria de sucos até 2022.

As baixas cotações para a fruta entre 2012 e 2016 levaram à erradicação de laranjais. Na sequência, iniciou-se uma recuperação nos preços no Brasil, principalmente por perdas causadas pelo greening em São Paulo e na Flórida.

A doença que não tem cura até está bem controlada no Brasil, mas o mesmo não se pode dizer do principal estado produtor de laranja do país norte-americano. Dados apresentados pelo professor Ariel Singerman, da Universidade da Flórida, em palestra no Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) no ano passado, apontam incidência de 90% de greening nas plantas da Flórida. O problema quase dobrou o custo de produção em uma década, reduziu a área plantada em 22%, diminuiu a produtividade em um terço e triplicou o custo por caixa da fruta.

Para prejudicar ainda mais os laranjais de lá, o furacão Irma atingiu todo o cinturão frutícola da região em setembro de 2017, com ventos fortes e chuvas de até 432 milímetros em apenas 24 horas. Todo o trabalho agrícola precisou ser interrompido, com os laranjais da Flórida inundados.

A queda brusca na produção afeta o maior consumidor de suco de laranja, em mercado no qual o Brasil é o maior exportador, responsável por ao menos 60% da bebida no mundo. Assim, estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA, na sigla em inglês) aponta um incremento de 60% nos embarques do produto brasileiro na safra 2017/18 para os norte-americanos. Números que compensam até mesmo as projeções de redução mundial na demanda pelo suco, devido ao aumento da concorrência de outras bebidas.

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ALTERNATIVA RENTÁVEL
É nesse cenário que aumenta o investimento de paranaenses na citricultura, apoiado pelo interesse de agroindústrias. Por mais que o greening também se faça presente no Estado, o menor número de produtores e a ligação próxima à assistência técnica de cooperativas e de agências governamentais tornam a doença melhor controlável.

Sócio-proprietário da marca Suco Prat's, Gilberto Pratinha diz que, do Rio Grande do Sul até São Paulo, há demanda por mudas para ampliação de área, que ele separa das usadas para replantio de pés antigos. "Os produtores estão repondo o que foi arrancado em anos anteriores, mas com cautela, sem exagero, o que mostra a maturidade do setor e que evita tanto o desabastecimento quando a superoferta", afirma.

Ele conta também com o crescimento do mercado interno pelo suco do tipo integral e pasteurizado, ou NFC (sem ser concentrado, na sigla em inglês), como o vendido pela marca da qual é sócio. "Não tínhamos há dez anos o costume de tomar suco NFC, mas a disponibilidade fez crescer a demanda para 120 milhões de litros ao ano, ou 6 milhões de caixas. Isso representa 1,5% da produção de laranja no Brasil e acredito que o consumo cresça até 150% até 2025", diz Pratinha.

Por enquanto, a produção dos associados da Integrada representa metade das 2,3 milhões de caixas de capacidade da fábrica da cooperativa
Por enquanto, a produção dos associados da Integrada representa metade das 2,3 milhões de caixas de capacidade da fábrica da cooperativa | Foto: Cooperativa Integrada/Divulgação



Além de 1 milhão de mudas vendidas para 2018, ele cita 500 mil em encomendas para 2019 e acredita em mais 500 mil para o ano seguinte, somente no Paraná. "O plantio deve crescer até 2020 e se estabilizar, porque é cíclico. Então, os preços devem ceder um pouco e os produtores darão uma segurada", complementa Pratinha.

O especialista em fruticultura Paulo Andrade, engenheiro agrônomo no Deral (Departamento de Economia Rural) da Seab (Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento), afirma que a citricultura mexe com a economia regional. "É a principal fruta no Paraná, pelo número de empregos e pessoas envolvidas, em área e também pela destinação industrial", explica.

A coleta de dados sobre a atividade pelo Deral terminará somente em setembro, mas Andrade diz que é esperado um aumento de área pela entrada no ciclo de altos preços. Conforme o último balanço disponível, a laranja ocupa 40% dos 60 mil hectares, 52% das 1,4 milhões de toneladas e 11% dos R$ 1,4 bilhões de VBP (Valor Bruto de Produção) da fruticultura paranaense. "Para se ter uma ideia, são mais de 23 mil hectares de laranja e a que vem em seguida é a uva, com 4 mil, mas que é direcionada para o consumo de mesa, e não para o processamento na indústria", conta Andrade, que considera que a retomada de preços deve elevar a participação da laranja no VBP para até 17%.

PROJETO DURADOURO
A cultura é mais apropriada para propriedades médias e grandes, pela maior facilidade em adquirir o maquinário para o combate a pragas, diz o gerente industrial da Integrada, Paulo Rizzo. Ele conta que a cooperativa planejou a abertura da fábrica de sucos já em 2008, como uma alternativa de diversificação de culturas para os associados e também de olho no mercado.

O plantio foi até 2010 e a fábrica entrou em operação em 2013. "Nos últimos quatro anos, a rentabilidade da laranja chegou a ser de quatro a cinco vezes superior à dos cereais, por hectare", diz Rizzo.

Hoje são cerca de 80 cooperados da Integrada que fornecem laranja para a agroindústria. Entretanto, a produção deles representa metade das 2,3 milhões de caixas de capacidade da fábrica. O restante é comprado de citricultores independentes do Paraná e de São Paulo. Praticamente 100% do suco é exportado como concentrado. "Com o plantio que fizemos desde 2016 e com mais mudas encomendadas para 2019, a Integrada terá 1 milhão de árvores e será autossuficiente em 2022", cita Rizzo.

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