Produção de orgânicos rende mais
Cláudia Barberato
Enviada aos Estados Unidos
O casal Florence e Paul Butler e o filho mais velho, Aaron, são produtores orgânicos da região de Dekalb, em Illinois, no Meio-Oeste dos Estados Unidos. Em 365 hectares, a família mantém lavouras sem químicos, com boa produtividade desde 1995. A vantagem dos Butlers é que, na hora de vender a produção, conseguem ganhar três vezes mais por seu produto orgânico, especialmente no caso da soja, que é exportada para o Japão. O faturamento da propriedade é de U$250 mil/ano, com 20% de lucratividade.
Terra limpaPaul Butler recebeu a certificação de produtor orgânico em 1995, mas três anos antes teve que começar a limpar a terra. Foram três anos sem uso de produtos químicos na terra. Dos 365 hectares que cultiva, somente uma pequena parcela (10%) fica sem a agricultura orgânica, porque é arrendada e o dono não permitiu o cultivo.
Antigamente usávamos pesticidas e adubos químicos, mas deixamos de usar químicos por causa das reações físicas daninhas. Tínhamos um sentimento geral de que estávamos gastando dinheiro demais em substâncias que não funcionavam muito bem e que danificavam a terra, bem como nós mesmos, escreveu Paul Butler, num resumo em português com dados sobre sua propriedade.
Interesse no idiomaO texto foi distribuído aos produtores paranenses que visitaram sua propriedade no dia 30 de agosto, numa viagem aos Estados Unidos, organizada pela Federação de Agricultura do Estado do Paraná (Faep), para conhecer a produção da região do Meio-Oeste americano. O texto em português se explica pelo interesse da esposa de Butler, Florence, em aprender o idioma.
A Universidade de Northen Illinois, perto da propriedade, tem um professor de português e alunos interessados em aprender o idioma, explicou Florence. Muitos deles estiveram na fazenda, durante a visita, para aprender gírias do português com os produtores brasileiros.
Adoção orgânicaButler afirma que na sua região são poucos os fazendeiros que adotam o cultivo orgânico. Ele calcula que de 300 produtores nem 10 agricultores fazem o manejo diferenciado nas lavouras. Na região, calcula que o percentual de agricultura orgânica não passe de 5%. A adoção é maior no Sul dos Estados Unidos, especialmente na Califórnia, calculada pelo professor da Universidade de Ponta Grossa, Cláudio Puríssimo, em 35%.
Três vezes maisO lucro maior da agricultura orgânica praticada pelos Butler é com a soja, pela qual recebem U$15 a U$20 por bushel (1 bushel de soja equivale a 27,2 kg), enquanto a cotação é de U$5 por bushel de soja convencional. Pelo milho orgânico a família recebe cerca de 1 bushel a mais, ou seja, uma média de U$3,20 por bushel (1 bushel de milho equivale a 25,4 kg) enquanto o convencional vale U$2,30/2,60.
A propriedade tem ainda plantio de trigo, aveia e alfafa que servem de rotação, adubo verde e para fenação e silagem, destinadas à criação de ovelhas tipo carne e cavalos para montaria, utilizados por alunos de uma universidade local durante treinamentos na primavera.
ProdutividadeA produtividade dos orgânicos, ao contrário de algumas informações técnicas, segundo Butler, não é menor do que a convencional. Quando cai a produtividade, o preço do produto final compensa. A produção orgânica dos Butler equipara-se à plantio convencional da soja e do milho. Muita gente diz que a produtividade dos orgânicos fica de 10% a 30% abaixo das culturas convencionais, o que não é verdade. afirmou.
Na soja, a produtividade média alcançada é de 50 bushels/acre ou 3.362,4kg/ha e no milho de 160 bushels/acre ou 9.500kg/ha. Na cultura convencional a produtividade da região é de 60 bushels/acre ou 4.039,9kg/ha na soja e 200 bushels/acre ou 12.553kg/ha no milho. No Estado de Illinois a produtividade média da soja convencional é de 2.891kg/ha e a do milho de 8.096kg/ha.
Em comparação ao Paraná a produtividade da soja é equivalente à convencional e a do milho superior, se for considerada a média. Existem algumas regiões onde a produção do milho é igual ou superior.
As diferenças na produtividade, segundo o produtor americano, estão relacionadas ao controle de pragas e insetos. Na sua lavoura, afirmou, não existe grande infestação, porque o sistema de rotação que usa é eficiente para manter baixa incidência. Quando há necessidade usa o Bacilus turigienses.
RotaçõesAs rotações utilizadas são: milho, soja e alfafa e depois soja, pequenos grãos com semeadura de inverno. Usam semeaduras cobertas com trevo vermelho, ervilhaca peluda, centeio semeado no outono e na primavera, aveia semeada no outono, para controlar a erosão, as ervas daninhas e conservar a saúde do solo. A rotação, explica o filho Aaron, pode seguir dois anos com aveia, para não deixar a área sem cultivo.
No manejo para driblar a neve, o produtor faz colheita em outubro e já planta a aveia no preparo do solo. Depois vem a neve, que mata a parte aérea da planta. No degelo, em fevereiro, os cereais rebrotam e são colhidos em junho. Antes disso, no final de março, inicia o plantio de milho e soja, para que em abril e maio já esteja tudo pronto. A alfafa que cultiva é cortada e parte incorporada ao solo como adubo, para as culturas que virão.
Adubos naturaisTodo o estrume de cavalos e muito do estrume das ovelhas é decomposto pelo método estático, antes de ser espalhado pelos campos. Além do estrume dos animais nas lavouras, eles usam adubos naturais, aprovados pelo Organic Crop Improvement Association.
O adubo usado nas lavouras é de origem natural. Butler usa o fosfato de rocha, sulfato de potássio, estrume de gado, estrume líquido de porcos e calcário calcítico.
Propriedade modeloButler é considerado um produtor exemplar da sua região. É praticante da conservação do solo e manejos como rotação de culturas, proteção contra ventos, mata ciliar, estradas adequadas, entre outros. Este ano recebeu um título de destaque entre os 300 fazendeiros de sua região. Soil and Water Conservation ou Solo e Água Conservados, com destaque para qualidade de vida de plantas e pessoas e o ar da propriedade. A cada ano um dos produtores é escolhido como destaque.
O uso do nitrogênio é proibido na agricultura orgânica. Os produtores têm que produzir seu próprio nitrogênio e a forma para isso é usar a rotação com alfafa, por exemplo, explica Butler.
DesafiosOutra grande fonte de nitrogênio, segundo o produtor, é o esterco dos animais, que proporciona fósforo e potássio para as plantas. Um dos maiores desafios da agricultura orgânica, segundo o produtor americano, ainda é o controle de plantas daninhas, que também pode ser feito com rotação de culturas somada à capina manual, para a qual contrata mão-de-obra temporária, pagando U$7 a hora.
Mercado em expansãoO preço do produto orgânico nos Estados Unidos fica cerca de 30% mais caro para o consumidor, o que dificulta a expansão. Em certas regiões daquele país, como na Califórnia, o mercado é aquecido.
O que ainda retrai a produção, segundo o agrônomo brasileiro Cláudio Puríssimo, que acompanhou a viagem dos agricultores aos Estados Unidos, é um custo de produção elevado para obter o produto. O produtor americano, segundo ele, fica dependente de mão-de-obra para controle de ervas daninhas. Muitos até deixam de fazer a limpeza e é possível ver lavouras cheias de mato. O tipo de solo e o clima quente facilitam a presença das ervas daninhas. O contrário acontece na Califórnia, onde 35% das propriedades já têm a produção orgânica.
Cuidados para mudarNo Brasil o plantio de orgânicos tem crescido, caso do Paraná. O cultivo de orgânicos é possível de ser feito em qualquer região e em qualquer cultura. O preço é atrativo. Mas, o produtor deverá ter a consciência de que nos primeiros anos a sua produtividade poderá cair drasticamente. Para ser certificado como produtor orgânico não deverá usar nada químico no período de três anos até receber a tal certificação, explicou o supervisor do Senar/Faep, de Guarapuava, Aparecido Grosse.
Grosse trabalha na região de Guarapuava, que abrange 32 municípios. Na sua região existe produção de orgânicos na área de hortifrutigranjeiros. Ele alerta que a mudança de agricultura convencional para a orgânica requer análise por parte do produtor. Ele pode ficar sem renda nos primeiros anos e não conseguir se manter na atividade.
RiscosDe acordo com Grosse há outro ponto a considerar: De acordo com o pesquisador Elswort Christmas, da Purdue University, em Lafayete, no Meio-Oeste dos Estados Unidos, um centro de controle de doenças do governo americano divulgou dados de que 50% dos casos de doenças da saúde pública foram ocasionados por consumo de produtos de origem orgânica, no caso de hortifrutigranjeiros. Com relação a grãos ainda não se tem informações.
A informação do pesquisador americano, explica Grosse, é com relação a consumo de alimentos frescos, sem industrialização, que poderiam conter resíduos de produtos usados em animais, os fornecedores do adubo orgânico aplicado na lavoura.
Grosse comentou também a má-impressão dos produtores paranaenses em relação à sujeira nas lavouras ou o número de plantas daninhas no meio da soja orgânica; um dos desafios do produtor americano é justamente manter a lavoura limpa. E comentou: Temos tecnologia para manter lavouras mais limpas.
A vantagem dos Estados Unidos, de acordo com Grosse, é que os solos possuem um elemento essencial para boa produção que é o fósforo, em abundância na terra. No Brasil é preciso corrigir o nível de fósforo no solo e não somente dar fósforo às plantas no momento da adubação.
A jornalista Cláudia Barberato viajou aos Estados Unidos a convite da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep).A família Butler, dos Estados Unidos, consegue ganhar três vezes mais com produção de soja e milho orgânicos
Os Butler: trabalho em família e maior ganho na produção de orgânicosNa hora de vender, a soja orgânica vale até três vezes mais do que a convencional. Desafio é vencer as plantas daninhas





