‘‘O trigo pode voltar a ser uma cultura importante para a economia do Mato Grosso do Sul’’. A afirmação é do pesquisador Paulo Gervin Sousa, da Embrapa Agropecuária Oeste, vinculada ao Ministério da Agricultura e do Abastecimento. Ele cita dois fatores conjunturais na defesa de sua expectativa: o provável aumento da demanda por esse cereal no Brasil e nos países asiáticos e o limite da produção argentina.
‘‘A melhoria na qualidade de vida em nosso país e na Ásia implicará no aquecimento da venda do pão, do macarrão e de outros derivados do trigo’’, diz Gervin. Segundo ele, a Argentina, que é o maior fornecedor de trigo para o Brasil, pode estar no limite de sua capacidade de produção. ‘‘Desse modo, haverá espaço para o trigo nacional; e o Brasil não pode ficar totalmente dependente de alimento tão nobre, uma grande fonte de proteínas e de calorias’’, afirma.
ReduçãoA partir de 1990, com a privatização da compra do trigo, a área de plantio reduziu-se drasticamente em Mato Grosso do Sul: de 420 mil hectares em 1987 para menos de 20 mil hectares em 1996. ‘‘A competição com o trigo argentino, que é mais barato, foi decisiva para essa redução’’, diz Gervin, que defende a reserva de mercado para uma parte do trigo consumido internamente, para enfrentar uma futura escassez do produto e permitir a retomada da triticultura nacional.
Essa estratégia impediria o desaparecimento das sementes de trigo. Para a obtenção de uma nova cultivar de trigo, adaptada às condições de cultivo de uma região, são necessários até doze anos de pesquisa. Este quadro também diminuiu a área de plantio em dois Estados tradicionais na produção de trigo: o Paraná e o Rio grande do Sul, mas mesmo assim a área ainda é considerável.
Com a privatização da compra do trigo, a qualidade industrial passou a ser um critério de fundamental importância na comercialização do cereal. ‘‘ O trigo produzido em nossa região tem alta qualidade industrial, pela existência de cultivares classificadas como melhoradoras e superiores, aliada às condições de clima favoráveis à colheita de um produto de excelente qualidade’’, explica o pesquisador. ‘‘O pão, o principal derivado do trigo, requer um produto de qualidade.’
MelhoramentoO pesquisador Paulo Gervin Sousa é especialista na área de melhoramento genético vegetal. Em Dourados trabalhou no desenvolvimento de cultivares de trigo no período de 1978 a 1991, quando doze novas cultivares foram obtidas para o Estado. Este trabalho norteou o seu curso de doutoramento em agronomia, concluído recentemente na UNESP de Jabuticabal (SP).
Das doze cultivares desenvolvidas pela Embrapa-Agropecuária Oeste, conjuntamente com a Embrapa-Trigo, quatro são de característica melhoradora (qualidade industrial do mais alto grau que recupera farinhas de baixa qualidade): BR 11-Guarani, BR 17-Cuiabá, BR 40-Taiúca e Embrapa 10-Guarajá, e outras quatro classificadas como superiores BR 18-Terena, BR 21-Nhandeva, BR 29-Javaé e BR 31-Miriti). Na safra de 1996, as mesmas representaram cerca de 90% da área semeada no Mato Grosso do Sul.

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