Uma história que começou 40 anos atrás nas pradarias do Meio-Oeste dos Estados Unidos no enfrentamento à segunda crise do petróleo e há 15 anos no Brasil com a entrada em operação de três destilarias flex no Mato Grosso está, quase silenciosamente, mudando a economia agrícola em algumas regiões do país.

Visto como cada vez mais promissora pelos analistas, a produção de etanol de milho repete o mesmo ritmo de crescimento dos 20 primeiros anos do Proálcool e pode alcançar até 40% do mercado de biocombustíveis até o fim da década, de acordo com previsão da FS Bioenergia, principal produtora do país.

De acordo com a empresa de consultoria em agronegócio StoneX, enquanto o consumo interno de milho cresceu 54% entre 2015 e 2025, o volume de grãos destinados à produção de etanol escalou 650% no mesmo período, chegando a 21 milhões de toneladas.

No Paraná, um investimento de grande porte da Coamo, símbolo máximo da força do cooperativismo no Estado, dá a largada no processo que deve impactar o preço dos grãos, a pauta de exportações, o mercado de ração animal, a geração de empregos na indústria e a arrecadação dos municípios e do Estado.

Dois dígitos de crescimento anual

Conforme levantamento da diretoria de Relações Institucionais e Sustentabilidade da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), o Brasil deve alcançar na safra 2024/25, a produção de 9,90 milhões de metros cúbicos do combustível, volume quase 20% maior do que o ciclo anterior.

Até 2032, a produção brasileira deve atingir um patamar entre 13 e 15 bilhões de litros anuais, de acordo com estudo publicado pela revista Nature Sustainability e realizado pela Agroícone com colaboração do MIT, da Unicamp e da Dartmouth College.

Levantamento feito pela UNEM a pedido da Folha aponta que 25 biorrefinarias já estão em operação no país - 11 no Mato Grosso, sete em Goiás, três no Mato Grosso do Sul e outras quatros espalhadas em São Paulo, Paraná, Alagoas e Maranhão.

Outros 16 projetos possuem autorização de construção - sete no Mato Grosso, três no Rio Grande do Sul, duas na Bahia e outros quatro no Paraná, Rondônia, Santa Catarina e Tocantins. Além destes, mais 16 projetos aguardam autorização: oito no Mato Grosso, dois na Bahia, dois em Goiás, dois no Pará, um no Piauí e um no Tocantins.

Em 2025, deve começar a operar uma unidade em Balsas (MA) e nos próximos 10 anos a UNEM projeta investimentos na ordem de R$15 bilhões em novas unidades e em expansão de plantas.

Em 2026, Paraná larga forte

Em Campo Mourão, o etanol de milho é o assunto do momento. A Coamo está instalando uma das maiores plantas de refino fora do Centro-Oeste, com investimento de R$1,7 bilhão e a geração de 500 empregos diretos. Uma vez em operação - provavelmente no segundo semestre de 2026, a fábrica de 72 mil metros quadrados de área construída terá capacidade para processar diariamente 1,7 mil toneladas de milho, produzir 765 mil litros de álcool por dia e anualmente 180 mil toneladas de farelo de milho (conhecido no meio com a sigla DDG, do inglês Dried Distiller’s Grains).

“Hoje, usamos apenas 2% do milho que recebemos para produção de ração e o restante é comercializado em grão. A indústria de etanol de milho é um sonho antigo, fizemos vários estudos de viabilidade e agora chegamos ao momento certo do investimento porque o uso de biocombustíveis não para de crescer”, disse o presidente executivo da Coamo, Airton Galinari, que calcula que a nova etapa da industrialização do milho vai consumir 20% do volume entregue pelos produtores quando a unidade estiver em plena operação.

A planta em Campo Mourão é a primeira do Sul do país exclusivamente destinada ao álcool de milho. Em Jandaia do Sul, a cooperativa local, a Cooperval, em 2018 converteu o maquinário de uma destilaria construída nos anos 1990 para também processar milho em dias de chuva ou na entressafra. No ano seguinte, em 2019, começou o processamento contínuo do grão paralelo ao de cana-de-açúcar.

Outras grandes cooperativas do Estado ainda não anunciaram investimentos no segmento, mas para os especialistas isso é uma questão de tempo.

Para o professor do Departamento de Economia da UEL, Cleverson Neves, doutor em Teoria Econômica e mestre em Economia Regional e Urbana, o Paraná aparece como “uma nova fronteira em ascensão, com uma estrutura produtiva baseada no cooperativismo e na interiorização industrial”.

Transição energética

A expansão do uso do milho para a produção de etanol a partir de cidades cercadas por imensas plantações no coração do Mato Grosso e que agora se espalha por outras fronteiras agrícolas pode mudar a imagem do segmento a partir de um novo contexto de produção.

“Enquanto o Centro-Oeste se destaca pelo pioneirismo privado, o Sul do país pode liderar uma nova onda inclusiva, limpa e distribuída. O etanol de milho, antes marginal, torna-se hoje parte fundamental de um projeto de futuro para o agro e para a transição energética brasileira”, avalia Neves.

O pesquisador prevê que o etanol vai valorizar o milho safrinha (segunda safra), que ganhará importância estratégica, impulsionando os preços e incentivando os produtores a investir em tecnologias que aumentem a produtividade. “Outros dois impactos importantes são a geração de empregos na indústria e mais arrecadação de impostos pelas prefeituras e pelo estado”.

Neves também acredita que a instalação de outras grandes plantas de processamento como a da Coamo vai colocar a produção de milho a serviço da substituição de combustíveis fósseis e da redução das emissões de efeito estufa.

Os novos projetos também devem agregar áreas improdutivas e transformá-las em florestas de eucaliptos, matéria-prima para termelétricas de biomassa que geram eletricidade. É o caso da Coamo, que vai produzir energia para a nova planta e para todo o seu parque industrial neste modelo. “Acredito que também haverá um fortalecimento do cooperativismo como modelo de inclusão produtiva de pequenos e médios produtores em várias regiões”.

De acordo com seus modelos de cálculo, o etanol vai transformar a cultura do milho no Estado. A produção da segunda safra poderá ser 40% maior, a área plantada pode crescer até 20%, o número de empregos formais da cadeia pode ter um incremento de até 90%, a arrecadação dos municípios produtores de etanol poderá arrecadar mais que o dobro com a cultura e o reflorestamento deverá ser multiplicado por 3,5 vezes.

“O mercado de milho está se transformando com o etanol porque aumenta a liquidez e a rentabilidade do produtor, já que com o aumento da demanda interna impulsionada pelas usinas que vão começar a operar a tendência é diminuir a dependência de janelas de câmbio favorável para realizar a venda ao mercado externo”, explica o especialista em commodities agrícolas, José Vitor Hidalgo.

“Os ganhos com DDG também valorizam a cultura porque o mercado está reconhecendo como uma boa opção para a alimentação do gado e de suínos, o que vai beneficiar também a produção de carnes e leite. Enfim, enquanto lidarmos com os gargalos logísticos para a exportação, o escoamento deste milho para a indústria do etanol ajuda bastante na cadeia de custódia”.

Hidalgo lembra que o Brasil deve destinar cerca de 18% da produção para o etanol na próxima safra, enquanto os Estados Unidos este patamar já está em 38%. Ou seja, caso se confirme um forte crescimento do consumo mundial de etanol, o Brasil teria mais espaço para atender esta nova demanda.

Potencial de internacionalização

De acordo com a assessoria da UNEM, uma negociação estratégica do Brasil com a China pode ajudar os exportadores brasileiros de etanol a substituírem os fornecedores norte-americanos que já abasteciam aquele mercado diante de uma eventual resiliência na guerra tarifária.

As exportações também poderão ganhar impulso caso as negociações entre o Mercosul e a União Europeia avancem nos próximos anos, especialmente em um cenário de guerra comercial do bloco com os Estados Unidos, avalia a nota da UNEM.

Outros parceiros também poderão comprar em volumes significativos, como o Sudeste Asiático, o Oriente Médio e a África, regiões em franco desenvolvimento, de olho em produtos de bioenergia e que reputam o Brasil como fornecedor confiável, resultado de um histórico sólido de parcerias em outros segmentos do agronegócio.

Neves acredita que até mesmo os Estados Unidos poderão se interessar pelo etanol de milho do Brasil, principalmente em estados como a Califórnia, cujas metas de redução de emissão de carbono são mais rígidas.

Ele destaca também o Japão e Coreia do Sul como potenciais mercados, importadores tradicionais do produto, e a América Central e o Caribe, que podem comprar do Brasil pensando em reexportação, lançando mão da vantagem que possuem graças aos acordos de livre comércio com mercados importantes.

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