Produção de doce viabiliza agricultura familiar
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2002
Cláudia Barberato Equipe da Folha 
Sabáudia A trajetória da família Batista, que mora na zona rural de Sabáudia (65 km ao oeste de Londrina) no Norte do Paraná mudou há oito anos quando resolveram trocar o plantio de milho, algodão e arroz pela instalação de uma pequena agroindústria de doce de leite.
Vivendo numa chácara de 8.500 metros quadrados, a família tinha que arrendar terras de outros agricultores para conseguir sobreviver. Mal dava para o sustento do casal Renilda e Credir Bastista e mais dois filhos: Willian e Ledi.
Era preciso, segundo contam Credir e Renilda, achar uma alternativa para aumentar a renda e ainda permanecer na zona rural, onde sempre viveram. Antes de abrir a pequena indústria dona Renilda Batista já completava a renda da família com a produção caseira do doce de leite vendido nas redondezas da chácara onde moram.
A produção começou artesanal e modesta e em 1994 a indústria passou a funcionar no papel. De lá para cá os negócios cresceram: em oito anos a produção passou de 86 kg/dia para 860 kg/dia. A renda também aumentou. A agricultura dava um rendimento anual de R$ 4 mil e hoje eles têm uma rentabilidade mensal de R$ 7 mil. Para ter essa rentabilidade com a agricultura, segundo Willian Batista, seria necessário plantar 80 alqueires de soja (arrendados porque a família não dispõe de grande área de cultivo).
Produção em família O negócio começou com Credir e Renilda Bastita mas hoje envolve toda a família. O filho Willian e a mulher Andréa cuidam da parte burocrática e a filha Ledi trabalha com a mãe na indústria. Jaílson Santos, o genro do casal, faz a distribuição dos doces para os atacadistas. Além da família mais 19 funcionários trabalham na indústria.
De início o mercado era regional e hoje foi ampliado para outros estados. O doce é vendido em pacotes de 200 gramas por uma média de R$ 0,63 no Paraná, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Além do doce de leite puro os Batista produzem as versões com côco, amendoin ou chocolate. Há ainda uma produção terceirizada de outras duas marcas de leite do Norte do Paraná.
Mesmo com a probabilidade de maior rendimento a família enfrentou muitas dificuldades para chegar onde está. Foi preciso investir na compra de equipamentos (caldeira, tachos à vapor, resfriador para o leite, entre outros) para ir ampliando a produção.
A persistência de saber dormir e acordar com dívidas, segundo Willian, é que permitiu o crescimento da produção. O pior momento, segundo ele, foi em 2000 quando produzindo a pleno vapor a indústria teve que reduzir parte do trabalho em função do alto preço do leite. A geada em 2000 provocou queda na produção de leite e aumento nos preços. Os Batista chegaram a pagar na época R$ 0,46 por litro de leite, mas não tinham como repassar os custos ao produto.
O leite utilizado para fabricação dos doces (2 mil litros/dia atualmente) é comprado de pequenos produtores da região onde está instalada a indústria. Os Batista pagam (hoje) uma média de R$ 0,30 pelo litro de leite.
Dificuldades e falta de apoio Na indústria já foram investidos R$ 350 mil e as retiradas são feitas de acordo com a necessidade das três famílias porque parte da rentabilidade tem sido reinvestida na fábrica. Hoje a indústria tem capacidade para trabalhar com até 6 mil litros de leite por dia. Para ampliar os negócios e aproveitar a capacidade da indústria é necessário investir mais R$ 150 mil na compra de equipamentos e de mais um caminhão para distribuição do produto. Com novos investimentos, segundo Wilian, seria possível dobrar o número de funcionários. Mas há dificuldades em conseguir empréstimos porque estamos numa posição intermediária; não conseguimos os benefícios que são fornecidos aos pequenos, com prazos e boas condições de juros, e não chegamos ao patamar dos grandes produtores, revela Wilian.
Segundo Credir Batista há dificuldades em cumprir também as exigências da lei com pagamentos de impostos e taxas. O único apoio que tivemos foi dos técnicos da Emater, comentam pai e filho. Por isso, avisam, não adianta só pensar em mudar de atividade ou tentar copiar exemplos bem sucedidos. Tem que ter talento e vocação. Cada caso é um caso. Quem está de fora não entende. Tem que ter espírito empreendedor, avisa Willian.


