Cristina Côrtes
De Londrina
A tilápia-do-Nilo é uma das espécies preferida para quem tem investido em piscicultura nos últimos anos. O rápido crescimento, sua rusticidade, baixo custo de produção e boa rentabilidade estão entre as principais razões desta preferência. E agora mais dois fatores se somam às vantagens já conhecidas, a disponibilidade de alevinos com genética superior e oferta estável, inclusive no inverno, possibilitando a produção de duas safras ao ano.
Normalmente a compra de alevinos para engorda se concentra no mês de novembro, para produção durante os meses mais quentes. Com um ciclo de 4 a 6 meses, o piscicultor começa a comercializar seu peixe antes do inverno. Depois passa alguns meses com o tanque vazio, esperando a próxima safra. Em regiões de clima mais quente, há possibilidade de produção de duas safras por ano, mas a baixa oferta de alevinos nesta época era um fator restritivo. Segundo Ricardo Neukirchner, sócio-proprietário da Estação de Piscicultura Aquabel, localizada em Rolândia, no Norte do Paraná, com o objetivo de melhorar a rentabilidade dos produtores eles estão produzindo alevinos também no inverno, podendo proporcionar ao criador a possibilidade de realizar duas ou até três safras.
TecnologiaO laboratório da Estação de Piscicultura Aquabel, investiu alto na atividade, para permitir a produção de 50 milhões de alevinos por ano. Neste mês pretendem bater o recorde de produção, desde que o laboratório começou a funcionar há uns três anos, atingindo a marca de 1 milhão e 700 mil alevinos.
Durante os meses de maio, junho, julho e agosto a produção é menor, em torno de 600 mil alevinos/mês. Segundo Cláudio Luiz Batirola, outro sócio da empresa, o piscicultor não tinha esta alternativa de encontrar alevinos disponíveis no inverno. ‘‘Agora, com esta possibilidade, a procura está aumentando neste período, porque melhora a rentabilidade do produtor, que não precisa mais deixar o tanque vazio’’, explica.
A produção de alevinos no inverno só é possível porque o laboratório tem estufas que mantêm o ambiente climatizado, e sistemas de recirculação e reaproveitamento de água, além de uma tilápia com genética superior.
Potencial genéticoSegundo Ricardo, a empresa optou pela linhagem chitralada, importada da Tailândia, para a produção de seus alevinos e o resultado é um animal puro, livre de doenças, com maior rendimento de filé e resistente a variação de temperatura. ‘‘Nós fomos os primeiros a trazer esta espécie de tilápia para o Brasil e fazer a incubação artificial com tecnologia que permite uma reversão sexual de 100%’’, afirma Ricardo.
‘‘Os alevinos produzidos por nós obtiveram ganho de peso 50% superior ao de tilápias de outras procedências’’, afirma Ricardo, que garante que testes realizados em várias Universidades brasileiras (USP, UEM.UEL) comprovam este resultados.
Ainda segundo Ricardo, ‘‘a incubação artificial é a única forma segura de se obter populações 100% masculinas, condição imprescindível para que a produção de de tilápias seja economicamente viável’’. Quando a população dos tanques é formada em parte por fêmeas há um descontrole na reprodução, no tamanho dos peixes e consumo excessivo de ração, o que aumenta os custos para o produtor, explica Ricardo.
A incubação artificial é um processo que força a definição do sexo do alevino através do fornecimento do hormônio. Nos primeiros 30 dias, a larva tem o sexo indefinido, e o hormônio é fornecido na ração assim que começam a se alimentar. Segundo Ricardo o hormônio fornecido é natural (testosterona) e tem que ser dado no período certo para fazer o efeito esperado.
No laboratório os ovos são classificados pela cor, que revela o tempo de fecundação, e são levados para as incubadoras durante alguns dias até eclodirem. A água das incubadoras é quimicamente condicionada para aumentar as taxas de eclosão dos ovos. ‘‘A medida que nascem são separados e começam a receber o hormônio, e isto é que vai dar a segurança de 100% de reversão sexual’’, explica Ricardo.
A maior parte do alevinos produzidos pela Aquabel é comercializada com produtores de São Paulo, Goiás e Minas Gerais. O preço é superior ao dos alevinos produzidos pela técnica tradicional de produção de alevinos, que é baseada na estocagem de reprodutores em viveiro a céu aberto onde é feita a coleta.
ConsumoOs proprietários da Aquabel estão satisfeitos com a atividade e otimistas com as expectativas de aumento do consumo de filés de tilápia. Ricardo comentou que recentemente foram convidados a participar de uma reunião no Ministério da Agricultura, que já tem montado um projeto de incentivo a produção de tilápias, camarão e marisco. ‘‘A tilápia está sendo considerada ‘o frango dos peixes’, pelo seu baixo custo de produção, alta produtividade e sabor agradável’’, diz o piscicultor.
O mercado hoje para quem engorda peixes está mais voltado para a comercialização com os pesque-pague, que pagam um preço melhor, mas Ricardo acredita que a médio prazo a comercialização seja maior com os frigoríficos. ‘‘A demanda dos pesque-pague tem um limite que logo deve ser atingido, mas o consumo do filé de tilápia como alternativa alimentar só tende a crescer’’, avalia.Laboratório investe em modernas instalações, para manter oferta estável de
alevinos de tilápia mesmo durante inverno
As incubadoras recebem os ovos já separados pela idade de maturação, e funcionam dia a noiteAs matrizes foram importadas da Tailândia, e seus alevinos têm desempenho superior ao de outras tilápiasAs estufas mantêm o ambiente climatizado, favorecendo a produção estável ao longo do anoRicardo Neukirchner destaca que tanto a reversão sexual quanto o ganho de peso de seus alevinos foram testados científicamenteAntes de serem comercializados, os alevinos passam pelo tanque de depuração, para limpeza do intestino

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