Passados pouco mais de dois meses da última geada, a produção de espécies folhosas já voltou ao normal e a de legumes, por terem ciclo mais longo, deve se estabilizar totalmente no início de novembro. Com a normalização da produção, os preços pagos aos produtores de hortaliças caíram bastante de agosto para setembro. Entretanto, o consumidor continua a pagar caro pelas verduras.
‘‘A explicação para este comportamento dos preços é que os produtores são o elo mais fraco da cadeia produtiva, com baixo poder de barganha. São tomadores e não formadores de preços’’, analisa o engenheiro agrônomo Mauricio Tadeu Lunardon, do Departamento de Economia Rural, Deral, da Seab.
Lunardon avalia ainda que os produtores de hortaliças têm tido dificuldades para se organizar. ‘‘A categoria precisa se organizar e se fortalecer, para pleitear preços justos, que cubram seus custos e lhes garanta uma margem de lucro razoável’’. Ele afirma que a produção é pulverizada e o número de produtores é grande, dificultando a articulação dos produtores. ‘‘Por sua vez, as grandes redes de supermercados mantêm o preço enquanto podem, garantindo suas margens de lucro’’, complementa o técnico do Deral.
ClimaNo Paraná, a estiagem seguida de geadas fortes e sucessivas provocaram grande quebra na produção de hortaliças, puxando para cima os preços em todos os segmentos de comercialização. No primeiro momento, os preços explodiram, passando a cair cerca de 40 dias após a última geada de julho. O movimento no mercado dos produtores, conhecido como ‘‘pedra’’, na Ceasa de Londrina e de Curitiba, que caiu muito no final de julho e durante o mês de agosto, está se normalizando.
A entrega de produtos chegou a diminuir em cerca de 60%, afetando a entrega de verduras como alface, agrião e couve e legumes como abobrinha, chuchu, pepino, pimentão e tomate, entre outros produtos. Em Curitiba, a frequência diária que normalmente é de 300 a 400 produtores na pedra, caiu na mesma proporção logo depois das geadas, ainda está cerca de 20% menor que o normal, conforme explica Nilo Ribas, gerente da divisão técnica da Ceasa.
Ele cita como exemplo os preços pagos ao produtor pela alface e a couve-flor para ilustrar sua afirmação de que os preços vêm caindo, porém, em proporção diferente nos diversos segmentos de comercialização. ‘‘De agosto a setembro o preço da alface recebido pelo produtor baixou 60,5%, passando de R$ 8,23 para R$ 3,25 a caixa de 9 kg’’. O técnico frisa que no mesmo período, o preço no varejo caiu só 28,7%. A cabeça de alface, que em meados de agosto custava R$ 1,08 para o consumidor, era vendida a R$ 0,77 por volta do dia 20 de setembro, quando comparou os preços.
‘‘Em agosto o produtor recebia R$ 8,76 pela dúzia de couve-flor e, em setembro, R$ 5,45. Essa diferença representa uma redução de 37,8%. No mesmo período, o preço no varejo caiu apenas 15,28%, pois baixou de R$ 2,16 para R$ 1,83/cabeça’’, compara o agrônomo. Ele revela que no segmento atacadista durante o mesmo período, as reduções foram de 50,3% para a alface e 11,8% no preço da couve-flor.
PerdasShin Iti Paulo Asami, produtor do município de Cambé, administrador da ceasa em Londrina e tesoureiro da Associação Norte-paranaense de Horticultores (Apronor), com 1350 associados, conta que perdeu toda a produção de chuchu e repolho que cultiva em seu sítio. ‘‘Depois da geada, o chuchu leva mais ou menos 4 meses até voltar a produzir. Fica muito complicado para o olericultor, pois não temos nenhum tipo de incentivo do governo, que num momento difícil como depois da geada não se prontificou em ajudar os produtores’’, lamenta Asami.
O olericultor afirma que a atividade já foi mais lucrativa, no período de dois a três anos atrás. ‘‘Dava para pagar tudo em dia. Agora, quando os produtos estão em baixa fica muito difícil, pois subiu muito o frete e o combustível, então, nem se fala’’. Ele comenta que o custo de produção do chuchu na sua propriedade não é mais tão pesado, pois já amortizou o investimento inicial que a cultura exige . ‘‘Um investimento foi elevado na implantação das parreiras em cerca de um alqueire e meio’’.
O produtorconcorda com o raciocínio do técnico do Deral, ao falar sobre os preços que ainda estão altos no setor de varejo: ‘‘Quem deve estar lucrando, devem ser os intermediários. Eles sempre ganham porque só repassam o produto. Com a frustração de safra os preços subiram, mas nós produtores não ganhamos pois não tínhamos produto e o consumidor pagou mais caro’’, diz Asami.
Margem estreitaFormado em agronomia, o produtor Leonardo Nishimura é membro de uma família tradicional na produção de olerícolas, que juntos cultivam em cerca de 30 alqueires, em Londrina e municípios vizinhos. Ele também concorda que hoje a margem de lucro para o setor está muito pequena. ‘‘O produtor ganha pouco, pois os preços não vêm acompanhando a alta progressiva dos insumos que houve nos últimos anos. Depois das geadas, quando não tinha produto, os preços subiram’’, ele diz. Atualmente, com a produção se estabilizando, ‘‘os valores pagos ao produtor são muito pequenos, se comparados aos preços finais que os produtos chegam ao consumidor e, com certeza, quem paga pela diferença somos nós’’, desabafa.
Na propriedade dos Nishimura, Leonardo responde pela parte técnica da produção, enquanto seu irmão caçula Johny cuida da comercialização e seu pai, Yassuyuki, administra a parte financeira. Junto com 35 empregados fixos, eles vendem para a Ceasa uma média mensal de 8 mil caixas de produtos como cenoura, tomate, pimentão, cebola, repolho, acelga, entre outras hortaliças. ‘‘Dá muito trabalho lidar com olericultura. Temos que produzir várias espécies para ganhar um pouco no geral, pois uma das espécies poderá ter um preço melhor, em função da variação da oferta no mercado’’, afirma o produtor.

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