Produção agrosustentável tem mato como 'amigo'
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sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Edson Pereira Filho<br> Reportagem Local 
A propriedade de Gisele Bianchini e Leonardo Florêncio deixa transparecer para desentendidos em meio ambiente que uma roçada no terreno não faria nada mal. A desolação provocada pela vista do matagal em meio a culturas de maçã e morango é patente. Mas ao passear pelas cercanias do terreno de quase três alqueires, se tem a idéia exata que tudo vive e convive em harmonia. É o modelo de propriedade agrosustentável que tem o mato como amigo que faz render dividendos.
Abelhas europas, por exemplo, além de dar 50 quilos de mel anuais, defendem a área contra insetos indesejados para as culturas, além de polinizar a produção da área. E pensar que Gisele largou um importante cargo numa mutinacional de defensivos agrícolas para dividir com o marido R$ 1 mil que a área oferece mensalmente com seus produtos naturais.
A propriedade é cortada pelo córrego Santa Cruz. Lá o casal teve o seu primeiro embate com a sujeira dos grandes centros. ''Toda chuva forte chegam garrafas e toda espécie de lixo jogado pelas pessoas'', protesta Gisele. O primeiro e continuo desafio do casal é limpar esta sujeira urbana, além de recuperar a mata ciliar e destinar uma área de mata nativa - Reserva Legal - correspondente a 2/3 da propriedade, conforme determina legislação ambiental.
O casal veio da cidade de São Paulo em 2002. Eram dois urbanóides que pouco entendiam de plantação alternativa. Com a indenização da mutinacional, Gisele comprou a área, localizada no município de Tamarana (62 km ao sul de Londrina). O terreno descoberto e cansado recebeu o plantio de feijão de porco, aveia preta e ervilhaca. Depois sofreu uma capina superficial e ficou coberto pela adubação verde. ''O mato volta a crescer e é mantido porque faz aparecer insetos que são inimigos naturais de pragas, por exemplo, como a vespa branca (inimiga da maçã). Não usamos veneno agrícola'', argumenta Leonardo.
Feita a proteção inicial do terreno, o casal se concentrou numa diversificação de culturas para sobreviver na área. E criaram a Artesanu Agroindustrial Ltda, que já produz mil potes mensais de geléias a partir do morango e maçã plantados na propriedade, além de kiwi, caqui e banana de outras propriedades orgânicas da região e do Rio Grande do Sul. Uma horta está sendo preparada, objetivando ter renda o ano inteiro, já que a maçã e morango aparecem no segundo semestre.
''A idéia da horta é oferecer uma cesta de orgânicos com folhosas, raízes, frutos e leguminosas para os visitantes. Vamos formar esta cesta com a ajuda de outros produtores de orgânicos de nossa região '', informa Gisele. A propriedade é visitada por famílias e grupo de estudantes e conta com um sistema Colhe & Pague, aliado a uma orientação pedagógica rural, sem que o casal precise sair da área para vender seus produtos fora da propriedade. ''É o consumo consciente, ecologicamente correto, que não tem exploração do trabalho infantil no campo, sem o trabalho escravo, que prova sua origem natural'', explica Gisele.
A produção das geléias rende ao casal R$ 8 mil reais, os 50 quilos de mel oferecido pelas 18 coméias de abelha Europa rendem R$ 600,00. As frutas desidratadas complementam a renda, fazendo com que cubram os custos da propriedade. Gisele explica que apesar do faturamento, os custos são maiores e diluídos ao longo do ano. A parte de logística (transporte), combustível, depreciação do veículo, energia e o Imposto Territorial Rural (ITR) compõem os gastos da propriedade. ''Estamos tentando implantar energia eólica e solar na propriedade para baixar custo'', completa Leonardo.


