Os produtos transgênicos são seres vivos com capacidade de autopropagação; portanto, podem escapar ao controle de milhares de agricultores no mundo inteiro. As mesmas multinacionais que estão lutando pelos transgênicos são grandes indústrias químicas, fabricantes, ao mesmo tempo, de medicamentos e agrotóxicos (venenos agrícolas). Na década de 50 e 60 afirmavam, como afirmam hoje, que os agrotóxicos não representavam riscos ao ambiente. Já no final da década de 60, resíduos desses produtos químicos já podiam ser encontrados tanto em ovos de pássaros do Alasca, quanto de pinguins da Antartida, porque o uso descontrolado permitiu que atingissem os rios e os oceanos. Ficam dispersos pelo mundo todo. Se produtos químicos dispersaram-se involuntariamente por todo o planeta, como é possível garantir que organismos vivos não irão escapar do controle. A educação chegou a todos os cantos do planeta, temos fiscais sérios, competentes, bem pagos e incorruptíveis em todo o mundo?
Qual a escala de tempo necessária para avaliarmos o impacto ambiental destes organismos, já que levou uma década para detectarmos resíduos de DDT nos polos do planeta. Duas décadas para descobrirmos que algumas moléculas vão demorar 30 anos para desaparecer completamente do ambiente, mesmo que seu uso tenha sido banido completamente. Três décadas para descobrirmos que 95% das mulheres em lactação possuiam resíduos de inseticidas organoclorados no leite e que nossos lençóis freáticos estavam contaminados não apenas por agrotóxicos mas também por adubos químicos(fosfatos e nitratos cancerígenos).
Na era da globalização a geração de empregos tornou-se um problema para todos os países, com exceção dos Estados Unidos, mas principalmente para o nosso país. É sensato estimular um tipo de tecnologia que vai gerar mais desemprego no campo, mais inchaço das cidades, mais problemas sociais? Todas as soluções propostas por esta tecnologia podem ser conseguidas com tecnologias alternativas já disponíveis, mas que exigem mais conhecimento de profissionais de nível médio e superior que irão levá-las ao produtor, mas não temos problema de geração de emprego? Portanto, não precisamos de mais gente trabalhando?
A compra das sementes é obrigatória a cada nova safra e os preços são significativamente superiores. A Monsanto já detém 95% do mercado de sementes de milho no mundo. No longo prazo um erro de um administrador desta empresa coloca em risco o abastecimento de milho em escala global.
Para o Brasil, vivemos uma oportunidade de mercado única, temos um produto que os europeus, os japoneses e os próprios americanos querem comprar, temos terra, infra-estrutura de pesquisa e de produção, mão-de-obra para produzir. Porque vamos passar esta oportunidade para três ou quatro gigantes multinacionais, se podemos gerar empregos para milhares de técnicos, agrônomos e veterinários ?
Na Europa está sendo desenvolvido um conceito para defender os subsídios pagos aos seus agricultores que é a multifuncionalidade da atividade agrícola. Isto quer dizer que uma atividade que mantém o homem longe das cidades, protege o ambiente(conserva água, solo e matas) e garante a qualidade dos alimentos, não pode ser avaliada simplesmente pelo cálculo convencional de custo de produção. Ou seja, estão dispostos, praticamente a pagar qualquer preço, para que alguém garanta a qualidade de vida nas suas cidades superpopulosas. Porque nós brasileiros, vamos perder esta oportunidade em benefício de pouquíssimas empresas?
Finalmente, a fome deixou de ser um problema há 15 anos, pois já temos capacidade de produzir 300 milhões de toneladas de grãos por ano(dados da Embrapa-Cerrados), mas o governo se vangloria de colher 85 milhões de toneladas. Só um país no mundo colhe mais de 250 milhões de toneladas de grãos, são os Estados Unidos. Se nós produzissemos toda nossa capacidade quebraríamos o mercado mundial de comodittes, mas teríamos comida sobrando para matar a fome de muitos brasileiros, africanos e asiáticos. Portanto, fome só pode ser um problema que interessa aos políticos, porque tecnicamente a solução já existe. Ou seja, o argumento da Monsanto (propaganda na Veja e outras revistas de grande circulação) de que a corrida da fome está sendo perdida pela produção é pura demagogia e propaganda enganosa. O benefício é grande para a Monsanto e suas congêneres, mas os riscos são para toda a sociedade.
O autor é engenheiro agrônomo, coordenador técnico da Horta & Arte Produtos Orgânicos

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