No próximo inverno, as previsões de geadas feitas pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) deverão ser mais precisas. Em conjunto com o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC)) de Cachoeira Paulista (SP), e Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), os pesquisadores da área de agrometeorologia estão adotando técnicas que permitem cálculos mais específicos para cada região.
Na semana passada, 15 meteorologistas ligados a estes órgãos estiveram reunidos em Londrina participando de curso sobre ‘‘Previsão de Temperaturas’’, para discutir novas metodologias relacionadas à melhoria da previsão de geadas voltada aos sistemas de proteção da cafeicultura. ‘‘Estamos buscando um refinamento das previsões para regiões mais delimitadas, que permitam tomadas de decisão localizadas’’, explicou o agrometeorologista do Iapar e um dos participantes do curso, Paulo Henrique Caramori.
Segundo ele, as técnicas modernas mesclam dados obtidos no passado com informações do presente para prever com maior riqueza de detalhes o que vai acontecer. Elas servem tanto para previsão de temperatura como para previsão de chuvas e velocidade de ventos.
Sem pânicoSão as técnicas modernas utilizadas por meteorologistas do mundo todo, como sensores em satélites e uma rede planetária de bóias equipadas com termômetros que não têm deixado dúvidas: as águas do Oceano Pacífico estão mais quentes - exatamente 5,5 graus Celsius - que o normal. A causa do fenômeno seria o famoso El Ni¤o, que já vem atormentando o sono de muita gente, inclusive agricultores preocupados com a possibilidade de secas, vendavais ou excesso de chuvas.
Apesar das catástrofes que já causou até agora pelo mundo, Paulo Caramori acredita que não há motivo para pânico, principalmente na região de Londrina. ‘‘Como estamos na chamada zona de transição, os efeitos do El Ni¤o serão menores que no Oeste e no Sul, por exemplo.’’ O que está previsto, de acordo com o pesquisador, é um maior índice de chuvas, provavelmente no período que vai de outubro até início de janeiro. E os produtores devem estar preparados.
‘‘A grande dificuldade do Iapar hoje são os modelos de previsão globais, que valem para o mundo inteiro e depois são delimitados para a América do Sul. Embora o nível de acerto nas 24 horas anteriores seja grande, ainda é difícil definir a intensidade das geadas e as áreas que serão atingidas em cada região’’, afirma Caramori. Por isso o Iapar está buscando utilizar modelos regionais, que permitem as análises em áreas menores, delimitadas por poucos quilômetros. Pelo modelo atual, a área de definição é de 100 em 100 quilômetros.
Recomendações Com relação ao excesso de chuvas, a pesquisa tem recomendado práticas que podem amenizar o problema. ‘‘Por exemplo, fazer a colheita o mais rápido possível, principalmente no caso do trigo e do feijão das águas,’’ diz Caramori. Na medida do possível, o agricultor também deve antecipar o preparo do solo. Só o que não pode fugir da época indicada é o plantio, sempre de acordo com o zoneamento agrícola.
Caramori ainda recomenda que precauções especiais sejam tomadas quanto à preservação do solo, acima de tudo no que diz respeito à manutenção e conservação dos terraços. ‘‘O mais indicado é o plantio direto’’, afirma. O meteorologista lembra que a incidência de doenças pode ser maior em período de muita chuva, e para não correr o risco de ter os defensivos lavados pela água, é preciso, mais do que nunca, atenção especial às previsões climáticas. ‘‘O agricultor tem que começar a se habituar a fazer consultas aos serviços de meteorologia antes de qualquer operação no campo’’, sugere.
O pesquisador Gilberto Cunha, da unidade Trigo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Passo Fundo (RS), reafirma a necessidade de cuidados especiais nas culturas de trigo, soja e milho no Sul do País, ‘‘embora o El Ni¤o não traga, necessariamente, prejuízos’’.
Perdas no nordesteO pesquisador lembra que o fenômeno acarreta muitas perdas no Nordeste, onde acentua a seca. No Sul, o pior é o La Nina, que acontece quando a água do Pacífico tropical fica mais fria do que o normal, exatamente ao contrário do El Ni¤o.
Gilberto Cunha explica que uma das características do El Ni¤o é o aumento do
nível de chuva, principalmente na primavera e início do verão. ‘‘O sinal mais forte é observado em outubro e novembro, e o agricultor já deve estar preparado. Há fortes indícios de que ele vai ocorrer este ano, embora não saibamos sua amplitude’’, diz, lembrando que o fenômeno ocorreu recentemente nos anos de 1987/88 e 1990/91 provocando consideráveis prejuízos.
Mesmo assim, enquanto no caso do trigo o recomendável é que se colha o mais rápido possível para não correr o risco de chuvas prolongadas afetarem a qualidade do grão, em se tratando do milho e da soja não há com o que se alarmar. Os anos de El Nino têm sido favoráveis a estas culturas, permitindo um bom rendimento porque chove no período crítico de falta de água. A única exceção, segundo ele, foi no período 1982/83.
O pesquisador alerta, entretanto, que o desenvolvimento de doenças, gerado pelo ambiente úmido, exige a escolha de cultivares resistentes. O agricultor também deve ser ainda mais exigente quanto à qualidade das sementes e seguir as recomendações técnicas para evitar o excesso de plantas na lavoura, além de estar sempre com as máquinas agrícolas prontas para uso assim que for necessário, em curto espaço de tempo.

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